auto-retrato

revejo o que faço e nem sempre me reconheço. cortinas de fumaça, porém, saem à minha imagem e semelhança.

revejo o que faço e nem sempre me reconheço. cortinas de fumaça, porém, saem à minha imagem e semelhança.

nada, enfim. onde quer que os olhos pousem, onde quer que as mãos tateiem, nada nada nada. consegui, enfim, esgotar minhas próprias impossibilidades.

desde menino quebra-cabeças, quando prontos, me desmontam. não acredito em cacos que têm um plano.

companheiro fiel, esse rombo no peito. podia falar menos, porém.

o que mata é esse trem de mundo que só tem quatro estações.
senhor maquinista, eu desço na estação primavera.

matemática não dá conta: depois que um e um são dois, um sem um dá bem menos que zero.

a cidade faz sentido vista do alto, vista de noite, vista do avesso com seus nervos que brilham na carne angulosa de cimento opaco. a cidade faz sentido entre quatro paredes e seus silêncios encharcados de motores e risos que vazam pelas frestas, pano de fundo perpétuo de ruído e máquinas.
minto, claro. desse rio de amperes e volts o que eu conheço mesmo é a margem por trás da fita isolante.

tateio, ausculto, mas no peito há silêncio, e só. encontrei o coração, então.

vazio tem gosto metálico, textura de areia, peso de pedra. e não sai da ponta da língua.

e logo antes do meu grand finale, logo antes que eu me serrasse em dois e sumisse numa revoada de borboletas alvíssimas um coelho me derruba a cartola e brotam flores e mais flores e mais flores, tantas cores, tantas flores, numa primavera mágica que definitivamente não estava no script.

essas pernas dão passos largos, dão passos com pressa, passos que nem sempre notam que estão a um passo de abismos.

noites de sono pontuam meus dias sem virar página alguma, sem fechar capítulos, sem abrir parágrafo no dia que segue. meus dias, quando muito, têm pausas onde eu respiro. fora isso, durmo entre parênteses

e segue a vida vira-lata, achando pelo cheiro meu caminho torto, caminho tortuoso de quem não quer morrer correndo atrás do próprio rabo.

caminho espinhoso dá nisso: fantasia rasgada, sapatos aos cacos, cotovelos puídos, e o gosto amargo de jamais andar como manda o figurino.

pele fina tateia por coisas que a marquem fundo.

luta mais brava essa a de ser manso e manter à flor da pele os rios que te correm fundo.

o bom da estaca zero é estar cercado dos bons e velhos vácuos conhecidos.