sobretudo

a evidência não te salta à vista: ela te invade as narinas, te inebria o tato e nem os ouvidos sabem mais de outra coisa.
eu reconheço a evidência de olhos fechados.

a evidência não te salta à vista: ela te invade as narinas, te inebria o tato e nem os ouvidos sabem mais de outra coisa.
eu reconheço a evidência de olhos fechados.

há um vento que eu cavalgo a vida inteira, ele limpa meus olhos mesmo sem haver terra à vista.
no seio de calmarias ouço seu sopro, seu sussurro e ele embala mansinho meu coração em suspenso.

adoro um bom cheiro de alturas, faz desse deserto um passeio à beira do precipício.

preciso do abraço longo que me lembra onde eu me encaixo, preciso do abraço apertado para sentir o peito aberto.

um, dois, três, abracadabra, e tiro da cartola flores e pássaros e ouro e rubis.
aceite esse truque, é o gesto mais autêntico de quem reencontrou a magia.

agradeço sorridente pela graça recebida de ressuscitar os meus abismos, pela benção luminosa de me tirar o chão dos pés.
entre um trapézio e outro o vácuo me sabe a chocolate e ouro.

na ponta do último ramo árvores não tem idade, não há história, e brotam folhas novas como se hoje fosse sempre.

cercado de esquinas e muros e asfalto e motores ouço límpido o rio revolto e um vento só meu me enfuna as velas e alma.
nesse dia lento e seco banho meus afetos na água da fonte.

essas voltas e volutas, piruetas e fumaça são disfarce fácil para fugir do meu contorno, malabares para esquecer meu próprio peso.
um brinde às feras que me tiram desse circo.

pra chegar a terra incógnita eu segui astros e lábios, segui sons iridiscentes, soprei de dentro do peito o excesso de terra firme.

uma salva de palmas para a palavra mágica que te deixa sem fala e transforma em seda o que parecia tão sólido.

as curvas e ladeiras do caminho acidentado me trouxeram em linha reta - e secreta - para fora do meu mapa. bússolas adeus, não sou mais desnorteado.

preciso educar minha voz para fazer jus às palavras que me faltam.

bom dia, vertigem. bom estar de novo à sua altura.

um toque na nota certa e todas as cordas vibram sonoras.
bom saber que ainda tenho concerto.

deixe-me crer que os mil descaminhos me trouxeram a salvo, que as esperas insanas foram sine qua non para o timing perfeito.
milagres de verdade têm efeitos retroativos.

esses meus cacos e pérolas que espalho aos sete ventos são a catedral aérea do amor vertiginoso, templo aberto aos corações em chamas em que ecoem e calem as notas cifradas nos meus vitrais em pedaços.

sob a espuma do que faço eu disfarço mil silêncios que semeio em todo canto para enfim tocar mais fundo as cordas que a alma esconde.

tome-me assim, ao pé da letra, no ponto exato em que meus pés tocam o solo que eu fecundo a cada passo.