vide verso

na falta de bons versos ando assim meio do avesso.

na falta de bons versos ando assim meio do avesso.

de dias assim espero pouco, todo fruto é uma dádiva. as mãos nuas na terra, revolvo o solo como quem ara, não como quem busca.

o vento que vem de longe me traz cheiros pobres, ruídos duros, nenhum sinal de primaveras nas próximas estações.

abelhas e besouros, a aerodinâmica que se dane: voemos com o que temos e a ciência que se vire.

tanto aço, tanto vidro, tantas paredes em torno de mim e o coração sujeito a chuvas e trovoadas.

o drama de cordas-bambas não é serem altas nem bambas; o que mata é não acabarem mais.

sobre a carne da língua inteira persistem memórias de chocolate, prazer denso e quente e lento com gosto de para sempre.

um dia algo faz desses pedaços um mosaico aprazível, alguém junta esses meus cacos em algo que o valha.
espero.
mas esperar não é meu forte. fica pro próximo.

e lá vamos nós, sem tempo para lapidação mas cuidando para não ser bruto.

para olhar a vida de frente há que se andar do avesso, olhá-la de esguelha, reconhecê-la de olhos fechados.
na rara pausa em que respiro à margem, eu rio.

mais um pouco e estamos fora do mesmo barco. uns naufragam, outros saltam e tu cais.

o que me vem mais caudaloso te cobre em dobras e torvelinhos, carinhos barrocos com gosto de luz e trópicos.

preciso prestar atenção nas horas em que me distraio: quando eu não dou por mim é que venho à tona.

em altos e baixos eu sei o que faço. em calmarias é que afundo.