puzzle diário

é aí que eu me encaixo, nas peças soltas sem quebra-cabeças.

é aí que eu me encaixo, nas peças soltas sem quebra-cabeças.

as minhas mãos, quando grávidas, dão à luz entrelinhas.
minhas mãos, quando férteis, semeiam maré alta.

vi hoje alguém que não via faz tempo, alguém de rosto mais jovem que o rosto antigo na minha lembrança.
devo ter me enganado. ou isso, ou minha memória está envelhecendo rápido.

dias têm gosto esquisito, gosto de véspera, gosto de nunca.
benditos os dias com gosto de antes.

náufrago escreve comprido com palavras que dão voltas enquanto roda pela ilha, e de tantas linhas em círculos as garrafas voltam quase todas.
escapar a nado requer ritmo, metade das palavras olhando pro fundo, metade sem fôlego de olho no sol.
circense, estendi uma linha tensa entre aqui e não sei onde, e equilibro linhas breves na palma das mãos estendidas.
só olho para baixo quando preciso de ânimo.

prazer estranho se apegar ao desapego, credo bizarro a descrença praticante.
invisível, desfilo glorioso minhas medalhas de vento.

querer abraçar o mundo te põe muita coisa nos ombros. um bom abraço comprido e lá se vão os pesos mortos.

nasci no asfalto. se quero raízes, que sejam aéreas.

um dia ainda falo bonito, um dia ainda escrevo comprido, um dia me visto direito e danço com a vida um tango argentino.

fogo tem fome.
fome urge, fome ruge, fome lança labaredas à caça de um bom incêndio.