sina

olho de perto meus rastros, minhas pegadas, para ver se encontro o ponto em que não consigo fugir de mim mesmo.

olho de perto meus rastros, minhas pegadas, para ver se encontro o ponto em que não consigo fugir de mim mesmo.

um suspiro doce pelos momentos velozes em que o tempo pára.
por ora ando parado.

minhas arestas e o meu contorno sonham com o quebra-cabeça onde se encaixem, com a história longa em que terão sentido.
tolice, claro.

memória descarada a minha que engole 40 anos de história mas se embriaga no arrière-goût das estórias que contam.

o melhor do meu passado recheia anos de entrelinhas embrulhadas para presente.

mágico há de ser o momento em que meus truques não funcionem. um dia alguém enxerga esse homem invisível.

entre as linhas do diálogo vivo se esparramam no papel branco entrelinhas lânguidas na folha sedosa, perfumadas com o cheiro de história nova.

manhãs são picos calmos de onde mal se vê as ribanceiras que o dia esconde.

faça chuva faça sol esse coração intempestivo segue sujeito a frentes frias pelas costas.

meus dias pairam sobre teias transparentes, fios tesos ligando o mais distante aos meus nervos mais sensíveis.
em dias tensos os fios são frouxos.

eu me pergunto quando olho para baixo se haveria tanto abismo se eu estendesse menos pontes.

malditos sejam os dias em que o vazio pesa tanto. que durem menos, ao menos.

quem sabe se eu circular mais rápido chego a ver o que parece me seguir a cada passo.

em uma linha: cada nova entrelinha desenrola mais um pouco o velho nó na garganta.

há noites que te seguem dia afora, escondidas nessa sombra que não larga do meu pé.

dos dias que deslizam como barcos na noite só espero que não encalhem. sem horizontes à vista para onde remar?

uma boa calmaria e descobriram o Novo mundo.
na falta de terra à vista eu farejo, teimoso, brisas com cheiro de incógnito.

quanto sentido é preciso pra não se perder os sentidos, para não perder direção?
naturalmente sábias, minhas pernas marcham impávidas deixando filosofias para trás.

um dia quem sabe saberei onde eu piso, um dia a corda há de ser menos bamba, mas mesmo com o passado pesando sinto meus passos cada dia mais meus.

viciado em primavera semeia por onde passa aquilo que não cabe em si.

não há nada de vago na saudade mansa que me vem em vagas, ondas fortes e espuma fresca nas praias desertas do peito.
é tudo muito preciso: só preciso fechar os olhos.

um brinde ao gosto ardente da fome viva dos seres vivos que têm bom gosto.

meu calendário que vale pula dias, salta meses, e costura em trama rica rubis e fios de ouro.