até segunda ordem

vivo por um fio, vivo por enquanto, vivo enquanto creio que há sol por trás das nuvens.

vivo por um fio, vivo por enquanto, vivo enquanto creio que há sol por trás das nuvens.

grandes saltos de salto têm pouco. além do grande passo à beira do abismo, o resto são passadas no escuro decifrando pistas em braille.

em outras palavras, palavra boa é palavra grávida.
palavra de quem semeia ao vento.

conheço esse lugar, reconheço pelo cheiro. em torno nada, acima sol, tão cedo nada de água, e no peito a voz do medo que eu calo como posso.

o inferno não é deserto tórrido. desertos têm luz, horizonte, dá pra ver longe. desertos têm miragens bonitas.
inferno é mata densa, onde cada passo cego se abre a facão.

que nada faça sentido, que nada seja explicável, que nos cacos espalhados eu reconheça a face do acaso.
que eu me conceda hoje a dádiva do absurdo.

queridos rombos, meus abismos e voragens: eu já volto, juro. vou pescar ao vento sementes de primaveras.

o único caminho é em frente, justo onde não vejo caminho algum.

não quero o olho do furacão, eu quero o vento nos olhos.
minha paz é o front.

espelho algum me faz justiça, nem trincado nem aos cacos. espelhos precisam de luz e eu mal encontro os túneis.

nos dias em que me perco que eu perca tudo menos o chão.

eu sorri.
cercado de areia por dentro e por fora, um pingo d'água e me brota um oásis.

entre os fios das minhas teias tem laço, corda-bamba, cordas para eu me enforcar. um deles, fio de luz, mantém meu coração nas alturas.

renovo meu voto por aquilo que não tem escolha, e de olhos úmidos encaro a luz que me lava a alma.

na palma da mão equilibro hastes e pratos e malabares e tochas em roda-viva assombrosa que me distrai os olhos enquanto cruzo abismos sobre o fino fio esticado.

cidade que eu repasso, repiso e viro do avesso para achar onde se esconde a minha hemorragia invisível.