
meu calendário que vale pula dias, salta meses, e costura em trama rica rubis e fios de ouro.

meu calendário que vale pula dias, salta meses, e costura em trama rica rubis e fios de ouro.

um brinde ao gosto ardente da fome viva dos seres vivos que têm bom gosto.

não há nada de vago na saudade mansa que me vem em vagas, ondas fortes e espuma fresca nas praias desertas do peito.
é tudo muito preciso: só preciso fechar os olhos.

viciado em primavera semeia por onde passa aquilo que não cabe em si.

um dia quem sabe saberei onde eu piso, um dia a corda há de ser menos bamba, mas mesmo com o passado pesando sinto meus passos cada dia mais meus.

quanto sentido é preciso pra não se perder os sentidos, para não perder direção?
naturalmente sábias, minhas pernas marcham impávidas deixando filosofias para trás.

uma boa calmaria e descobriram o Novo mundo.
na falta de terra à vista eu farejo, teimoso, brisas com cheiro de incógnito.

dos dias que deslizam como barcos na noite só espero que não encalhem. sem horizontes à vista para onde remar?

há noites que te seguem dia afora, escondidas nessa sombra que não larga do meu pé.

em uma linha: cada nova entrelinha desenrola mais um pouco o velho nó na garganta.

quem sabe se eu circular mais rápido chego a ver o que parece me seguir a cada passo.

malditos sejam os dias em que o vazio pesa tanto. que durem menos, ao menos.

eu me pergunto quando olho para baixo se haveria tanto abismo se eu estendesse menos pontes.

meus dias pairam sobre teias transparentes, fios tesos ligando o mais distante aos meus nervos mais sensíveis.
em dias tensos os fios são frouxos.

faça chuva faça sol esse coração intempestivo segue sujeito a frentes frias pelas costas.

manhãs são picos calmos de onde mal se vê as ribanceiras que o dia esconde.

entre as linhas do diálogo vivo se esparramam no papel branco entrelinhas lânguidas na folha sedosa, perfumadas com o cheiro de história nova.

mágico há de ser o momento em que meus truques não funcionem. um dia alguém enxerga esse homem invisível.

o melhor do meu passado recheia anos de entrelinhas embrulhadas para presente.

memória descarada a minha que engole 40 anos de história mas se embriaga no arrière-goût das estórias que contam.

minhas arestas e o meu contorno sonham com o quebra-cabeça onde se encaixem, com a história longa em que terão sentido.
tolice, claro.

um suspiro doce pelos momentos velozes em que o tempo pára.
por ora ando parado.

olho de perto meus rastros, minhas pegadas, para ver se encontro o ponto em que não consigo fugir de mim mesmo.