grand finale

respeitável público: nada numa mão, nada na outra, nada na cartola, e voilá, fiz sumir o chão sob meus pés.

respeitável público: nada numa mão, nada na outra, nada na cartola, e voilá, fiz sumir o chão sob meus pés.

de tanta corda-bamba perdi o pé pra terra firme. eis o fardo de ser aéreo.

o que ontem era abismo hoje é gosto de vácuo na boca.

tenho que dar uma guinada forte pra deixar de andar em círculos. esse buraco, por exemplo, já me reconhece de longe.

espelho, espelho meu, um dia prometo não aparecer aos cacos.

deve ser por isso que inventaram palcos, para que tropeços causassem riso e ninguém visse o que escondemos nos bastidores.

abismo de verdade é camarada: do chão não se passa. na prática, o fundo do poço é só o começo.

o coração não sente e pronto, os olhos não vêem mais nada. não tem luz que espante a sombra que vem de dentro.

o mapa deve estar certo, tudo se encaixa direito. menos eu.

meu medo é descobrir que minha sinfonia inacabável seja um samba de uma nota só.

bendita seja a teimosia do mundo que insiste em dar rasteira em quem pensa que desta vez o mundo caiu.

viro os bolsos do avesso, viro o peito do avesso, e vejo que viver do avesso é o que eu faço direito.

vida-ilha é assim: mesmo para quem vive à margem a sina é andar em círculos.

sono bom é mar tranqüilo, e não travessia noturna sem margem à vista. que a manhã chuvosa me lave a alma exausta.

o que me impele adiante havendo ou não caminhos é sentir às minhas costas a linha contínua e tesa que estendo sem notar por sobre crateras e tropeços.

troco a clareza por novas dúvidas e meu reino ruído por terras incógnitas.

uma chave torta, uma senha ilegível, sons soltos de risadas distantes ajudam a decifrar um coração aos cacos

mire logo no peito, nesse buraco faminto com fome de chumbo grosso.

coração míope só enxerga de perto, só escuta sussuros, e tatua na pele segredos em braille.