
nada que eu morda me tira esse gosto de queda livre.

nada que eu morda me tira esse gosto de queda livre.

alegria descarada de vira-latas que esfrega o coração em cada esquina para arrancar da carne as dores que não são minhas.

um tombo aqui, outro ali, de cara no chão, de cara na porta, nada que doa tanto quanto os segundos no vácuo.

como anda a vida? a vida não anda, ela gira, rola em círculos perfeitos sob pneus macios e motor possante.
para botar meus pés no chão o jeito é desinventar a roda.

milagres me caem no colo, me lambuzam a face e dançam sorrindo em torno de mim, eu que só tenho olhos para os buracos no queijo suíço.

nem olho em volta. reconheço uma ilha deserta pelo cheiro.

na geometria mais perversa uma reta é o caminho mais longo entre dois pontos cada vez mais distantes.

partir-me em cacos tem seu charme, sua glória, me afia o gume e enfeita com reflexos brilhantes minhas arestas transparentes.
esse coração de vidro tem medo é da volta à areia movediça.

reconheço onde estou, já me perdi por aqui. cá estou de volta dando voltas.