basic stuff

sem água eu agüento, de fome não morro, mas que eu sempre respire o que me enche o peito.

sem água eu agüento, de fome não morro, mas que eu sempre respire o que me enche o peito.

a cidade em que me encontro me abraça com becos e portas e eu me perco à cata de pedaços que me encaixem, me expliquem, me acompanhem cidades adentro.

para quem se mostra inteiro o mundo mostra sempre a mesma face. ao menos é o que parece.

dedilhando teclas negras os meus dedos tecem fios, trançam teias que estendo reverente sobre abismos e vertigens para que contem, trêmulas, dos mínimos sinais de primaveras.

morrer não é problema. o inferno é ser para sempre espécie em extinção.

vendo por este ângulo não há ponto de fuga. nada mais agudo do que andar em círculos.

deve haver jeito melhor de se criar alguma luz do que atear fogo às vestes.

cidades não são cidades, são instrumentos de sopro que sem nós não soam, são violinos gigantes onde dedilhamos as cordas que nos ligam de um coração a outro.

caos quando ataca vem em massa, vem marchando, caos tem um plano desde sempre.

pelo cheiro ainda descubro outro lobo nessas peles de cordeiro.

razão se conjuga ou no futuro ou no pretérito, sobretudo o imperfeito.
o presente não dá tempo.

o caminho para o centro não é reto nem é longo nem é algo que se ensine. o caminho para o centro é deslize, é tropeço, é não se dar conta de como se chegou lá.
o caminho para o centro passa por onde o chão desaparece sob os pés.

os dias nascem sem fazer muito caso, sem fazer as contas, sem notar que os vejo com a alma lavada.

meus erros são a cara do pai, não descansam, e se entrançam nas minhas pernas e brincam com meus cabelos, cabelos cada dia mais revoltos, mais grisalhos.

perder o pé é algo que conheço como a palma da minha mão, mão hábil em criar milagres que me escorrem entre os dedos.

a todos que descarrilharam: me encontrem na estação primavera.