
ando assim em passos largos para não tropeçar no abismo que não larga do meu pé.

ando assim em passos largos para não tropeçar no abismo que não larga do meu pé.

o dia e seus pedaços de horas e esperas e nada me enchem as mãos e não tenho onde pô-los enquanto o sol, sem me dar outra chance, se põe.

as notas mais límpidas nesse meu solo improvisado são silêncios a quatro mãos.

na falta de bons trilhos boto lenha na caldeira. madeira já me falta, mas fogo ainda não.

na selva de pedra encontro minha seiva, rio quente de lava rubra, minha pedra de toque fluindo nas veias da cidade elétrica.

lamento, mas por enquanto é o jeito: se eu quiser me ver direito tenho que me contentar com espelho em cacos.

tantas retas e setas e sinais pra todo lado não enganam esses meus olhos: o que salva esse vôo de ser cego é seguir o meu olfato.

ponto final é um ponto e só, só formaliza o fim do que chegou ao fim.
interrogações não, elas se engancham e não largam e teimam em ficar de pé sobre um minúsculo buraco negro.

na rua escura e quase quieta o perfume antigo me agarra pelas ventas, me alça da calçada e me arrasta de volta a outras noites com essas flores, guardiãs noturnas de um feitiço doce que esparramam pelas sombras da vida que me aguarda.

tanto tempo buscando a receita dos bons frutos pra descobrir enfim que meu negócio é primaveras.
deus me livre de pasárgada, que o diabo me carregue, pois santos não têm assunto e eu quero gargalhadas.

já subi em bonde andando, já empurrei locomotiva, mas não encontro esses tais trilhos de onde eu tanto descarrilho.

nessa gramática lassa de dias sem predicados semeio laços nas linhas longas das minhas ruas.

o calendário que vale tem datas secretas, primaveras de um dia, dores bissextas e uma coleção de amanhãs com cem anos de idade.