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abril 6, 2005

Palavrão com P maiúsculo

artigo para revista webdesign

Eu percebo que estou ficando jurássico quando vejo que meus palavrões mais caros, justo aqueles que viraram advérbios (para ****, do **) ou viraram minhas “vírgulas” (****), hoje caem mal como um pum.

O mais interessante dos palavrões é que muitos deles homenageiam o que todo mundo tem, ou o que todo mundo faz. Por que *** será que são “feios”?


Estamos em pleno verão, carnaval, e vou me despir dos meus pudores rotineiros. Tape os seus ouvidos e olhos, porque vou soltar um palavrão aqui: Política.

Repetindo de boca cheia y con mucho gusto: Po-lí-ti-ca. Eu faço, você faz, todos fazemos. Freud que me perdoe, mas ainda acho que política nos move mais que tesão. Ditadores velhotes podem precisar de viagras pra sexo, mas pra política estão sempre a postos.

Você não faz política? Siiiiim, você faz. Se você decidiu não fazer política... essa é uma política também. A maneira como você se veste é política. As gírias que você usa. As tuas comunidades no orkut. Comprar um iPod. Não comprar um iPod. Fechar os olhos, abrir os olhos, dar o braço, apertar o passo, largar a mão. Tudo é política.

Sei que não costumamos pensar assim e que esse parece ser um território da estética, da ética, da moral ou gosto. Mas se isso impacta outras pessoas agora ou no futuro, então é política. Ponto.

Pode ficar tranqüilo: não vou questionar teu corte de cabelo, nem tua vida noturna. Por uma decisão política antiga e teimosa, eu vou bater na mesma tecla de sempre: seu trabalho no digimundo.

Eu trabalhava em TV, antes. Quando você percebe que teu trabalho entra sem pedir licença na sala de uma nação, dá um frio na barriga. Você está fazendo parte da vida, das referências, das memórias de milhões de pessoas.

Ok, não estou mais em mídia de massa. Ou estou/estamos?

Eu, por postura... política, prefiro pensar que sim, com um agravante: mídia INTERATIVA para massas. Estou conferindo a milhões um poder que elas nunca tiveram. Estou dando para meus contemporâneos e descendentes mais controle sobre seu próprio destino. Estamos no mesmo barco de Gutemberg e... Pronto: falei que política dá tesão? Já me empolguei.

Voltando ao que nos une, o nosso ofício: qual tua postura política? Aqui vai um check-up:

* você faz coisas só para privilegiados ou todos podem usar?
* Você compartilha o que você aprende?
* Outros podem usar teu trabalho?
* Teu trabalho está aberto a comentários e participação ou é fechado?
* Teu trabalho tem escalabilidade? O que acontece se milhões o utilizarem?
* Teu trabalho gera riqueza social ou é parasitário?
* Teu trabalho dá crédito para quem colaborou?
* Quem paga as contas do teu trabalho?
* Teu trabalho pode servir como base para um futuro melhor?
* Teu trabalho pode evoluir e se adaptar ou vai virar relíquia?
* O fruto do teu trabalho germina e dá frutos ou “estraga” depois de um tempo?
* Teu trabalho “conversa” com todas as plataformas ou é uma ilha sem pontes?
* Dá pra encaixar teu trabalho em trabalhos maiores ou ele é “stand-alone”?
* Teu trabalho reflete a tua visão de mundo ou a dos teus usuários?
* Quem você escuta antes de criar? Gurus, inspirações ou... gente de verdade?

E por aí vai. Decisões altamente políticas em cada interface que você cria, em cada solução que você propõe, em cada gif, flash, javascript, mapa, tudo.

Claro que você pode achar isso “chato”, e querer ser parâmetro de tudo, ou querer ser genial, engraçadinho, irreverente, enfant-terrible, etc.. Para isso tem outro palavrão da década de 60: inocente útil.

Eu tenho uma bandeira: power to the people. Se quiser fazer parte, o prazer é nosso, pra ***.


Posted by renedepaula at 1:13 PM

O gênio da página

artigo escrito para a revista Webdesign

Memórias brasileiras têm um gosto indefinível, misto de doçura e de absurdo, de picante e suculento, gostos de dar água na boca e que te trazem palavras fortes na ponta da língua, mas antes que você as enquadre as palavras te driblam o verbo e lá se foi o discurso, a história, a prosa.

Não somos um país sem memória. Memória não falta, o que falta é colocá-las na linha, em linhas, em blocos comportados longe do carnaval das entrelinhas e da folia do não-dito. Haja jogo-de-cintura para se fazer um balanço nesta terra sem perder o rebolado.


A repórter perguntou: “General, o senhor poderia fazer um balanço do seu governo?”.


Figueiredo não hesitou. Diante das câmeras e dos olhos da nação balançou pra cá, pra lá e disse: “Está bom assim?”


(Creio que foi assim mesmo, creio ainda que absurdo, creio com fé vacilante na minha memória idem).


Há balanços mais tentadores do que o de um general irreverente -Vinicius que o diga - mas a tentação de se fazer balanços numa hora como essa é quase irresistível, ainda mais quando um ano se encerra e pede um epitáfio, um rótulo, uma elegia.


Balanços têm sempre um eixo, e girando em torno do título desta revista eu proclamo: esse foi um excelente ano para o webdesign, sobretudo porque foi um péssimo ano para o webdesign ou, ao menos, para o que se costumava encarar como webdesign.

(Well, quem sou eu para falar em webdesign se nem designer eu sou... mas é que esse ano me fez perguntar: o que eu sou mesmo? O que eu deveria ter feito e pelo visto ainda não sei fazer? O que eu vou ser no ano que vem?)

Acabei esse ano deliciosamente desnorteado, abençoado por experiências que jogaram pro alto toda minha experiência, e que me forçaram a perceber que esse nosso ofício tem que se reinventar de cabo a rabo.

Reveja 2004 e veja o Google. Veja os filhotes do Google: Google Desktop, Google Adsense, Google Gmail, Google Picasa. Google via SMS, via WAP. Que webdesign é esse, que fez um logo, uma caixa de texto e um botão de submit virarem a chave para o inumerável?

Veja o Yahoo. Veja as facetas do Yahoo: messenger, chat por voz, webmail, grupos, mobile, porta-arquivos, agenda online, bookmarks online. Veja o Skype.

Veja o Orkut. Veja os blogs. Veja o SMS. Veja a integração do iPod com o iTunes e com a loja online da Apple.

Há algo maior tomando corpo, se infiltrando nas nossas vidas, redefinindo a maneira como trabalhamos, vivemos e vemos o mundo. Algo que não se restringe a interfaces instigantes, criatividade gratuita ou interatividade de araque. Algo que não espera pela benção da academia, nem pelo champagne de publicitários. Algo que não é privilégio de descolados ou de gente com cabelo esquisito. Coisas com siglas anônimas que nos tornam mais humanos, mais dignos, naturais, letras mudas que nos dão mais voz. Um mundo inteiro de integração, de transparência, de agilidade, um universo inédito que parece com tudo o que eu sempre sonhei mas com nada que eu soubesse fazer ou criar.

Reveja tudo isso que te é tão caro no digimundo e me responda: que webdesign é esse, que nos faz mais completos, mais humanos, mais criativos? Usaram Flash, applets, DHTML? Usaram a cabeça, e pensaram... com a cabeça dos usuários. Pensaram naquilo que os usuários pensam, e pensaram em como fazer coisas fáceis de usar, páginas que fossem como o gênio da lâmpada: você pede, ela faz.

Gênios de historinha concedem três desejos sempre, e se vocês me concederem essa honra, coloco aqui meus 3 desejos para o nosso ofício:

* Desejo que aprendamos a satisfazer desejos reais, e não a inventar desejos vazios
* Desejo que desejos possam ser atendidos a qualquer momento e em qualquer lugar, não só na frente de um desktop de 30 quilos.
* Desejo que milhões desejem milhões de desejos, e que não precisem de gênios para realizá-los

Nós, brasileiros, já demos os primeiros passos.Veja o case mundial de e-governo que é o Brasil. Veja os telecentros da prefeitura de SP.

Estamos num momento mágico, e que pede novos gênios que não cruzem os braços como a Jeannie e fechem os olhinhos, mas que saiam dos oásis e arregacem as mangas.

Mãos à obra.


Posted by renedepaula at 1:12 PM

Super Size Web

artigo pra revista Webdesign

Uma pergunta de quinze quilos: por que será que escolheram o @ e não outro símbolo qualquer? Arroba pesa.

Quem sabe se tivessem escolhido outro símbolo esse nosso digimundo não pesaria tanto, quem sabe assim não teríamos que avançar léguas... polegada por polegada.

Símbolos por símbolos, poderiam ter usado o &. Quando clientes briefam um projeto, normalmente querem isso & aquilo & aquilo também & um fórum & chat & o maior portal do setor, tudo isso @ um preço e prazo ***, enquanto você pensa consigo mesmo: #!%&!!!

Nesse buffet por quilo do digimundo deveríamos alertar os clientes gulosos: escolha com moderação; excessos são prejudiciais a saúde.

Pensando melhor, acho que o aviso vai passar batido: quem arca com ônus dessa gula é o usuário, aquela figura mítica e invisível que paga os pecados do digimundo, amém. É o usuário que vai engolir o vinho azedo e o pão dormido de um site abandonado, é ele que vai passar pelo vale das sombras para encontrar o que quer, é ele quem vai esperar o juízo final para receber uma resposta por email, é ele que vai ter que rezar pra a intro em flash acabar logo.

Essa gula clientélica não é privilégio da internet: 99% das pessoas ignora 99% das funções do celular que escolheu, do software que instalou, do home theater que comprou... Mas até aí é livre-arbítrio, são pecadilhos de foro íntimo que não fazem da vida alheia um inferno.

Já com inFernet... a tentação de um é a perdição de muitos.

De que tamanho tem que ser o seu site? A resposta é simples: do tamanho do seu tempo. Sites são ainda mais gulosos que você, e em pouco tempo vão devorar seus recursos, suas horas extras, seu orçamento... a menos que você crie um site domesticável, que você dê conta.

Se você ainda continua pensando grande, lá vão pequenas perguntas:

* Quem vai responder os emails?
* Quem vai ver se o site está com o tráfego normal?
* Quem vai perceber que o site foi hackeado sábado às três da manhã?
* E quem vai "consertar" o site hackeado a tempo?
* Quem vai back-upear o site regularmente?
* Quem vai atualizar as notícias?
* Quem vai criar e disparar as newsletters?
* Quem vai cuidar de banners e mídia online?
* Quem vai extrair alguma inteligência dos dados de tráfego e transações?
* Quem vai checar se nao publicaram alguma atrocidade no forum?
* Quem vai trazer de volta os usuários que sumiram?
* Quem vai...? E por aí vai.

Cada feature no seu site tem dois lados: é um serviço a mais para o usuário mas é uma responsabilidade a mais para você, uma responsabilidade 24 horas por dia, 7 dias por semana, sem feriado nem descanso. Para dar conta dessa demanda você tem três caminhos: investir recursos (que nunca ninguém tem), não dar conta (e o usuário incomodado que se mude) ou simplesmente... cortar o mal pela raiz, descartando aquilo que é definitivamente um tiro no pé.

Ok, ok, a tentação é grande sempre, a vontade é abraçar o digimundo com as pernas e ter olhos maiores que o mouse (ou o bolso). Mas pense como usuário: é melhor um site cheio dos truques mas mosca-morta, ou um site enxuto, focado, que cumpre o que promete? Eu fico com o segundo: é sempre preferível surpreender com o over-delivering do que frustrar com overpromising.

(Talvez um bom título pra história do digimundo fosse "A Insustentável Leveza da Web").

Tempos atrás um conhecido me recomendou os serviços de um fornecedor de marketing direto digital. O cara é um gênio, disse ele. Anotei a dica, e mais tarde fui consultar a URL.

O site tinha uma página. Um logo, o nome da marca, uma frase, e um endereço de email. Só.

Realmente o cara era um gênio. Esse vai pro céu.


Posted by renedepaula at 1:11 PM

Imaginação Fértil

artigo para revista Webdesign

- Calma. Vamos rabiscar no papel, antes.

Ele me olhou com estranheza. O software já estava ali, engatilhado, pronto para receber de braços abertos nosso furor criativo, nosso ímpeto realizador, nossa... precipitação desastrada.

Quando o assunto é criar, somos como maus amantes: partimos para as vias de fato sem cerimônia alguma, sem preliminares, sem nada.

Dá para se conceber assim? Claro que dá, mas prepare-se para um gestação tumultuada e um parto sofrido.

O mal dos softwares autorais é esse: eles te enganam. Nenhum photoshop, dreamweaver, powerpoint te pergunta: "O que você quer de mim?". Que nada: em todos eles começamos com a cabeça tão vazia quanto a tela nova.

Para alguns processos "autorais" isso pode ser um bom começo. Se você for um poeta beat, se você for um James Joyce reencarnado registrando seu stream of conciousness, se você for um Pollock e quiser jogar coisas a esmo para ver no que dá... Nesses casos o processo "vamuquivamu" pode ser esplêndido, mas se for essa a sua praia eu te sugiro procurar outra revista (ou um articulista menos crica).

Essa liberdade infinita que um software nos dá mascara uma limitação básica: aquele software é capaz de cuspir alguns tipos de coisas, mas quem garante que são as coisas de que precisamos? A solução para o seu problema pode não ser um JPG, pode ser um email bem estruturado. A chave para resolver uma questão pode ser um mero telefonema, e não uma campanha elaborada de email marketing. Ou pode ser... não fazer nada a respeito. Por isso é bom parar por um momento, levantar da sua baia e ir buscar lápis e papel para rabiscar um esquema realmente inovador.

Inovação nasce assim, nasce fora dos caminhos batidos. Grandes idéias são grandes já no rascunho, em rabiscos feitos no guardanapo do restaurante. Se depois disso você vai usar o software X ou Y, macs ou PC's, tanto faz. Ou você acha que "Garota de Ipanema" foi escrita usando a última versão do Office num Tablet PC wireless na mesa do bar?

Softwares viciam a gente. Nunca vou me esquecer de uma frase colada no monitor de uma colega, anos atrás: "De tanto carregar um martelo, você acaba achando que tudo é prego". Well, acho que a frase era mais bem construída, mas você pegou a idéia: nem tudo se traduz em planilhas, em classes Java, nem sempre a solução é um repeteco do que você sempre fez.

Anos atrás, o que eu mais ouvia era: "Preciso aprender internet... Que curso de Flash você me recomenda?". Era de arrepiar. E dá-lhe gente disparando SWF pra todo lado, como se a panacéia universal fosse interatividades misteriosas e sons em loop.

Por sorte a paisagem hoje é outra, e não faltam boas opções para quem quer "aprender internet". Mas o problema persiste: e se a solução não for só internet?

Se pensarmos só em termos de internet, como vamos criar aquilo que virá depois da internet?
Há alguns anos todo projeto mirabolante pressupunha que nosso futuro era a atrofia completa, uma humanidade sentada, com nariz colado em monitores e sorrindo por emoticons. Felizmente alguém teve a saudável percepção de que somos bípedes, gregários, afetivos, e que celulares com câmera poderiam ser mais libertadores e revolucionários do que um hipercomputador no meio do living.

Alguns softwares, porém, te ajudam a pensar, a organizar melhor as idéias. Eu sou um dependente terminal do MindManager (http://www.mindmanager.com), que me permite primeiro organizar pensamentos soltos e depois agrupá-los, conectá-los e enfim exportá-los em vários formatos diferentes. Há também o The Brain (http://www.thebrain.com) ou o Inspiration (http://www.inspiration.com), ou mesmo os outliners do Word ou Powerpoint.

O mais importante, seja qual for a ferramenta, é que você conceba algo abrangente, consistente, bem costurado, e que só então você decida qual a melhor maneira de realizar a o que você imaginou.

Namore muito sua idéia, muito. Só assim vamos fazer nascer projetos que fecundem pessoas, que nos tornem mais férteis.


Posted by renedepaula at 1:10 PM

Teste da Anta

artigo para a revista Webdesign

O site era bárbaro, ficamos todos boquiabertos. Nos idos de 98 não havia muitos sites como aquele. Hoje hot-sites de produto em flash e tal são carne de vaca, mas na época nem se falava em hot-site e as coisas eram feitas em shockwave mesmo.

Bacana mesmo é que o site era a cara do produto, um carro originalíssimo, bem-humorado, cool. Site legal, carro legal, tudo super promissor não fosse por um... alce.

Alce é um bicho descomunal, enorme, que faz vaca parecer pônei. Parece que tem muito nos países nórdicos, tem tantos que um dos testes de segurança para um carro é o "teste do alce".

O teste é mais ou menos assim: você está numa estrada dirigindo feliz e contente em alta velocidade. E se um alce surge do nada?

Well, frente a essa pergunta o carrinho deu a resposta errada: capotou feio. Nem sei se o motorista se machucou, mas o acidente foi fatal pra carreira do modelo. Acho que agora relançaram e tal, vi um outro dia. Mas o alce deixou sua pegada na história automobilística.

"E se...?" não é uma pergunta que brasileiros gostam de fazer. Deus é brasileiro, não é? Por que se preocupar?

Os crentes que me perdoem, mas internet é diabólica. Devia se chamar inFernet. Não há anjos da guarda, não adianta rezar, e nenhuma vela de sete dias espanta hacker.

Em suma: algo vai dar errado. Sempre. E é nessas horas que você distingue o bom profissional da anta: diante de um desastre, ele capota ou reage a tempo?

Por que erros acontecem tanto? Por conta da inelutável Lei de Murphy, "se algo pode dar errado, dará"? Sim, mas por outra razão mais positiva: a cada dia que passa, projetos interativos envolvem mais e mais "frentes": email, call center, negócios, conteúdo, CRM... Cada frente dessas tem mil "alces" na tocaia.

Quer um exemplo? Você tem dois fornecedores "de internet" pra escolher. Cada um traz um projeto mais bacaninha que o outro. Como escolher? Joga um alce na pista:

- e se o projeto der super certo e tivermos milhares de usuários entrando ao mesmo tempo?

ou

- e se todos os visitantes ficarem tão impressionados que vão mandar zilhões de emails?

ou

- e se não dermos conta dos pedidos?

ou

- e se o seu designer ganhar um prêmio e mudar pra Londres?

ou

- e se eu quiser atualizar o site de meia em meia hora?

Como você pode ver, sucesso em excesso também dá encrenca. E por mais que os fornecedores prometam maravilhas, nem todos estão preparados para o tranco do "dar certo demais"

Se problemas vão acontecer quer a gente se previna ou não, porque a gente não relaxa de uma vez? Sim, você pode relaxar e gozar, mas de preferência bem longe de mim.

Problemas "conhecidos" a gente previne de saída. Experiências anteriores (e cicatrizes e calos) ajudam muito, mas um bom exercício de "e se..." pode prevenir muita coisa.

Por exemplo: você recebe um layout todo diagramadinho, alinhadinho e tal. Com um pouco de imaginação, você se pergunta: e se esse texto for muito maior? E se a foto vier num tamanho maior? E se eu precisar tirar esse conteúdo no ar rapidamente? E se eu tiver que alterar alguma coisa no meio da madrugada? E se o usuário digitar errado o endereço? E se o usuário apertar o BACK? E se o usuário adicionar essa página ao bookmark? E se o usuário preferir telefonar?

Alces não faltam.

Há perguntas mais dramáticas: e se o fornecedor falir? E se tivermos problemas depois do projeto estar entregue? E se o fornecedor não cumprir o prometido? E se forem necessárias alterações? E se for preciso migrar de hospedagem?

Antes de se encantar com discursos "legais", "cool" e "criativos", veja se o airbag funciona. Ou então torça para criarem recall de profissionais com defeito de fábrica.

Paranóia? Não. Ter algo online é ter uma vitrine permanente, mas vitrines são de vidro. E atire a primeira pedra quem nunca capotou.

Posted by renedepaula at 1:09 PM

verdade nua e crua

artigo para revista webdesign

Não se deixe enganar. A revista está linda, o papel é muito bom, a impressão ficou ótima... mas o articulista está nu.

Eu poderia disfarçar, te distrair, mas prefiro ser franco: você me pegou no pulo.

Eu sei, eu sei... você comprou a revista porque procura respostas, quer certezas, quer algo que te ilumine o caminho. Se você quisesse colunistas desprevenidos, teria pedido algo diferente na banca. Mas essa minha posição desconfortável pode ser instrutiva, acredite, a menos que você seja daqueles que acredita que aquele corpão pelado na capa daquela revista realmente exista, que ali não tem silicone nem photoshop, que aquela top model está realmente sorrindo pra você.

Claro que você não cai nesse truque. Você é do ramo. Eu, ao contrário das modeletes de plantão, tenho muito orgulho das minhas marquinhas, dos meus cabelos brancos. Estar assim exposto pode nem ser um belo espetáculo, mas nem por isso eu perco o rebolado.

Não espere de mim postura de professor: trabalhar com internet é aprender sempre. Por isso eu desconfio sempre de quem fala empolado, de quem tem certezas demais, de quem mais aparenta do que apresenta. Não é possível manter tanta pose quando se anda em gelo fino. Por essas e outras eu, que caí sentado aqui, te convido a tomar assento e dar uma olhada na paisagem digital.

Dispa-se por um momento das suas crenças e diga pra mim: o que é webdesign? Antes que você me responda com argumentos de decorador ou de engenheiro, eu te pergunto: nesse digimundo enorme, o que é realmente importante para você? Quais são as coisas digitais que, sem elas, você se sente nu?

Eu me exponho primeiro: as coisas digitais mais vitais para mim, hoje, não são páginas ou aparelhos. Mais vital do que tudo é como essas coisas se comunicam. Se meu palm não sincronizar com minha agenda, estou frito. Se aqui no trabalho me cortarem o yahoo messenger, nem sei o que faço. Se aquilo que eu publico nos meus blogs não for importado automaticamente para meu site por RSS, a casa cai.

Mais exemplos? Tem um site em que eu nunca mais vou comprar. O site é lindo, mas na última compra (última nos dois sentidos) eu não recebi confirmação de compra, nem estimativa de entrega e, quando liguei para cancelar o pedido, não me deram código nenhum. Fiquei no mato sem cachorro. De nada me adiantou o design clean e os produtos cool: ali eu não piso mais. A amazon não é tão linda, mas é tudo tão bem costurado e redondo que eu nem me importo se é mais caro ou não.

Webdesign não é só layout, nem se esgota na arquitetura de informação. Webdesign que funciona vai além da web. O mesmo vale para design em geral: não adianta ter algo lindo que não se integra com nada.

Cada vez mais o charme das coisas digitais não está na fachada, não está numa carinha bonita. A graça está nas teias que você constrói com elas: seu celular importa a agenda do palm e manda fotos para o teu blog, e cada vez que alguém publica um comentário você recebe um email que vai ficar para sempre armazenado no Gmail, facinho de achar.

Eu compro algo na web e recebo por SMS a confirmação do meu banco, e logo chega por email uma estimativa da entrega.

Na hora de comprar um palm novo, minha dúvida vai ser se ele conversa com minha rede sem fio, e se eu consigo conectá-lo pelo celular também. Se ele não servir na minha teia, de nada adianta ser lindo. Não quero carregar peso morto.

E aí entra a questão: alguém desenhou isso, alguém planejou e especificou isso. No Orkut, houve um momento em que alguém definiu: só se entra com convite. Em algum momento alguém especificou: o yahoo messenger tem que avisar se tem email novo.

Isso é webdesign? Que tipo de profissional mapeia essas conexões todas, quem planeja essas possibilidades todas? Que software você usa para delinear cenários de uso?

Por isso eu perco o pé, por isso às vezes fico de calça curta: à medida em que as coisas conversam entre si, fica cada vez mais complexo mapear, desenhar, planejar, administrar coisas no digimundo. Um player de mp3 pode virar a indústria da música do avesso ou não, dependendo do quanto ele conversa com a internet.

Um fórunzinho no teu site pode ser sua ruína ou o novo Orkut, dependendo de como você restringe a entrada.

Como lidar com isso? Minha dica: lápis, papel e muita atenção a tudo o que é humano. E nada é mais humano do que se relacionar, e nada é mais intrincado e fascinante do que os relacionamentos humanos.

Claro que você pode fechar os olhos e achar que design se resume ao que os olhos vêem. O que conta, meu caro, é o que o coração sente.

Sem isso, teu design vai criar teias de aranha.


Posted by renedepaula at 1:08 PM

Silêncios Esparsos

artigo publicado no webinsider

Meses de silêncio, eu disse? Menti: nunca falei tanto. Se somar o que eu tagarelei nos últimos meses dava um compêndio ou, no mínimo, um dossiê psiquiátrico. Falei muito.

Você não ouviu? Não faz mal, eram delírios mesmo, idéias soltas que não tiveram força para mover meus dedos. Se fosse alguns séculos atrás valeria o “verba volent, scripta manent”, e as palavras voariam enquanto textos ficam.

As minhas palavras, porém, ficaram, voaram e se multiplicam nas asas do MP3, pousadas tranqüilamente no Roda&Avisa, audioblog que foi minha válvula de escape nesses meses todos de abstinência articulística.

Adorei a idéia. Achei que rich media seria uma maneira... mais rica de me expressar. Cada post improvisado, com seus sete minutos e pouco, continha muito mais elementos do que meras letrinhas e espaços em verdana font size 2.

Mais rico? Errei. Errei longe.

Riqueza mesmo não é timbre, timing, voz embargada. Rico mesmo é algo que só texto tem: entrelinhas.

Você me lê agora, e mesmo sem querer ouve uma voz, imagina um autor, me põe num cenário, e shazam! Eis um René tailor-made, exclusivo, personalizado, um René único entre inúmeros Renés diferentes, tão diferentes quanto são os leitores deste artigo.

Entrelinhas são a bruxaria do texto. Palavras são mera moldura: a natureza humana abomina o vácuo, e a imaginação é uma tapadora automática de buracos, completando elipses, preenchendo o não-dito, até que um bom slogan de meia linha vire um universo afetivo completo.

É por isso, talvez, que emails nos tocam fundo, que emoticons e abs e bjs e LOL nos sejam tão caros, tão vivos. Eles são caixinhas de entrelinhas, cápsulas de nada que enchemos com o carinho que precisamos tanto.

Texto a gente elabora, reescreve, repensa, e quando aquela colherada de letrinhas parte bits afora vai impregnada de humanidade, levando o melhor de nós. Voz não, voz vai saindo, voz trai a gente, engasga, desafina, e nunca vem a palavra correta, certeira, a palavra mágica.

Vejam os Orkuts, os Friendsters, os MatchMakers do digimundo: almas de todo canto compondo auto-retratos em letrinhas, mosaicos de fotos seletas, empacotando para presente o melhor de si, criando playgrounds para a imaginação alheia.

Linhas e entrelinhas e palavras são nossa teia, são com elas que capturamos uns aos outros. É nos vãos dessa trama que entretecemos sonhos comuns.

Eu não me iludo: metade do digimundo é fantasia. Mas me engana que eu gosto.

Posted by renedepaula at 1:07 PM

Silêncios Reunidos

artigo para webinsider, abril de 2004

Curso de língua é assim, você acaba tendo que ler livros que não leria espontaneamente ou que talvez nem descobrisse sozinho, e foi assim que li uma historia estranhíssima, passada numa estação de rádio. O título era algo como “Das gesammelte Schweigen des Doktors...", nem me lembro mais.

Um dos personagens da história produzia um programa de entrevistas, e guardava escondido numa caixinha inúmeros tecos de fita magnética, daquelas de rolo, todas elas organizadas, etiquetadinhas, coisa de alemão mesmo.

Cada tequinho continha... um silêncio de alguém, e nas etiquetas lia-se “fulano de tal pensando antes de responder sobre a dolorosa questão X”, ou “pausa de sicrano antes de entender a piada Y e finalmente rir” . Silêncios com CIC e RG.

Você, leitor assíduo do webinsider, colecionou sem querer um trecho autêntico de silêncio meu, e uma boa etiquetinha seria: “rené pensando por meses em algo que valesse a pena ser dito”.

Vale alguma coisa um bom naco de silêncio? É por quilo, por hora, por metro quadrado?

Silêncio pode não ter preço, mas tem custo, e eis aí o que me finalmente tirou do mutismo: quanto custa o que nunca é dito? Quem paga essa conta?

Ops... isso não é justo. Demorei meses para chegar a essa pergunta, e não é nada legal jogá-la assim na mesa sem uma introdução sequer. Comecemos então, pelo que é “legal”.

Ser brasileiro é bem legal. O clima é legal, a comida é legal, a música é super legal. Trabalhar com internet também é muito legal, é ou não é?

Pode responder que não, fique à vontade. Eu sei que não é legal falar das coisas ruins, não pega bem. É chato ser chato. Nada é mais chato do que você perguntar “e aí, tudo legal?” e o cara dizer que não, e ainda por cima explicar.

Pois bem: eu sou meio chato. Assumo. Volta e meia piso na bola. Pago o preço por ser meio mala, recebo em troca silêncio, no máximo um eco ou outro.

Colocar problemas debaixo do tapete, contudo, pode até deixar a festa mais bonita, mas uma hora a gente tropeça no calombo.

De que problemas estou falando? Vou falar de novo da dificuldade quase incontornável de se trabalhar “legalmente”, ou seja, pagando os impostos, licenciando softwares, pagando salários decentes? Ou vou de novo reclamar de quem conta milagres mas não conta os santos, muito menos os demônios? Deixa pra lá, isso já falei.

O que “pega” pra mim agora é nosso jeito “legal” de trabalhar: informalmente, sem método, no improviso, sem documentação decente, sem definições claras de escopo, de contrato, nada. Super legal, não? Pra mim não.

Chame-me de chato, mas chato mesmo é ter que adivinhar o que é para ser feito, ou ter que adivinhar como algo foi feito, ou ter que resolver no grito, na porrada, algo que poderia ter sido definido tranqüilamente no começo do trabalho.

Isso é tão chato, mas tão chato que ninguém nunca comenta, e tanto faz se vai acontecer tudo de novo, porque no final a gente se vira, o outro cara se vira, o fornecedor se vira, e no final o site vai pro ar (ou o banner, ou o hot-site, ou seja o que for). Tirando os mortos e feridos, salvam-se todos.

É um jeito de se trabalhar. O trabalho sai, não sai? Então. Mas estamos sempre reinventando a roda, andando em círculos, girando em falso, e não é pra menos que para qualquer veterano da área a impressão é que, apesar dos anos todos, avançamos muito pouco.

Sabe onde avançamos? Nos lugares onde se criaram processos bacanas, documentos e metodologias de primeira, onde profissionais compartilharam seus erros e acertos, onde se deu um passo adiante na direção da transparência, da qualidade, da ética.

Resolver coisas no improviso não deixa história, não cria cultura, não deixa legado. Jeitinho não faz nação, nem que tenhamos mais 500 anos pra tentar.

Well, meu negócio é outro. Legal para mim é deixar legado.

Posted by renedepaula at 1:06 PM

Olha que coisa mais linda...

No aeroporto em Amsterdam, no elevador em Nova York, num táxi decrépito, em botequins vazios... Encontrar com ela é sempre mágico, inexplicável, e lá fica você de coração mole, cantarolando junto: “a beleza que não é só minha...”. Essa canção é cidadã do mundo.

A moça do corpo dourado do sol de Ipanema arranca suspiros até de quem não tem idéia do que seja Ipanema, Vinícius, Tom, e seu mundo se enche de graça e fica mais lindo mesmo em línguas estranhas e arranjos idem.

Graça é uma palavra interessante. Há coisas que você não quer nem de graça, outras te deixam sem graça e, sim, ela é uma graça por graça dos céus. Sempre coisa boa, graça, mas a Graça mesmo é cruel: ou se tem ou não se tem.

Beleza bisturi ajeita. Conteúdo escola dá. Mas graça, mesmo, é uma Graça, uma benção, algo que separa a “bonitinha, tadinha” da criatura graciosa e encantadora que virou canção e lenda.

A gente fala tanto em beleza, aspecto e nem pára pra pensar que se tem algo que enchemos a boca para dizer é “gostoso”: “Gostosa!”.

E vá você definir “gostoso”: é algo como a graça. Nem é questão de perfeição, é uma dádiva.

Quer ver algo gostoso? Google. É uma delícia. Instant messenger é gostoso também. Um site como o Orkut é super gostoso. Estão aí milhões de usuários para assinar embaixo.

Como você explica algo gostoso? Ou, pior ainda: como você faz o digimundo mais gostoso?

Vou ser sincero: ainda não descobri. Eu persigo essa quimera faz anos, e o mais perto que cheguei foram vislumbres de como fazer coisas “não-gostosas”.

Procuremos, então, o caminho da Graça no beco dos erros e desvios.

Contemple o abismo: de um lado você tem o usuário, que vai ou não achar gostoso o, digamos, website.
Do outro lado você tem uma turba de designers, desenvolvedores, marketeiros, gerentes de todo tipo, alguns deles “clueless”, outros com mais certeza do que deveriam. Acredite em mim: são esses hiper-convictos que fazem o abismo crescer.

O problema de quem acha que “enxerga claramente a solução”é que nem sempre what HE sees is what YOU get. Da inspiração genial até chegar a algo concreto é uma corrida de obstáculos, onde a tal da idéia pode tropeçar tanto que vai chegar aos cacos lá na ponta. Se chegar.

Por que é tão acidentado o caminho da Idéia? Eu arrisco dois palpites: idéia que nasce tão distante darealidade, lá nos píncaros da imaginação iluminada, talvez só funcione bem no ar rarefeito do Olimpo. Aqui no mundo dos mortais ela vai ser tão desengonçada quanto o albatroz do Baudelaire.

Segundo palpite, e o real motivo deste artigo todo: idéias têm pernas curtas. Você tem que levá-la pela mão, carregá-la no colo, ensiná-la a olhar onde pisa, a usar passarelas. Se você deixar uma idéia ir solta, ela se perde.

Se você não cuida do destino da sua idéia, surge o inferno de qualquer projeto interativo: a expectativa de que os outros... adivinhem.

O fornecedor tem que adivinhar o que o cliente quer, o designer tem que adivinhar como funciona o cliente do cliente, o desenvolvedor tem que adivinhar o que aquele photoshop lindo realmente tem que fazer e quem for consertar, pobre diabo, pior ainda: vai ter que fazer engenharia reversa ao cubo. Pior que o mapa do inferno é um inferno sem mapas. Voilà.

Resultado: um site que que ninguém consegue adivinhar como funciona, se é que funciona. Você já passou por isso, e sabe que não tem graça.

As garotas em Ipanema talvez sejam graciosas por serem brasileiras, mas a nossa ginga nacional não ajuda muito quando o assunto é projeto: adoramos ter idéias, mas não achamos graça na lição de casa, temos birra do trabalho metódico, da documentação, de especificações, de tudo que garanta que a idéia não perca o rebolado na areia movediça que é qualquer desenvolvimento.

Isso é chato. Isso não tem graça. Processo é pra quem não sabe improvisar, pra quem não tem jogo de cintura. Não tem por quê “stressar”, no final tudo dá certo.

A cada vez que ouço “no final dá certo”, minha resposta sempre é: defina “final”. Você se livrar de uma etapa não é final nenhum, é na verdade o começo da etapa seguinte, e coitado do infeliz para quem você passou uma bola quadrada: vai ter que adivinhar, tapar buracos, prender com fita crepe e dar “forward” do mico. No final das contas, o resultado é beeeem diferente da idéia, com qualidades de menos e defeitos a mais.

Se a gente pusesse na balança esse jeito “gostoso” de trabalhar versus a ressaca inevitável, o stress, o desperdício gerado, o resultado mambembe... mas não fazemos isso nunca, porque achamos que tudo sai de graça, que faz parte, e que no final risadas gostosas resolvem tudo.

Resultado: estamos sempre reinventando a roda, estamos sempre começando do zero, não deixamos nunca um legado, uma herança, algo que nossos sucessores possam tomar como base e avançar. Eles têm que se virar.

Nosso usuário acha gostoso ter uma experiência tranqüila, fluida, encantadora, assim como o rebolar despreocupado da garota de Ipanema. Projetos mal gerados e mal geridos podem até se sacudir, mas como diria minha avó: “por fora bela viola, por dentro pão bolorento”.

Posted by renedepaula at 1:05 PM

Casa Da Sogra

a questão da user experience

Dei uma volta pelo shopping, ontem. Numa vitrine vi um modelo de palm que eu não conhecia. Entrei, o vendedor me mostrou o aparelho, fui embora satisfeito por ter visto de perto aquele palm, por ter manipulado uma máquina que eu só conhecia superficialmente.

Este episódio tão prosaico, se o olharmos de perto, pode também mostrar como funciona outra maquininha, a maquininha humana. Os senhores teriam interesse? Sigam-me, por favor.

Em primeiro lugar, por que escolhi um shopping? Resposta: eu não estava procurando nada específico, estava querendo olhar vitrines só, e shoppings concentram vitrines de todo tipo. Mais: estava chovendo muito, e shoppings são cobertos. Por fim, eu queria circular entre gente bacana sem me preocupar com segurança e violência.

Ir ao shopping envolveu um preparo extra, claro. Coloquei uma roupa cuidadosamente casual, refiz minha toalete básica, peguei carteira e celular e fui.

Uma vez na tal loja (sofisticada, diga-se de passagem), dirigi-me ao vendedor com uma atitude sóbria e polida. Eu queria ser bem atendido, e para isso precisava parecer um bom prospect. Na conversa com o vendedor, reforcei essa impressão mostrando meu interesse pela marca e pela tecnologia em questão.

Não comprei o produto, mas saí de lá melhor informado, com condições de fazer uma decisão mais acertada numa compra futura. O vendedor, mesmo sem ter efetuado a venda, cumpriu o seu papel ao aumentar meu potencial de compra, e também por criar um vínculo positiva entre mim e a loja.

Os senhores teriam interesse também em internet? Que ótimo. Por esse lado, por favor. Saiamos do mundo (a)palpável e entremos no digimundo.

Aliás... “entrar” é a palavra correta? Quando queremos comprar online dizemos “entra aí no Submarino” “abra a Livraria Cultura”, ou “vai na Americanas”, mas em verdade a gente não vai a lugar algum, não entra em nada. A gente chama, e eles vêm. Sites vêm até você, e não o contrário.

Quem tem que se preparar todo, ficar bonitão e falar direito é o site, não você. Você, de cuecas ou não, é que vai medir o vendedor de alto a baixo. Essa inversão de papéis têm implicações sérias.

Em primeiro lugar: por que você escolheu a internet? Por que estava chovendo, também? Por que é fácil pular de site pra site conferindo preços e lançamentos? Por que você não queria se expor à violência urbana? Hmmm... mais ou menos a mesma lógica do mundo físico. Racionalmente, pelo menos.

Vamos agora checar a parte irracional. O site está entrando na TUA casa, no TEU computador, usando a TUA linha telefônica... e o mínimo que se deve esperar é que ele seja educado, que ele “se comporte”. Eu fico transtornado quando um site que eu convido para adentrar na minha vida se comporta mal: é pesado, abre janelas que não devia, tenta instalar plugins que eu não quero, ou fica parado na porta cantarolando uma introdução desnecessária. Malabaristas num semáforo de rua até que têm seu charme, mas não na information highway.

Aparência e “toalete” também contam. Se você recebe um email de uma marca sofisticada, vai estranhar muito se ele vier de bermuda e chinelo, falando português ruim. Vai achar que é golpe, e nem vai abrir a porta para ele. Pro lixo direto.

Um último aspecto: respeito à tua inteligência. Internet para mim é como a lâmpada de Aladim: você esfrega, um gênio aparece por download, e te promete 3 desejos. Se depois dessa mágica toda você faz um pedido singelo e o gênio coça a cabeça, diz “veja bem...”, você enxota o canastrão e diz “fecha-te sésamo”. Na tua vida esse cara não entra mais.

Em shoppings, em sites, em lâmpadas mágicas, o que há são usuários humanos, e que se tornaram mais dignos e humanos ainda quando ganharam um superpoder: o mouse power. O cara clica o mouse e... ai de você se não atender seus desejos. Nem precisa ser gênio para adivinhar a punição: mil e uma noites sem aquele unique visitor.

Pensando agora como loja, e não como cliente. Se encararmos a loja online como um caixeiro viajante, que notícias ela traz depois de tanta andança? Ela entrou em milhares de casas, conheceu pessoalmente um mundo de clientes... e não tem nada para dizer? Isso sim é que é desperdiçar oportunidades.

E para você que é nosso cliente preferencial, um brinde: o site Good Experience é um bom começo para quem quer ver o mundo por outros olhos, os olhos do consumidor.

Volte sempre, o prazer é nosso. Servimos bem para servir sempre.

Posted by renedepaula at 1:03 PM

Onde Diz “Push”, Empurre

a questão do cenário de uso


"É uma porta."

Tomara que ele não ouça isso, tomara que seja surdo como uma porta. Eu, no seu lugar, ficaria ofendidíssimo. Afinal, quem gosta de se sentir burro?

Ele ouviu. Era um professor peculiaríssimo, um ponto fora da curva sob qualquer aspecto: esquisito, mal proporcionado, hostil... mas parecia feliz consigo mesmo. Nunca se abalou com as piadas e apelidos e a rapaziada imitando.

Imperturbável, o senhor bizarro, até que um dia...

Numa prova, um aluno irritado deixou escapar algo como “o cara é uma porta”. Para espanto geral, o professor subiu nas tamancas, perdeu as estribeiras. Bradava, transtornado: “podem me chamar de palhaço, do que for, mas de incompetente, JAMAIS!”. Saia justa.

Agora fica a questão: por que uma porta é burra? Um burro parece burro, uma anta idem, mas uma porta... Eu convivo com portas de todo tipo, algumas educadíssimas que se abrem mal eu apareço, outras discretíssimas que se fecham com polidez, mas portas burras, não me ocorre nenhuma. Teimosas, talvez? Feiinhas? Mas de burras, não me lembro.

Algumas portas lindas, nobres e elegantes te fazem sentir burro, isso sim, e isso é imperdoável.

Portas anti-pânico, aquelas de saída de cinema, devem ser ótimas se você estiver em pânico, com uma turba descontrolada te prensando contra a dita cuja. Mas se você estiver calminho, querendo comprar pipocas, a porta é um porre. Cadê a maçaneta? Puxo ou empurro? Sorte que está escuro, porque ao menos ninguém testemunha você sendo burro... como uma porta.

Falar em portas é uma boa maneira de abrir as portas para uma questão fundamental em qualquer projeto interativo: o cenário de uso.

Ilustremos: o cliente te pede “põe uma porta aí”. “Que tipo de porta?”, você pergunta. O cliente, que tem mais o que fazer, diz delicadamente “uma porta, sua porta!”. Pronto, abram-se as Portas da Desesperança. Vai começar uma novela de desentendimentos.

Você escolhe uma porta esplêndida, de titânio, com maçanetas italianas, e com um originalíssimo funcionamento articulado. Desastre total: ali é a saída de um aeroporto, e nesse cenário de uso:

* O usuário quer sair daquele lugar, e uma porta tão estilosa parece entrada, não uma saída.
* O usuário está com malas e sacolas, e não vai ter mãos pra maçaneta nenhuma.
* O usuário quer mais é sumir dali, e não vai parar para fechar a porta atrás de si.
* O usuário está vendo a porta pela primeira vez e não vai revê-la assim tão cedo, portanto não vai querer se dar ao trabalho de aprender truques.
* Os usuários vêm em massa, e uma porteira de gado seria mais eficiente do que uma porta conta-gotas.

Metáforas à parte, um dos aspectos mais importantes no mundo interativo é o cenário de uso. Usuários usam, usuários querem usar tua interface para alguma coisa, não só para ficar olhando. Como ele quer usá-la? Qual o contexto?

Pensemos num exemplo concreto: uma loja online. Enquanto ele está passeando pela loja, conferindo produtos e ofertas, sua atitude é uma. A hora em que ele opta por colocar um produto no carrinho, a atitude é outra.

Na primeira os atributos do produto, as ofertas são o foco, e o usuário vai se sentir mais à vontade se puder fuçar por conta própria, sem compromisso, sem consequência.

Na hora do carrinho as coisas mudam. Agora qualquer besteira que ele fizer pode ter consequências, agora é tudo mais sério, e embora seja um cenário muito mais racional, pode ser um excelente momento para “segurar na mão” do usuário e transmitir-lhe segurança e apoio. É uma hora de decisão, de ação, e ele pode não estar familiarizado com o processo. Ele pode ter medo de errar.

No primeiro cenário o que conta é a sedução, a liberdade, o descompromisso. No segundo cenário a confiança, a privacidade e a facilidade são as tônicas. Quando você desenhar as interfaces, a comunicação, o processo todo, você deve levar em conta essa diferença de ambientes. Na cabeça do usuário, ele abriu uma porta e passou para um outro espaço, um espaço com outras regras. Se você for designer ou arquiteto de informação, não tenha pudores em mudar a cara da interface.

Numa mudança de cenário desse tipo, o usuário não vai ficar desorientado se alguns elementos sumirem, pelo contrário: vai ter certeza de que abriu a porta certa e passou para outra sala.

Comprei um guarda-chuva de um camelô outro dia. Cinco “reau”. Valeu cada centavo: eu precisava andar três quarteirões na Paulista debaixo de um pé d’água, e o tal guarda-chuva plin-plan-plum, se abriu automaticamente. Cheguei onde queria, e o fechei sem maiores dramas. Claro que eu o esqueci nem sei onde, mas não fiquei triste. Ele cumpriu sua missão, e se eu precisar de novo, sei que vai ser fácil achar.

Mas porém contudo todavia se o cenário fosse outro, se fosse um evento no Jockey, se fosse um presente de dia dos pais, se eu fosse aparecer na Caras, meu guarda-chuva chingling... não passaria da porta.

Mas se eu estou na chuva, é para não me molhar.


Posted by renedepaula at 1:02 PM

O que você esperava?

a questão da expectativa

artigo publicado na revista Webdesign n.4


É simples: dê a mão, logo vão querer o braço. Simple as that. Quer ver?

Você criou um site? Ótimo! Posso ir lá então e fazer o que eu preciso sozinho? “Mais ou menos”??? Como assim?
Que bom que tem um “fale conosco”! Vocês me respondem logo? Como assim “mais ou menos”???

Usuários são tão cruéis. Se eles soubessem o trabalho que deu, as guerras políticas, o dinheiro que se gastou, as noites em claro... Eles pensam que é fácil?

Agora respondo eu: pensam. E têm toda razão em pensar.

Basta ele digitar o endereço do teu concorrente e pronto, ali está, no site do outro ele pode, no teu site não. Por quê?

Nem tente explicar. Eu conheço os bastidores, sei como é. Os usuários também não querem saber, de problemas já estão bem servidos, e contam com teu site para resolvê-los.

Essa impaciência vem de longe, e a culpa nem é nossa. Pense bem: desde sempre tudo o que você fazia no computador era quase instantâneo. Escrever um texto, usar uma enciclopédia em CD-ROM, jogar um joguinho... Se demorava um pouco, o problema era o teu PC, e a questão era fazer ou não um investimento extra.

Quando a internet entrou na vida cotidiana, parecia mais uma coisa que o teu computador fazia. Ninguém tinha (e quase ninguém tem) idéia de que uma URL que você digita, uma conexão discada, qualquer coisa internética passa por uma corrida de obstáculos ida-e-volta cheia de lodaçais, arame farpado, bandidos, abismos. Para o usuário normal continua sendo mais uma coisa que o computador faz.

A expectativa que já era alta se agravou com o tempo. O usuário vê duas páginas lado a lado, a da Amazon e a tua. Como você vai explicar a diferença cavalar? São páginas, enfim.

Nos anúncios de TV, nos outdoors é fácil. Uma bela modelo, um fotógrafo decente, um slogan “a marca X é mais você” e pronto. Ninguém espera nada mais de um anúncio. Mas qualquer coisa online gera uma expectativa difícil de atender.

É claro que você espera de mim que eu faça mais do que discorrer sobre o problema. É de se esperar que eu traga soluções, e não mais problemas.

Vamos ajustar as expectativas, então. Em primeiro lugar: a natureza humana não vai mudar. Essa impiedade é uma condição de contorno do nosso problema. O que podemos fazer é levá-la em conta, gerenciá-la, e se possível surpreendê-la positivamente.

Um memorável chefe meu dizia: o mais importante é gerenciar expectativas. Como você gerencia expectativas? Jamais prometendo o impossível e sempre indo além da expectativa criada.

Gerenciar expectativas não diz respeito apenas ao cliente final. Em todo o processo de se construir produtos interativos, é fundamental que esteja sempre claro o que se espera de cada um.

Um layout irresponsável no Photoshop, com lindos botões de “busca” e “fale conosco” podem passar batido no processo até a hora em que o site vai pro ar, e então se descobre que uma boa busca é um projeto complexo e custoso, e que um “fale conosco” só funciona se houver alguém que responda. Mas aí já é tarde demais, simplesmente não funciona tão bem como... o Google (outro inflacionador genial de expectativas).

Um vendedor de soluções interativas que diz “Claro! O site pode ter um chat para os clientes VIP, claro que sim” pode até fechar o negócio mais rápido, mas depois vai ter muito que explicar na hora de manter o orçamento e, sobretudo, na hora de entregar o produto no prazo.

Meu conselho: tenha sempre certeza do que você promete, e entenda o melhor possível aquilo que teu cliente espera. Deixar para descobrir só na hora H, no clique do mouse, é um risco insano: você estende a mão, eles querem o braço, não dá pé e por fim... cabeças rolam.

No digimundo, quem te alcança sempre espera alguma coisa ;).

Posted by renedepaula at 12:58 PM

bela droga

a questão da confiança

artigo escrito para a revista WebDesign n.3

- Sou contra.

Contra? A entrevistadora ficou tão desconcertada que repetiu a pergunta:

- Você é contra liberar as drogas???

O rock star era contra mesmo.

- Primeiro porque quem é chato, com droga fica mais chato ainda. Segundo porque se liberar, não vai ter pra todo mundo.

Adoro essa estorinha, ainda mais pelo fato de ter acontecido mesmo, mutatis mutandi, anos atrás. Adoro também por ter na prateleira “As portas da Percepção” e “A Ilha” do Huxley, e outras pérolas do tempo em que drogas prometiam expansão de consciência e tal. Por uma questão de timing (tenho 39) perdi essa grande balada, e só vim a conhecer a grande ressaca que sobreveio à farra. Mas teve um bonde que eu peguei andando e tive chance de sentar na janelinha: o tal do digimundo. Não dava barato, mas que expandia a consciência, expandia. E era barato, liberado, e tem pra todo mundo (ou quase).

Well, anos depois lá vem outra ressaca de novo. A cada vez que puxo meus emails com overdose de spam, a cada vez em que algum xarope ataca meus sites, a cada novo virus worm fico pensando: que droga.

Diabólico mesmo são as alucinações: você abre um email achando que é de alguém querido e pumba, era um vírus disfarçado. Você recebe um email do seu banco, abre a tal da página e pumba, é golpe. Droga mesmo é que você não sabe mais em que confiar, em quem confiar.

Como fica a vida se não pudermos confiar em ninguém? Nessas horas que a gente vê que confiança, como diziam nossas avós, demora uma vida pra se conquistar e um segundo pra se perder. E uma vez perdida, já era.

Confiança no digimundo é uma questão delicada. No mundo tijolão os bancos constroem sedes espetaculares para inspirar confiança. Governos fazem capitais monumentais para inspirar confiança. Documentos vêm cheios de selos e carimbos pra inspirar confiança. Um bom locutor empresta confiança a um comercial chinfrim. E no digimundo? Como você mostra que é confiável?

Como sabiam nossas avós a questão é dupla, na verdade: como ganhar a confiança e como não perder a confiança alheia?

Lembro-me de um chefe que tive, que dizia sempre: você tem uma chance só de causar a primeira impressão. Só uma. Ele também dizia: alguém só é teu cliente se ele te compra de novo. Mais ou menos a mesma coisa, enfim.

“Parecer” confiável é uma preocupação fundamental. O design do seu site inspira confiança? Reflete os valores da empresa? A arquitetura de informação, a clareza do conteúdo, até mesmo o desempenho das funcionalidades denota seriedade, compromisso, competência? Tem muito site por aí que é um tiro no pé, que depõe contra a empresa e a seriedade de quem trabalha nela.

Emails são um território minado para confiança. Muitas vezes a única pista que você tem para saber se aquele email é do seu banco ou não é o estilo de redação, os erros de português, e sobretudo a atitude, todos eles elementos muito sutis que têm a ver com confiança.

Alguns exemplos do mundo do papel podem ajudar. Uma revista Veja ou um Estadão tem um estilo tão consolidado de redação, de editoração, de postura que você reconhece a origem mesmo num fragmento xerocado. Por outro lado, um email com um texto supostamente escrito por Jorge Luís Borges (ou pelo Veríssimo, Ziraldo, etc...) nos deixa com a pulga atrás da orelha por conta de alguns desvios de estilo que traem a farsa.

Constância e coerência são difíceis de se manter em comunicação: mudam as estratégias, mudam as equipes, mudam os fornecedores... Mas para o teu consumidor, a marca ainda é a marca, e qualquer coisa estranha, qualquer acidente de percurso pode por a perder uma confiança conquistada ao longo de anos.

Confiança é algo profundamente humano, é como nos relacionamos com o mundo. O digimundo, porém, está começando a criar “confianças” automáticas, inumanas, implacáveis. Faça um “subject” meio suspeito no teu e-mailing e ele pode ser barrado por filtros bayesianos. Mande um anexo gracioso e ele pode jamais chegar a quem devia, por seguranças automáticas de sistemas.

Comunicação no digimundo requer atenção duplicada: teu target está de olho, os filtros também. Um deslize, e você cai na vala comum.

Consistência em doses diárias, transparência na veia. O digimundo tem remédio sim. Confia em mim.

Posted by renedepaula at 12:56 PM

e-business, e-mail, e-commerce, e-daí?

a questão da Relevância

artigo escrito para a revista Webdesign n. 2

É uma ironia eu confessar isso por escrito, mas... anda difícil escrever. Não que palavras me faltem, isso não. Sou tão verbal que meu cérebro funciona em DOS, sem interface gráfica. Sou um candidato a Cyrano de Bergerac com nariz e tudo. Nem é o caso de falta de idéias, tampouco: elas ainda me assediam o dia todo e mal dou conta delas, o equivalente cerebral de um Don Juan que passou Italian Pine.

Meu problema é outro. Meu problema é relevância.

Dramática, a questão. É só me ocorrer uma idéia nova e logo vem a asa negra da dúvida, perguntando com voz funesta (em alemão, claro): Und? Pronto, broxei.

Essas três letrinhas querem dizer “e” em alemão, e colocadas como pergunta equivalem ao nosso “e daí?”, ao inglês “so what?”, ao francês “et alors?”. A diferença é que em alemão dói mais.

Und? E aí, o que essa idéia tããão bacana acrescenta ao quadro geral das coisas? Qual a sua (argh) relevância? Pergunta cruel.

Ok, se minha vaidade fosse maior que o juízo, eu poderia dizer “eu acho relevante, e basta”, mas eu sei que não basta. Se a idéia (ou ação, ou projeto) não for relevante para os outros, que fique na gaveta, nos meus blogs e olha lá. De irrelevâncias o mundo já está cheio.

Faça um exercício rápido: dos emails que você recebe, quantos são realmente relevantes pra você? Quantos sites são relevantes no teu dia-a-dia? Em cada site desses, quais são as coisas realmente relevantes ali? Peneirando, peneirando, sobra pouco, e o resto é uma avalanche de desperdício que custou dinheiro, não trouxe resultados para quem fez e, sobretudo, sacrificou seu bem mais importante: tempo.

E aí vem a pergunta que não quer calar (em português mesmo): se algo é irrelevante, por que existe/persiste/insiste? Custa dinheiro para fazer, não custa? Custa. Toma espaço, não toma? Toma. Toma tempo, não toma? Toma. Então, por quê?

Eu me pergunto essas questões sempre que aparece futebol na minha frente. Ou política. Ou esportes de maneira geral. E aí que cai a ficha de novo: não importa que esses temas sejam irrelevantes pra mim. O que conta é que para zilhões de pessoas eles são relevantes sim, vitais até, e muito dinheiro gira em torno disso. Ou seja: relevância é relativa, muito relativa, e umbigo não serve de parâmetro pra muita coisa.

Mas voltemos ao nosso tema central, o digimundo. Se você está elaborando um projeto interativo qualquer, seja um banner ou uma loja online ou um portal de notícias, questione a relevância dos menores detalhes:

- Esse texto imenso é relevante?
- Essa animação é relevante?
- Saber o CIC e RG do usuário é relevante?
- Essa interatividade XYZ, esse fórum, esse login, essa enquete, esse cadastro, esse chat, esse game são relevantes?

E por aí vai, a sabatina não tem fim. Mas para responder a essas questões todas sem bancar o Rei Levância absoluto e incontestável, você tem que descer do trono e conhecer:

- O público-alvo e suas necessidades (eles querem realmente saber seu saldo bancário por email toooodo santo dia?)
- As tais necessidades (quem disse que o melhor jeito de resolver essa necessidade é a internet? E se o telefone for mais prático? E quem disse que eu quero que um banco me dê dicas de culinária?)
- O business do cliente e seus processos (sim sim, pedir o tal do CIC tem razões jurídicas que você nem desconfiava, e é importante sim a tal da “press area”)
- O cliente (que pode achar relevantíssimo a vista aérea da fábrica, a foto do fundador, etc., mas como ele é quem paga a conta, paciência)

Conhecendo melhor os envolvidos, é muuuito mais garantido dizer o que é relevante... para as pessoas relevantes. Você pode descobrir, inclusive, que algumas aparentes irrelevâncias são super relevantes, insubstituíveis, vitais quase (pense em novelas, por exemplo, ou horóscopo).

E aí você me pergunta: “Und? Qual a relevância da relevância? O que ganhamos com esse processo todo de depuração? Pontos no Karma?”

Não sou um expert em Karma e infinitudes, mas dá pra responder a isso com base em coisas bem materialistas.

A primeira resposta é: grana é recurso escasso. Grana não se joga fora. Se você quiser que seu cliente invista seu rico dinheirinho em alguma coisa online, que ele invista então em algo realmente relevante.

A segunda resposta é: se tem algo mais escasso do que grana, mais irreversivelmente irrecuperável do que dinheiro, é tempo. Seja rico ou pobre, teu usuário tem 24 horas por dia, sete dias por semana, e nenhum dinheiro do mundo faz relógio andar devagar. Pra poupar seu tempo: é muito provável que seu cliente tenha mais o que fazer do que se enroscar em mais irrelevâncias.

A terceira resposta é: o mundo mudou. O consumidor mudou. Essa história de ter um mouse na mão, de ter um endereço de email, isso é histórico, e não tem volta não. Ou você mostra ao que veio, ou um clique te manda pro trash. A seleção natural agora é movida a mouse-power.

Mas esse é o tema do próximo artigo, empowerment. Até lá.

E se fui irreverente demais, por favor... releve :)

Posted by renedepaula at 12:55 PM

Pisando em ovos

a questão da conveniência

este foi meu artigo de estréia para a revista Webdesign, que também estreava nas bancas.

“O carro dos ovos chegou!”

Ovos? Sim, uma dúzia de ovos agora cairia bem, sobretudo se caíssem na cabeça desse chato movido a diesel, desse entrepreneur da mídia de interrupção, interrompendo minha soneca de sábado com uma gravação que já sei de cor.

venha a Maomé se anunciando no megafone como se fosse a Boa Nova. Ovos são ovos, oras.

Eu nem como ovos. Devo estar perdendo algo fabuloso, a julgar pelo entusiasmo da gravação. Deveria dar vivas pela chegada dessa benção dos céus à minha modesta rua da Bela Vista, mas não estou nem aí para ovos, ainda mais se eles estão bem aqui, no meio do meu ex-sossego.

Esse ovo-man é meu SPAM auditivo.

Comunicar é pisar em ovos, e na internet isso é pior ainda. Claro que ainda há gente vendendo internet como se fosse ovo de colombo, ou como a galinha de ovos de ouro. O próximo que te disser isso, siga meu conselho: ovo nele. Internet não é mole não, e você sabe por quê? Internet envolve gente, e tudo que envolve gente é delicado, trabalhoso, intenso. Gente é um bicho esquivo, difícil de agradar, que não cai em qualquer armadilha.

Claro, você conhece muito bem seu negócio, você sabe tudo de internet, tecnologia e webdesign, mas se não entender de gente, você está frito: quem está segurando o mouse está com o dedo no gatilho, pronto para fechar sua pop-up, detonar teu email, e sobretudo para passar ao largo do teu banner. Ele não pensa como você, e não tem nenhuma razão para te dar uma chance, quanto mais uma segunda chance.

Esqueça por um momento que você é um profissional da área, e me responda como consumidor, como pessoa física-química-biológica: você tem tempo para mais alguma coisa na sua vida? Você quer ficar íntimo de todas as marcas de xampu ou automóvel ou biscoito do país? Você vai dar conta de mais uma newsletter no seu inbox?

Vou adivinhar: não. Acertei? Tomara que sim.

Se acertei é porque estou começando a adivinhar o que passa pela cabeça dos nossos usuários, e devagarinho vou descobrindo como funciona o sistema operacional mental de quem nos compra e paga. Eu já tenho algumas pistas, na verdade seis delas, e vou compartilhá-las contigo uma a uma.

Por uma questão de, digamos, conveniência, vou começar pelo fator mais básico: conveniência.

Conveniência, para mim, é algo simples: eu quero, eu consigo. E ponto. Eu quero agora, do meu jeito, e pronto. Se não for assim, não brinco mais. Vou até a loja comprar, ou passo a mão no telefone e ligo. Ou empresto o jornal do vizinho. Não estou aqui para perder tempo. Internet é bom quando ajuda.

Simples, não? Deveria ser, mas uma parte enorme dos micos da internet vem exatamente daí, de colocar pelos em casca de ovo.

Quer exemplos? Pop-ups intrometidas. Animações em flash num site de serviços. Login e senha a troco de nada. Buscas que não trazem resultados decentes. Sites que demoram a carregar. Informações triviais escondidas. Menus bizarros. Fale-conosco que não responde nunca.

Você quer algo tão simples... e complicam tudo.

Se simplicidade é tão... óbvio, por que esses erros continuam sendo tão comuns? Fácil: porque, assim como o ovo-man, ficamos tão apaixonados, fissurados, entusiasmados com nosso próprio ovo, dedicamos tanto da nossa vida a ele que esquecemos que, para o cara que nos compra, ovos são ovos. Ele pode muito bem preferir nosso ovo, mas não vai tatuar um ovo no peito, baixar screensaver de ovo, assinar nossa eggs-letter ou raspar o cabelo pra pintar a cabeça de branco.

O que ele espera de nós é que, quando ele precisar de ovos, consiga achar os nossos, e que eles estejam tão bons quanto sempre. E que, caso ele precise falar conosco, a gente o ouça, sobretudo se for pra reclamar do ovo-man aparecendo em pleno sábado a tarde.

As tentações são muitas, eu admito. Não custa quase nada pendurar um fórum aqui, um chat ali, uma senha acolá, e de quebra uma newsletter ligada a um banco de dados de clientes e prospects . Mas o que esperamos com isso? Uma ovomania contagiosa, um surto de ovo-lovers lotando nossos cadastros? Sim, talvez esperemos algo assim, mas aí vem a grande pergunta: é isso o que nossos clientes esperam de nós? Qual é, enfim, a sua expectativa quando nos procura na internet? Uma experiência imersiva no mundo dos ovos, um portal customizável segmentado com cross-sellings personalizados ovo-to-ovo? Ou o que ele espera é simplesmente entrar, resolver seu problema e só aparecer de novo quando precisar de nós?

Fidelidade, no frigir dos ovos, é isso: quando precisarem de ovos, é a você que eles virão. Contar com mais do que isso é contar com ovos dentro da galinha.

Há algo que possamos oferecer nesse meio-tempo para fazê-lo mais feliz? Talvez haja algo relevante... mas relevância fica para o próximo artigo.

O papo dos ovos chegou.... ao fim ;)

Posted by renedepaula at 12:52 PM

Confissão honesta

Duas ou três coisas despertam em mim uma inveja indigesta. Hoje torno pública uma fraqueza inconfessável: sempre invejei pessoas que estavam na época certa, no lugar certo e vivenciaram plenamente momentos irrepetíveis. Eu era uma criança em maio de 68, um adolescente tímido nos anos setenta, e acabei tendo que engolir a estranha década de oitenta com a certeza de chegar no final de uma festa enlouquecida. E fim de festa é sempre uma lástima, ainda mais se você é o único sóbrio.

Algumas das histórias mais invejavelmente saborosas e coloridas que já ouvi foram contadas (e muito bem contadas) por veteranos do rádio e da televisão. O rádio teve uma expansão brilhante no nosso país, levada adiante por grandes atores, dramaturgos, músicos, artistas circenses e visionários. Ouvir relatos desses pioneiros é arrebatador.

Essa mesma geração abraçou a TV com uma missão impossível: fazer televisão sem nunca ter visto televisão. Um ou outro felizardo ia aos Estados Unidos e voltava contando as maravilhas, mas sem nem uma VHSzinha pra poder mostrar. Acredite se quiser, mas TV era ao vivo. Nada de videotapes, séries enlatadas. Ao vivo.

Nada de undos, CTRL+Z ou back-ups para reverter burradas. Coisa para cabra macho.

Eu morria de inveja dessa safra de aventureiros. Eles traziam nos olhos o brilho de uma primavera da História.

Tenho um certo receio que minhas histórias não venham a encantar gerações vindouras. Vai ser difícil descrever nossa luta diária com máquinas instáveis, softwares trôpegos e uma massacrante falta de tempo. Pensando bem, agruras não interessam a ninguém. O que talvez me garanta um ouvinte aqui e outro ali seja um brilho no olhar, o calor na voz, o gesto apaixonado ao contar uma aventura fascinante, a de ter sido um protagonista modesto da primeira saga sem heróis nem deuses, da única história escrita por milhões de mãos.

Uma inveja a menos na alma. E o que é melhor: ninguém precisa ter inveja disso. É só pôr a mão na massa.

Posted by renedepaula at 11:13 AM

Cardápio fresco, variado e rico é receita de longevidade

(96? 97? deve ter sido meu primeiro artigo na ABOUT)

Sábado é dia de feira na minha rua. Uma feirinha de bairro, resumida, que nem chega a bloquear a passagem dos carros. Uma sacola na mão, uns trocados no bolso e lá vou eu.

São momentos de prazer, esses. Há sempre uma curiosidade sobre o que a feira trouxe de bom: é tempo de manga, já? Os peixes estarão frescos? E aqui e ali feirantes oferecem nacos generosos das suas melhores frutas, provas palpáveis e deliciosas da excelência do que vendem, da sinceridade do que apregoam. É uma festa, a feira.

É ainda Gênesis na Internet. A Luz mal se fez e o Verbo multiplica-se loucamente. A poeira se condensa, aqui gerando planetas, ali parindo sóis. Galáxias colidem e se engolem.

Nesse novo cosmo, porém, há mais do que Física: há Vontade e Espírito. Ali maçãs só caem quando o Criador assim deseja. E os Criadores são milhões, e são mortais, e são humanos. E humanos nem sempre criam à sua imagem e semelhança.

Feirantes vêm aprendendo há séculos o seu ofício, e a sua estratégia é posta à prova dia a dia. Inventou-se o supermercado, o hipermercado, a compra on line, e as feiras aí estão, frescas e coloridas. Não morreram nem azedaram porque seus fregueses a querem viva, a querem assim, fonte de alimento saudável e de contato humano.

Criar para a Web é criar para pessoas. Cada uma delas ligou sua máquina, se conectou a rede e acessou o seu site porque precisa de algo. Se encontrar menos do que procura, talvez não retorne. Se o que procura for difícil de achar, talvez não retorne. Se ela não se sentir bem-tratada, certamente não retornará.

Não é fácil agradar pessoas, satisfazê-las, adivinhar seus desejos. Temos que ser muito atentos.

Tenho dois exemplos de sites que sabem a que vieram: Blue Bus e Learn2. Longa vida a ambos, e que a sua lucidez lance sementes fecundas.

Meu nome é René, e esta é uma fatia do que prometo trazer semanalmente. Espero que tenha sido ao gosto do freguês. Até a próxima.

Posted by renedepaula at 11:12 AM

Críticas construtivas

Conselho de amigo: responda todo e-mail prontamente. Toda mensagem deixada de lado fica malcriada, se esconde, e o que é pior, reaparece só quando é tarde demais e o assunto, antes inocente, se tornou litígio grave.

Acumular e-mails não-lidos, então, é uma temeridade: eles se organizam e apelam para a guerrilha, anarquizando completamente o seu Inbox. Repito o aviso: tergiversar, jamais.

Responder pela metade também tem seu preço. Do outro lado do Atlântico há uma alemã esperando a metade final de uma resposta minha, e mal sabe ela do meu dilema.

A moça nem tem culpa, coitada. A pergunta foi inocente, mas minha hesitação tem suas razões. Não sei ser leviano com aquilo que amo. O que a mocinha pediu é coisa pro Caetano, não pra mim. Ela queria que eu contasse como é São Paulo.

Vá você explicar o avesso do avesso do avesso pra quem vem de outro sonho feliz de cidade. Quem sou eu... Enquanto enrolo a moçoila, circulo pela cidade.

Cidade? Cabe, a palavra?

Perguntas de estrangeiros desconcertam. Com crianças é mais fácil, elas pelo menos estão dispostas a absorver a barafunda de duplas morais, de paradoxos e compromissos que chamamos de cultura brasileira. Gringos não. Com os caras é "bread-bread, cheese-cheese".

Tenho que contar para a alemãzinha que, abstraindo a miséria, relevando os homicídios, ignorando o "casual ugly" de todos os bairros, essa cidade é do balacobaco. Fácil, não?

Sempre atribuí essa incomunicabilidade à falta de ginga das outras culturas, incapazes de acompanhar os meneios e remelexos da nossa mente barroca. Hoje vejo que nosso "Samba do Crioulo Doido" tem um preço alto demais.

Pensemos nessa meta-cidade que estamos todos construindo juntos, a Internet. Você quer cultura, contato, sacanagem, informação, comércio, anonimato? Tudo o que uma metrópole oferece você encontra na Internet, e numa escala muito maior. É a Babel possível, sem fumaça nem buzinas.

Se queremos escapar à maldição da Babel, contudo, devemos aprender muito com os "cyber-arquitetos" gringos.

Nada contra a arquitetura vernacular. Trata-se de perdermos vícios. Somos especialistas em soluções de compromisso, "jeitinhos" inconfessáveis, pactos obscuros, em relevar absurdos. Nossas cidades estão aí pra provar.

Pelo bem de todos, tenho algumas dicas aos que pretendem construir na Web:

* Não escolha o arquiteto pela roupa, nem pelo papo, e sim pelas obras.
* Visitando pessoalmente alguma obra pronta, não se deixe impressionar por traquitanas e modernidades. (Se você não assistiu "Mon oncle", do Jacques Tati, faça-o já). E leve um leigo com você. Se ele não conseguir ir além do hall, isso é bem ruim.
* Lembre-se de Brasília. No papel o projeto devia impressionar, em cartões postais é linda, mas vá viver lá dentro.
* Veja bem se a manutenção é simples ou se você vai precisar do homem aranha com um vaporetto para limpar a fachada.
* Leve em conta futuras expansões e reformas. Se cada vez que você pintar a parede, você precisar de um muralista italiano, esqueça.
* Não adianta gastar fortunas com o projeto e economizar com o "terreno". Já vi belos sites sacrificados pela escolha descuidada do provedor de hosting. Adote provedores de primeira linha, com suporte 24 horas. Opte por aquele provedor caseiro do amigo do seu cunhado e morra na praia, outra especialidade nacional.

Como prova de fogo, peça a opinião de um gringo. E não avacalhe: prova de fogo não quer dizer dar uma caipirinha pro cara antes do teste.

Posted by renedepaula at 11:11 AM

Terra a prazo

Ouvi há tempos uma historinha boa. O homem branco leva para uma tribo indígena uma polaroid. Convence um índio desconfiado a posar, enquadra o close e clica. A foto enfim se revela e ele a mostra, triunfante, ao seu modelo pelado. Para seu choque, o índio nem se comove. "Esse aí não sou eu. Eu tenho pernas". Um a zero para o time sem camisa.

Fui adquirindo um certo orgulho da nossa tupiniquice antropofágica de tanto conviver com estrangeiros e suas idiossincrasias .

Descartes não foi tão original assim, afinal vivia num mundo quase cartesiano. Queria vê-lo no meio do carnaval de Olinda.

Aliás, qual não deve ter sido o choque dos ibéricos que baixaram nestas terras quinhentos anos atrás. Com uma coragem beirando a insensatez, eles embarcaram em navios precários sonhando com terras de ouro e índias peladas. A pertinácia ibérica colonizou na marra o novo mundo, mas amancebou-se. E eis-nos aqui, ocidentais pero no mucho.

Bons tempos aqueles, em que se descobriam novos mundos. A China, hors-concours tradicional no quesito originalidade, agora é freguesa. Na falta de novidades, cientistas apontam antenas para o confim do universo e ficam ali, à espera de um sinal de vida.

Tenho receio de que um dia se descubra um universo paralelo, povoado por uma civilização intocada e próspera. Esse povo talvez nem chegasse a nos conhecer, porque provavelmente nos mataríamos antes disso, numa guerra maluca para decidir quem iria no primeiro comboio. Se coubesse a você compor essa comissão de frente, quem você incluiria? Antropólogos alemães? O Papa? A American Chamber of Commerce? A loira do tchan? Difícil decidir.

A Internet está passando por algo bem parecido. Ninguém sabe muito bem como, surgiu esse universo paralelo e populoso. Eis um Novo Mundo, uma "Terra Incognita"! Quando vejo a profusão de palestras, eventos e livros sobre como ganhar dinheiro com a Internet, penso nos antigos ibéricos desembarcando nas praias com a cruz em uma mão e a espada na outra.

Cada novo navio traz missionários, exilados, visionários, mercadores, e os inevitáveis piratas. Não quero insinuar que os colonizadores vão acabar na panela, nem que os índios vão virar pinguços sifilíticos, mas para que todos saiam ganhando, há alguns cuidados a se tomar.

Os usuários da Web herdaram dos índios uma saudável repulsa à servidão, bem como um elevado senso de dignidade e liberdade. A aparente desorganização da Web esconde laços sociais e humanos complexos, numa teia de vínculos entre tribos e clãs. Quem ignorar isso e forçá-los a outra vida corre o risco de morrer na praia.

Metáforas à parte, a tecnologia interativa tem possibilidades infinitas, mas nem todas com a mesma chance de sucesso. Pessoas se conectaram a essa rede high-tech porque ali se sentem mais humanas.

Você que está pensando em criar um website, pense bem em como melhorar a vida do seu usuário, e depois em como torná-lo seu freguês. Analise bem se o usuário vai se sentir à vontade no seu site, e faça muitos test-drives preliminares. Veja como associar o seu site a um site complementar, numa simbiose em que até o usuário ganhe. Pense em relações longas, em parcerias múltiplas. Não pense apenas na embalagem, pense no conteúdo.

Desta vez, quem precisa de catequese é quem vem para o Novo Mundo. Que é admirável, aliás.

Posted by renedepaula at 11:10 AM

Hashis, Arquitetura de Terremotos e a Web

A primeira ida a um restaurante japonês é difícil de esquecer. Nada é familiar. Para piorar, você parece ser o único desentendido no recinto, todos os presentes são PhDs em iguarias exóticas e contorcionismo. E você ali, apanhando agachado de um par de palitinhos.

Até então você se julgava um gourmet: por quantias módicas era fácil se empanturrar num rodízio, por menos ainda você ganhou bons quilinhos nas cantinas da vida, e já degustou a peso de ouro o melhor da nouvelle cuisine. Tudo uma questão de saldo bancário e domínio do garfo e da faca.

Quando a fome é do espírito o cenário é quase o mesmo. Apertando um botão ou dois imagens, sons e palavras jorram dos aparelhos mais diversos. Simples.

A internet entra em cena como um restaurante japonês. Os iniciados falam tantas maravilhas que não se pode evitar a decepção. Onde está aquela enxurrada de sensações das outras mídias? E que história é essa de comer aos bocadinhos? E por que não escrevem tudo em português duma vez?

Se o iniciante estranha, o cozinheiro novato estranha muito mais. Da feijoada ao sushi misto é uma longa e espinhosa estrada. É duro o aprendizado da singeleza. Foram terremotos que ensinaram o japonês a construir com bambu e papel de arroz suas casas insuperáveis. É a low bandwidth que nos obriga a ser precisos e elegantes, flexíveis e rápidos como samurais têm que ser.

Meu exemplo da semana é o site da Wired. A bíblia do design gráfico entrou no éter da Web deixando para trás todo o peso da matéria. Passeie por esta casa ampla e sirva-se à vontade. O sabor é excelente, é tudo de primeira qualidade e nem chega a pesar. E só tira o sapato quem quiser. Eu tiro o chapéu.

Posted by renedepaula at 11:09 AM

As time goes by

Durante um bom tempo tive um chaveiro em forma de tubarão. Era bonito o chaveiro. Perdi-o, e nem pensei em comprar outro igual. Não queria mal-entendidos. Afinal, ele representava para mim o contrário exato do que podia parecer. Eu tinha um tubarão comigo para lembrar-me sempre do que não somos.

Tubarões são uma estratégia levada ao extremo, ao seu ponto de perfeição. Essa máquina complexa é a tradução em órgãos do verbo caçar. E ponto. Nada nele é supérfluo, nada é desvio. O tubarão é tubarão até as ùltimas consequências, até a ponta de sua cauda. Enquanto o oceano for oceano ele será tubarão, como vem sendo há milhões de anos.

No nosso design o conceito foi outro, revolucionário. Nada de garras ou couraças, mas sim o dom de inventar modos de ser. Falando chinês ou sueco, usando gravata ou quimono, pelados ou de farda, os humanos criaram mundos à sua imagem. Somos plásticos.

Pero no mucho.

Há um mamífero muito peculiar dentro de nós. É ele que nos faz criar "tribos", que nos faz definir e defender territórios e que nos impele a amar. Foi agindo assim que esse animal sobreviveu a tudo, e nos trouxe até aqui. Ele só sabe ser feliz assim. Contrarie esses impulsos e veja nascer uma fera.

A cidade está aí para provar isso. Aguce os ouvidos e ouça bestas rugindo.

Criamos agora um mundo virtual, etéreo, impalpável, incorpóreo. E - ironia máxima - os mamíferos estão adorando.

Não há porque ser defensivo quando mal se pode falar de territórios. Ninguém é estrangeiro onde todos são estrangeiros. Quando todos têm a mesma força e voz, não há como intimidar. A noção de sujeito implode e o mamífero aplaude.

Preste atenção no seu corpo. Você vê garras? Espinhos? Escamas? Não. Sua pele é lisa, fina, suas mãos são hábeis, e seu coração não quer ficar vazio.

Seja mais mamífero, mesmo que virtualmente. É o primeiro passo para deixar de ser besta.

Minha dica da semana é o site Last Word, onde a dúvida de um é lição para todos, e onde ninguém tem a última palavra.

Posted by renedepaula at 11:08 AM

Teatro e seu hiperduplo

Acabo de voltar de um restaurante, onde encontramos um ator famoso misturado a outros mortais. Não nos surpreendemos, afinal aquele é um reduto antigo da classe teatral.

Atores. Eles costumam ter em alta conta seu ofício, e não é incomum que alguns, num esforço de redenção e catequese, se lancem pelados ao colo de algum espectador desavisado ou corram atrás de outros brandindo moto-serras, tudo em nome de uma experiência ativa da magia teatral.

Mas o que me fascina mesmo, mais do que aquilo que venha a acontecer no palco ou nas telas, é a massa humana em torno. Eles assistem calados, riem, choram, e assistem. Saíram de casa dispostos a observar gente representando, fazendo de conta descaradamente. Voltarão a suas casas com o coração e a mente ecoando emoções, pequenas sementes que talvez vinguem, talvez medrem. (Em casos mais radicais, trarão respingos de sangue de galinha, gosma ou tinta azul, mas isso deixo para lá).

Platéia e atores fazem de conta, é um pacto. O espectador pega o seu cotidiano, dobra bem dobrado, junta ao seu passado meio amarrotado e os deixa pendurados na chapelaria. O mundo fica lá fora, suspenso. Cá dentro, ele vive na pele dos outros, fala por mil bocas, ouve tudo ao mesmo tempo. Experimenta por empréstimo o que não pode, não quer ou teme tentar. O espectador se multiplica em corpos diferentes, em passados outros, em reações possíveis. Volta para casa são e salvo, mas marcado, maior. A platéia é antropofágica há milênios, não esperou por Oswald de Andrade.

É uma capacidade misteriosa essa nossa, de podermos ser outros, de vermos por outros olhos, de aprendermos com ilusões.

A internet é um palco seguro. Podemos ser qualquer coisa, inclusive a mais difícil de todas: ser bom. Talvez venha daí a generosidade e o altruísmo reinantes na rede. Talvez esse treino virtual da simpatia nos faça perder o medo, nos desarme, e nos ensine a ser gregários de novo. Eu espero que sim.

Tente entrar em um chat do Universo On Line. Você vai ver de tudo, sobretudo uma coisa: um espetáculo onde os atores estão em toda a parte e a platéia em lugar nenhum.

É fascinante, isso. E promissor.

Posted by renedepaula at 11:08 AM

Ao pé da letra

Um conhecido meu, muito querido, tem um carinho especial por envelopes. Não envelopes quaisquer, mas aqueles com o selinho "Via Aérea", com a borda verde e amarela, desses que papelarias vendem a preço de banana. Essa ternura por um objeto prosaico vem de longe, de um tempo doído, em que muitos brasileiros deixaram o país, querendo ou não. Ele foi para Paris, onde se formou jornalista.

(Longe daqui brasileiros perdem o pé, perdem o viço, e enganam a fome de Brasil com simulacros, batucando onde não devem, improvisando feijoadas, jogando bola. E devoram e ruminam as menores migalhas de brasilidade que lhes caem nas mãos, sejam revistas usadas, sonhos de valsa ou feijão.)

Naquele tempo um envelopinho tupiniquim trazia tesouros. Espremido em caligrafia ansiosa, preenchendo linhas e entrelinhas, chegava bem dobradinho um rio de brasileirice, saudades. Tudo dentro do envelope auriverde, bendito.

Hoje os rios são outros. Envio para amigos jorros curtos de zeros e uns, pouco mais que um frisson em fios de cobre, e, em uma tela qualquer do mundo, letras que não são minhas vão compor sabe-se lá como a mensagem que eu pari. Num milagre impalpável, elétrons inquietos carregaram pelo mundo carinho, emoção.

Eu escrevi, meu amigo lerá. Comunicação silenciosa, lenta, profunda. O que ele recebe foi pensado, sopesado, reescrito, e ele poderá degustar aos bocados, saborear. Mesmo na vala comum de um Inbox as mensagens não vão amarelar, nem se perder.

Em alguns anos, quando o besteirol em stereo surround nos engolir de vez, talvez sintamos uma saudade boa não de envelopes coloridos, mas do silêncio e do parto escondidos em cada e-mail, das hesitações no teclado, da mensagem "Receiving 1 of 2 messages".

Alguém me indicou outro dia o programa ICQ, e resolvi testar. Eu recomendo a todos: mal você se conecta, ele desperta e confere se os seus amigos estão ou não on line. Com um clique, você envia mensagens instantaneamente, abre chats em tempo real, confere e-mails inclusive. Melhor que telepatia. Testem, eu recomendo.

Posted by renedepaula at 11:07 AM

Cem por cento contrabando

Sou radialista por formação, e ainda guardo um enorme carinho pelo métier, mesmo o tendo abandonado de vez. Nesses meus poucos anos em TV acumulei histórias e personagens que me acompanharão pela vida toda. Tempo rico, esse.

Relembrar televisão, para mim, é lembrar a tela do IBOPE. Em todos os televisores e monitores da redação o canal 12 mostrava, sob fundo preto, uma tabela de números miúdos que mal se liam. Aquela salada de dígitos, contudo, era nosso termômetro, nossa bússola, era o retrato instantâneo em preto e branco da reação do nosso público.

Um ponto a mais ou a menos representava uma imensidão de lares, e era perturbador imaginar seu trabalho sendo visto por milhões de brasileiros ao mesmo tempo. E todas essas pessoas apareciam para nós como pequenos algarismos numa tela. Quem eram eles?

Um dos encantos da Internet é que do outro lado do meu monitor há pessoas com nomes e, sobretudo, com voz.

Nesse minha nova profissão, contudo, a incógnita é outra: eu nunca sei ao certo que máquina está digerindo meu trabalho. A fauna informática é variada, e o pedigree dos computadores nem sempre é nobre. Muitos deles são clones mal-feitos, colagem e bricolage de componentes de origens diversas, uma feira do Acari digital.

E vá você descobrir como funciona uma dessas máquinas. Manual nem pensar, e se houver não corresponde ao equipamento. Garantia é um substantivo abstratíssimo nesse universo, impalpável. No mais das vezes é um milagre que tais Frankensteins mal costurados funcionem: mal falam a mesma língua, e não pensam do mesmo modo.

Crentes e convictos, um desafio: provem-me que com humanos é diferente. Digam-me como configurar pessoas, ou convençam-me que uma mentalidade funciona melhor que outras. Tragam, inclusive, um método inequívoco de benchmarking. E onde está a garantia do fabricante? Definam um protocolo cross-plattform de convivência global. Mostrem-me uma interface amigável e evoluída que mascare o mamífero indócil dentro de nós.

Dentro de chips o silício encarna uma lógica precisa, mas, se funciona, é graças à manobras quânticas esotéricas, incríveis. Em nós, um milagre neurológico levou um vertebrado tão longe que mal se adivinha a que ele veio, ou de onde.

Digo isso porque quando tento julgar seres humanos e suas suas manias, idiossincrasias, seus vícios recorrentes, eu me perco e não chego a lugar nenhum.

Mas continuo fã da criatura, e vou sempre aplaudir qualquer conquista, mesmo que pequena. É sempre um milagre, afinal.

Posted by renedepaula at 11:06 AM

Uma só mão não bate palmas

Bom-senso não é matéria escassa, já dizia um xará meu, e é o máximo da divisão equalitária: todos acham que tem bom-senso bastante, e mais do que os outros, inclusive. Um milagre.

Nem tudo é assim, infelizmente. A Economia nos ensinou que tudo o que é raro vale muito, e quanto mais uma coisa se dissemina, menor o seu valor. Faz sentido, eu sei, mas agora vejo que há ventos de mudança soprando. Quem sabe eu até venha a gostar de Economia, pelo menos da Nova Economia.

Uma matéria da Wired deste mês chama a atenção para um novo fenômeno econômico. Eu, que há décadas pulo a seção de Economia do jornal em favor dos quadrinhos, parei para ler. Fiquei tão encantado que aqui estou, tentando passar a semente adiante.

É mais ou menos assim: uma revolução discreta balança as estruturas do pensamento econômico. O seu modelo não é mecânico, cumulativo, predatório, mas sim biológico, distributivo, simbiótico. Quanto mais um recurso se multiplica mais ele vale. Quanto mais disseminado estiver um padrão, mais ele se desenvolve. Tudo o que cria e amplia conexões, sinapses, associações, enriquece o sistema como um todo.

Pense num aparelho de fax: sozinho ele não vale nada. Se houver um outro fax seu valor aumenta. Com dezenas de milhões de aparelhos pelo mundo todo, sua utilidade cresce cada vez mais.

Com a Internet é assim, pelo menos a grosso modo. Uma nova tecnologia, um novo recurso não vale nada se não tiver potencial para aumentar sinapses, se ele mesmo não se difundir pelo cyberglobo.

Descobri por acaso um exemplo singelo desse impulso germinal, semeador, disseminador. É um site que ensina os fundamentos do JavaScript, e o fio condutor da lição é um poema zen. São muitas as citações zen ao longo das páginas, e uma delas originou o título deste texto. Bom, muito bom, e o que é honestíssimo e louvável, o autor reconhece que o que ele está ensinando não é simples, pois requer um aprendizado ativo. É rara essa franqueza.

(Um parêntese: estive por bons anos ligado à língua alemã. Fui aluno, cogitei ser professor, e por fim acabei me afastando desse universo. Uma coisa gravei: alemão não é fácil de se aprender, muito menos de se ensinar. Os cursos tradicionais, sérios, já não têm nenhum encanto no mundo marshmallow em que vivemos, e métodos moderninhos fazem malabarismos estranhos para tornar o aprendizado lúdico e digestivo.

Lembro-me bem: perdia-se um bom tempo tentando convencer o iniciante que alemão não dói. O esforço saía pela culatra, afinal todos sabem desde a infância que quando alguém diz "não vai doer, meu bem", ele tem uma broca de dentista na mão (na hipótese mais inocente) e vai doer sim, mas você vai ter que agüentar de qualquer jeito.

Em suma: aprender alemão requer paciência e dedicação, não dá para ser leviano. Mas é possível. JavaScript também. Fecha parêntese).


Nesse cursinho on-line, o autor pergunta: "-Qual o som de uma só mão batendo palmas?" Eureka. Touché. Voilà. Aí está a essência desse novo fenômeno tecno-social-econômico-filosófico: quanto mais mãos houver, mais alto será o aplauso. Mais alto do que o pampeiro que a mídia convencional faz sobre questões menores da internet, como multimídia, perversões ou terrorismo.

O buraco é mais embaixo, nas estruturas, nas fundações, nas raízes. Uma planta nova se espalha como grama, sem centro, sem caule, rizomática, e com frutos inéditos. Eu a rego diariamente, e espalho todas as sementes que me caem nas mãos. Acabo de passar mais uma.

Posted by renedepaula at 11:06 AM

Todo espelho é mágico

Espalhe um banho de prata sobre uma lâmina de vidro. Uma película se forma e, em contato com o ar, oxida sem demora, fica opaca. A outra face dessa fina camada tem outro destino. Contígua ao vidro e separada do mundo, a prata se furta ao tempo, e brilha para sempre. Sua sina agora é refletir fielmente. Eis um espelho.

Por ironia ou encanto, a imagem que o espelho devolve se recusa a envelhecer. O rosto que vejo é o mesmo de sempre, não acusa mudanças.

Aprisionada em celulóide ou papel, a prata não brilha mais, enegrece. Como que por vingança, fotografias denunciam cada ruga no rosto, cada traço do tempo. Denúncia inócua: o olho vê o que quer.

(Presenteei minha avó com um retrato dela que achei excepcionalmente feliz, superior a qualquer outro que eu já fizera. Ela odiou. Foto boa, mesmo, era a da sua cédula de identidade. Aquela sim era ela. A cédula tinha vinte anos.)

O olho tem o vício estranho de recorrer primeiro à memória, depois ao que olha. É mais prático, mais rápido, é confortante. Acompanhar o devir do mundo é trabalho sem trégua, é dispersão, e olhos nasceram para focar, para se concentrar num único ponto móvel.

Isso é vício, limitação, defeito? Não, é invenção. Acompanhar os fluxos e refluxos das coisas, suas paradas e reviravoltas parece impossível, vertiginoso. Mais seguro é se concentrar em um só ponto, e condenar o que sobra ao papel de cenário. Seguro mas arriscado, pois o o cenário e seus figurantes se transformam, crescem à revelia, em todas as direções, e quando menos se espera o mundo ataca pelas costas, foge aos nossos pés, nos escapa entre os dedos. Indiferente ao nosso engano o espelho nos sorri, e, como a lua, nos mostra a mesma face.

Contra o feitiço de um espelho só outro espelho, ou vários. Colocados em ângulo, multiplicam-se as vistas, e o olho atônito descobre que sua imagem tem verso e reverso. O cubismo é franco, desconcertante, e fiel.

(Seixos, de tanto rolar, perdem asperezas, ficam redondos. Humanos, quanto mais se expõem e se põem à prova, mais se aguçam, mais arestas criam, têm novas faces, outros vértices. Só arredondam se ficarem parados.)

Nunca senti minha atenção tão disputada. Pager, e-mails, telefones, compromissos, todos clamam por respostas, por ações. Dispersão quase esquizo, mas apaixonante, e irreversível. Como na Química, aumentam a cada dia as superfícies de contato, e as reações se intensificam..

Crie mil olhos, combine espelhos, e abrace tantos fluxos quanto puder. Ou arredonde.

Posted by renedepaula at 11:05 AM

Concreto transparente

Darwin exultou. Milênios de insularidade pariram em Galápagos criaturas bizarras, filhas do isolamento e da adaptação inventiva. Répteis gigantes, pássaros estranhos, uma festa para o naturalista.

Nosso país é, igualmente, habitat de fascinantes espécies endêmicas. Despachantes, por exemplo, só existem aqui. Cambistas e flanelinhas, abundantes e saudáveis, desconhecem ameaças naturais e proliferam à vontade. A selva que eliminamos com tanto afinco se insinua no cotidiano, e sanguessugas e parasitas voltam à vida sob mil disfarces: engravatadas, maltrapilhas, fardadas.

Terra que o tempo esqueceu, elo perdido entre o feudo e a urbe, nossa pátria é berço do carinho e ninho do descaramento. A hipertrofia da candura amancebada com o egoísmo mais natural. Terra de contrastes e contratos, de pactos e de patos, do deixa-comigo e do deixa-pra-lá. Do bandido paternal e do patrono criminoso.

O corpo da nação presta tributo a lombrigas seculares.

Ainda não se sabe o que pôs cabo aos dinossauros, mas antevejo o que pode nos livrar dos fósseis sociais que infestam esta terra.

Parasitas se instalam nas superfícies, nas membranas, lá onde as trocas ocorrem. Ali cobram seu dízimo, se nutrem, enfraquecendo o hospedeiro sem matá-lo.

Onde o cidadão se depara com o labirinto da lei, surge o mago da burocracia. Na fronteira que separa o consumidor do fabricante, floresce o contrabandista. Mediando fiéis e deuses pululam profetas.

Atravessadores. Se não existisse o fosso, eles o inventariam. Se o fosso existe, proclamam-se a única ponte. Estratégia infecunda, empobrecedora, que prospera sobre corpos fracos, e que tem seus dias contados. Hoje as pontes se multiplicam, caem muros, e a menor distância entre dois pontos é uma linha.

Telefônica.

Mouses acuam paquidermes.

No mundo imaterial do cyberspace só prospera o que é concreto. Nesse campo aberto e sem trincheiras vence a agilidade, a substância, a competência. Seleção natural numa selva de zeros e uns.

(Comprei recentemente um software importado de um representante nacional. Paguei mais caro pelo produto que eu poderia ter adquirido online, e o que é pior, o dito "representante" não se deu ao trabalho nem de traduzir o manual. Outra armadilha: quase compro online um ingresso para um espetáculo na cidade. A taxa pelo serviço era de mais de 25% do valor do bilhete. Se você for comprar online um ingresso para a Broadway a taxa mal chega a 10%. Provedores estrangeiros de hosting oferecem serviços excelentes por taxas muito menores que as nacionais. Aprendi a lição: tendo que optar entre duas tecnologias similares, driblei fronteiras e esquemas e adotei a que se impõe pela qualidade. E é gratuita.)

Esse novo mundo que estamos desbravando atrai piratas assim como o Brasil atraiu séculos atrás. A diferença, agora, é que pernas-de-pau e caravelas têm carreira curta, e logo naufragam. Não se vive mais de brisa frente a motores e chips.

Que venga el toro, e que sobrevivam os melhores. Pela evolução da espécie, e do país.

Posted by renedepaula at 11:04 AM

Como apostar a sua última ficha

(15/10/97)

Falar de cinema é falar de magia. Ao fim da sessão as luzes se acendem, e a platéia desperta preguiçosa do sonho coletivo para a vida de cada um. Aí reside grande parte da mágica dos filmes: eles acabam.

Talvez o que distinga comédias de tragédias, dramas de aventuras seja o ponto em que se colocam o "the end" e os créditos.

Ninguém nunca soube quem pagou as contas dos estragos que Indiana Jones causou, nem quantos anos ele pegou de cadeia pelos homicídios diversos, nem que vendetta macabra foi arquitetada pelos vilões sobreviventes. Ninguém saberá: o "the end" fecha as portas ao tempo, e congela a história.

Fora do celulóide histórias não têm fim. Tente você descartar personagens do seu roteiro e eles escreverão seus próprios roteiros, que um dia se entrelaçarão novamente ao seu script. Cerque-se de figurantes sem falas
e assista ao seu épico se transformar num disaster movie.

No cinema é mais fácil. Não só o diretor é soberano como conta com um recurso imbatível: o extra-quadro. Fora do quadro que a câmera mostra, um pouquinho mais à esquerda, ou ao alto, ou mesmo atrás dele, o que existe? Um nada, mas um nada providencial. Desse nada chega a sétima cavalaria, de lá vem a fortuna inexplicada do herói, para ali vão os bandidos depois de nocauteados. Aquilo que não se vê é fonte infinita de recursos e um imenso depósito de sucata.

A história do mundo não é diferente. Continentes usados como depósito, povos condenados à figuração, e sob flashes e refletores um reduzido elenco milionário. Ao longo dos tempos heróis de opereta deixaram um rastro de almas descartadas e terras estéreis.

Eis onde eu aposto minha última ficha: no jogo limpo, não-poluente, não-extrativo. Sei que ainda é possível jogar sujo, ganhar a curto prazo e explorar o próximo, mas o próximo está cada vez mais próximo, e pensar a curto prazo tem um custo inviável. Não há mais onde jogar o entulho, e os veios de ouro já têm dono.

Não teremos saída, em breve, a não ser a cooperação, o crescimento conjunto e a paz. Ou aprendemos a jogar limpo ou o lixo nos engole. É mera questão de tempo.

No nosso métier, onde distâncias e fronteiras não contam, esse espírito desprendido e visionário vêm ganhando corpo e conquistando apóstolos. Quem é ateu e viu milagres como eu sabe que, ali, deuses sem deus não cessam de brotar. Essa é a minha fé.

Posted by renedepaula at 11:03 AM

Tudo que é sólido desmancha em bytes

Quem garante que a sua profissão, hoje tão necessária, amanhã não será substituída por uma rede neural? Ou por um tamagochi melhorado? Nada é seguro nessa revolução permanente.

Algumas especializações, porém, continuarão sendo insubstituíveis e muito rentáveis por um bom tempo, como vêm sendo há milênios. Os nomes talvez mudem para tradutor/intérprete de borra de café, scanner de palma de mão, técnico de telecomunicações etéreas e analista sênior de baralhos exóticos. Mas a teoria e prática serão as mesmas, se é que há teoria.

(essas profissões têm peculiaridades sedutoras: não requerem diploma, não pagam impostos e, o que é mais fascinante, erros crassos não desmerecem o adivinho).

O métier divinatório-profético-vidente deve sua glória imorredoura à um fantasma também imorredouro: o insondável. O outro lado da lua, a noite, o além-morte, nossos velhos fantasmas, têm agora um companheiro de mistério, o gosto da massa humana.

Para perscrutar esse novo arcano surgiu um upgrade da bola de cristal, a telinha do IBOPE. Aqueles números irrequietos e inexpressivos decidem a sorte de milhões de dólares.

Tudo que é movido por forças desconhecidas desperta em nós comportamentos mágicos. Para manter o IBOPE auspicioso, editores de jornal banem assuntos, favorecem outros, diretores de novela matam personagens, esticam romances, da mesma maneira como se sacrificam galinhas para reaver a esposa fugida. Fazem como nós, que ameaçamos com tapas inúteis ou palavrões impressoras indóceis.

Mas apesar da empáfia dos especialistas, a massa continua imprevisível. Por que a Coca-cola ganhou o mundo? E o blue jeans, quem explica? O chiclete? A música neo-sertaneja?

O som quadrifônico, por outro lado, caiu do galho, deu dois suspiros e depois morreu. O vídeo Betamax, o amor livre, as bonecas Dorminhocas, o comunismo, o Jerry Lewis, todos eles caíram em desgraça sem aviso prévio. Mistérios impenetráveis.

Pelo sim, pelo não, os grandes pajés do gosto da massa vêm apostando na infantilização global: consumo de bugigangas, entretenimento descartável, e todas as variações do egoísmo e irresponsabilidade. Alguns acertos milionários aqui, fracassos fragorosos ali, e continuam investindo em gomas de mascar mascaradas.

Aqui e ali na história, salvadores e revolucionários dedicaram suas vidas a nos redimir, a iluminar a massa e direcioná-la rumo ao que eles juravam ser muuuuito melhor. O destino desses heróis todos conhecem: a massa os mastigou, cuspiu a carcaça e engoliu um ou outro bocadinho mais saboroso.

Ingratidão? Mediocridade? Menos do que isso. A massa humana é mais esperta do que imaginamos. Quando uma espécie inteira ou mesmo apenas uma cultura local está em jogo, é loucura apostar o destino de todos na proposta de um só. É mais seguro acompanhar de longe o que sucede a esse revolucionário, aprender com ele uma coisinha ou outra, e deixar que o moderninho se arrebente. Uma espécie sabe o que tem a perder, e mal imagina o que pode ganhar. Daí a cautela.

Essa prudência misturada à curiosidade gera o vaivém das modas, o fracasso de reformas, e um aparente comodismo generalizado.

O sucesso e a expansão da Internet me surpreendem, e me enchem de otimismo. Milhões de pessoas estão apostando nessa mídia precária e nessas máquinas instáveis, sem que ninguém os force a isso. O que eles vêem de bom na Internet? O contato humano, a conquista de uma certa soberania, a liberdade de expressão, a informação imediata? Não sei, e tenho um receio: de que tentemos mudar os rumos da Internet e que a massa se desencante.

Mas eu ando tão entusiasmado que acho que a humanidade cansou de ser criança, e não está mais para brincadeira.

Se essa profecia falhar, o azar é nosso.

Minha dica da semana é Playbill Online: ali você pode comprar ingressos para todas as peças da temporada nos EUA. Funciona.

Posted by renedepaula at 11:02 AM

A arte do caixeiro viajante

(29/10/97)

Você não navega na Internet. Ninguém navega. O que acontece conosco é uma experiência estranha. Podemos ali ser vários, ignorar distâncias; o mundo se condensa num só ponto para se abrir inteiro. Ao sabor de um clique, rios de informações são mobilizados, e serpenteando por satélites e cabos, desembocam diante dos nossos olhos.

Nossa viagem, porém, é imaginária. Quem viaja mesmo, e muito, é a informação.

Há quem viaje muito. Os rincões do nosso país são percorridos há séculos por caixeiros viajantes. Sírios, orientais, italianos, antes mesmo de aprender nossa língua, aprenderam os caminhos, os rios, os trens que levavam até vilas e casarios Brasil adentro. Conheceram povoados, foram recebidos nos lares, aos poucos intuíram o gosto de cada um, e aperfeiçoaram sua arte. Quem tem caminhos acidentados pela frente deve abrir mão do supérfluo e do pesado. Apenas aquilo que pode interessar ao cliente deve ser levado, e nada pode se estragar pelo caminho, nem retardar o passo.

Uma conduta muito cuidadosa é necessária quando se é forasteiro, quando se é visitante. O vendedor em um grande magazine está numa posição privilegiada: a loja é o seu território, ele tem todos os recursos a seu dispor, de seguranças a gerentes, e o cliente é o intruso. O caixeiro viajante, contudo, está só. Diante de si, cara a cara, estão novos fregueses, ao seu redor uma casa estranha numa cidade distante. Ele, que conta apenas com o que carrega consigo e com o que aprendeu, deve ter a etiqueta e o respeito de um embaixador, ou será expulso para nunca mais voltar.

Criar para a Internet tem muito em comum com a aventura desses comerciantes, pois o mundo virtual funciona da mesma maneira: cada internauta habita uma aldeia que ele mesmo criou, selecionando a dedo quem e o que faz parte dela. Para que nosso trabalho possa entrar nesse mundo e conquistar um lugar, devemos criar sites consistentes e leves, flexíveis e estruturados, sedutores e objetivos. Esse equilíbrio do inconciliável pode ser nosso passaporte para o universo de cada um.

Essa soberania de cada internauta é um fenômeno inédito, e desmonta em nós toda pretensão missionária ou de catequese. Não somos desbravadores diante de aborígenes nus. Não somos estilistas de vanguarda: somos alfaiates, cozinheiros, e ai de nós se desrespeitarmos o gosto do cliente.

Não fomos nós que fizemos a Internet gigante, foram os milhões de usuários que apostaram nela, pessoas comuns que hoje deixam suas TVs de lado, desligam o rádio para ligar uma máquina indócil, instável, mas que lhes restitui magicamente a dignidade, soberania, e autonomia que o cotidiano lhes roubou.

É tudo inédito e fascinante. Ninguém poderia prever essa reviravolta, e é muito cedo para falar do futuro, mas o presente é fecundo demais para que não dê frutos, e o contágio é mais rápido do que qualquer reação. Talvez a história humana tenha finalmente chegado à Primavera. Ou estou embriagado de otimismo. É possível, mas não sou o único. Somos milhões. E você está convidado a por o pé nessa estrada.

Posted by renedepaula at 11:01 AM

Prova de fogo

Conselho de amigo: responda todo e-mail prontamente. Toda mensagem deixada de lado fica malcriada, se esconde, e o que é pior, reaparece só quando é tarde demais e o assunto, antes inocente, se tornou litígio
grave. Acumular e-mails não-lidos, então, é uma temeridade: eles se organizam e apelam pra guerrilha, anarquizando completamente o seu Inbox. Repito o aviso: tergiversar, jamais.

Responder pela metade também tem seu preço. Do outro lado do Atlântico há uma alemã esperando a metade final de uma resposta minha, e mal sabe ela do meu dilema. A moça nem tem culpa, coitada. A pergunta foi inocente, mas minha hesitação tem suas razões. Não sei ser leviano com aquilo que amo.

O que a mocinha pediu é coisa pro Caetano, não pra mim. Ela queria que eu contasse como é São Paulo. Vá você explicar o avesso do avesso do avesso pra quem vem de outro sonho feliz de cidade. Quem sou eu...

Enquanto enrolo a moçoila, circulo pela cidade. Cidade? Cabe, a palavra?

Perguntas de estrangeiros desconcertam. Com crianças é mais fácil, elas pelo menos estão dispostas a absorver a barafunda de duplas morais, de paradoxos e compromissos que chamamos de cultura brasileira. Gringos
não. Com os caras é "bread-bread, cheese-cheese".

Tenho que contar para a alemãzinha que, abstraindo a miséria, relevando os homicídios, ignorando o "casual ugly" de todos os bairros, essa cidade é do balacobaco. Fácil, não?

Sempre atribuí essa incomunicabilidade à falta de ginga das outras culturas, incapazes de acompanhar os meneios e remelexos da nossa mente barroca. Hoje vejo que nosso "Samba do Crioulo Doido" tem um preço alto demais.

Pensemos nessa meta-cidade que estamos todos construindo juntos, a Internet. Você quer cultura, contato, sacanagem, informação, comércio, anonimato? Tudo o que uma metrópole oferece você encontra na Internet, e numa escala muito maior. É a Babel possível, sem fumaça nem buzinas.

Se queremos escapar à maldição da Babel, contudo, devemos aprender muito com os "cyber-arquitetos" gringos. Nada contra a arquitetura vernacular. Trata-se de perdermos vícios. Somos especialistas em soluções de compromisso, "jeitinhos" inconfessáveis, pactos obscuros, em relevar
absurdos. Nossas cidades estão aí pra provar.

Pelo bem de todos, tenho algumas dicas aos que pretendem construir na web:

- não escolha o arquiteto pela roupa, nem pelo papo, e sim pelas obras.
- visitando pessoalmente alguma obra pronta, não se deixe impressionar por traquitanas e modernidades. (Se você não assistiu "Mon oncle" do Jacques Tati, faça-o já). E leve um leigo com você. Se ele não conseguir ir além do hall, isso é bem ruim.
- lembre-se de Brasília. No papel o projeto devia impressionar, em cartões postais é linda, mas vá viver lá dentro.
- veja bem se a manutenção é simples ou se você vai precisar do homem aranha com um vaporetto para limpar a fachada.
- leve em conta futuras expansões e reformas. Se a cada vez que você pintar a parede você precisar de um muralista italiano, esqueça.
- não adianta gastar fortunas com o projeto e economizar com o "terreno". Já vi belos sites sacrificados pela escolha descuidada do provedor de hosting. Adote provedores de primeira linha, com suporte 24 horas. Opte por aquele provedor caseiro do amigo do seu cunhado e morra na praia, outra especialidade nacional.

Como prova de fogo, peça a opinião de um gringo. E não avacalhe: prova de fogo não q

Posted by renedepaula at 11:00 AM

Sem explicação

De bons projetos o inferno está cheio. Projetos de vida, então, nem se fala, nem precisa ir ao inferno pra encontrar náufragos, gente à deriva e destinos encalhados

Com esse desemprego todo, qualquer ripinha é tábua de salvação. É ator virando chofer de praça, engenheiro fazendo pizza, um show de jogo de cintura e jeitinhos.

O improviso é uma arte nossa, mas tem frutos estranhos. Nada contra, por exemplo, em contratar uma psicóloga desempregada como secretária, mas juro que eu ia perder a naturalidade completamente. Vai saber que conclusões ela estaria tirando das minhas menores manias... E que tal ir a uma livraria e ser atendido por um bacharel em letras com doutorado na França? Você pede um Paulo Coelho e o cara tem uma crise de choro convulsivo. Ou pior: alça uma sobrancelha, te lança um olhar gelado e fica dois segundos assim, antes de indicar a estante com um gesto mudo.

Um roteirista como segurança de shopping seria uma ameaça pública. Ele viu todos os filmes do Hitchcock, se especializou em filmes noir e vai achar que aquela sua mijadinha um pouco mais prolongada faz parte de um complô do submundo.

Comunicólogos são um caso sério. Uma boa escola de comunicação te dá todo o instrumental teórico para ser um chato de galocha, e caso o vendedor de geladeiras tente mostrar que você está levando pra casa uma versão concreta da cornucópia mítica, um artefato que introduz o slow-motion nos produtos perecíveis e cuja porta é a cortina que, quando aberta, revela fantasias de prazer oral num palco iluminado, pronto, você achou um comunicólogo desempregado.

Se a internet vai unir a humanidade ninguém sabe, mas que reuniu uma salada de profissionais, reuniu. Eu venho de TV, a Urbana é de arquitetos, muitos são publicitários, artistas plásticos, engenheiros, jornalistas. O nosso métier é uma Arca de Noé.

Essa "biodiversidade" fica clara se você receber diferentes propostas para um mesmo projeto. Ao invés de se explicarem por a mais b, empresas mais técnicas vão apelar para o algoritmo do cologaritmo do rotacional de a em b, enquanto produtoras mais "estéticas" acharão que o a pode até ser serifado, mas o b tem que necessariamente romper com o mito da legibilidade. Pronto, bem-vindo à Babel.

Independentemente do perfil e da formação de cada profissional, um princípio é fundamental: o usuário final tem sempre razão. Se o consumidor de um produto não consegue abrir o pacote, a culpa não é dele, é de quem fez o saquinho. Em outros termos, interfaces podem ser revolucionárias, mas devem ser cem por cento inteligíveis. Poucos visitantes do seu site terão PhD em Comunicação Não-Linear, e ninguém gosta de ser chamado de burro por um site intrincado.

Antes de se colocar qualquer coisa no ar, teste-a antes. A seleção dos pilotos de prova deve ser cuidadosa: dispense internautas experientes, evite todos os que tenham participado do projeto e escolha pessoas que representem mais ou menos o seu público-alvo. Meia dúzia deve bastar. Coloque-os diante do produto e observe suas reações, suas hesitações, seus comentários. Antes, porém, prepare seu ego para o que der e vier. Não é fácil admitir que aquele metáfora genial do seu ícone animado para "Fale conosco" pareça na verdade uma mosca passeando na tela.

Este preceito é simples e claro (e trabalhosíssimo), mas é a pedra de toque de qualquer peça de comunicação interativa. Você duvida? Coloque um sociólogo pra ser presidente e pergunte se alguém entende o que ele fala. Eu, não.

Posted by renedepaula at 10:59 AM

Receitas básicas

Eu não podia dizer não. Há convites que, rejeitados, inscrevem você para sempre nas categorias mais odiosas da humanidade. Fui à feira, portanto.

Nada contra feiras, muito pelo contrário. Elas trazem aquilo que a Internet tenta, aos trancos e barrancos, oferecer: produtos frescos, contato humano, transações diretas. O problema era sim uma esplêndida dor de cabeça, resultado inevitável de mais uma overdose de trabalho. Fui, contudo.

Não me arrependo. Minha enxaqueca não melhorou em nada (tantas cores e cheiros e sons) mas minha visão das coisas sofreu um abalo profundo.

Tudo começou com um linguado.

Você já viu um? Não frito, nem cru, mas o cadáver mesmo? Pois bem, sorte a sua. Poucas teologias e crenças resistem à afronta do linguado. Desconfio que ele sozinho explica metade de Picasso.

Pois bem, eu nunca tinha visto nenhum, e observando uns peixes achatados sobre o balcão do peixeiro, percebi que eles não tinham olhos. Coisa estranhíssima: tinham boca e tudo, mas olho não. O peixeiro com muita naturalidade desvendou o enigma, virando a criatura. No lado B do defunto ficavam os dois olhos, meio encavalados, encarando você com ares de Guernica.

Em suma, lado A boca torta, lado B olhos cubistas. Como se ele tivesse sido flagrado no meio do caminho entre um peixe e uma arraia. Veja por si mesmo. É perturbador.

Pela fartura de exemplares sobre o balcão, contudo, se deduzia que a espécie ia muito bem, obrigado, proliferando e cevando à revelia da simetria bilateral. Sem medo de ser feliz.

Antes desse choque eu tinha uma idéia clara do que escrever neste artigo, mas tudo mudou. Vejo agora que o que chamamos hoje de web é algo mal definido, aparentada com tudo e parecida com nada, e que a despeito disso se expande, e muito. Sejamos honestos e admitamos: ninguém explica a web.

Já que não entendo o linguado e a web ainda me espanta, o jeito é dar algumas receitas. Não de linguado, por favor, não sei cozinhar, mas receitas simples e saudáveis de uso da web. Nada de iguarias exóticas envolvendo tubarões, baleias, e peixes-palhaço, apenas maneiras sensatas de usar a Internet a seu favor.

Posted by renedepaula at 10:59 AM

Nu com a mão no mouse

Despir-se não é coisa simples, nem para exibicionistas.

Vi uma reportagem interessante outro dia sobre coelhinhas da Playboy. Modelos experientes confessavam que ser gravada nua em vídeo era, no início, altamente constrangedor, enquanto posar para fotos era moleza. Pensei: pelada por pelada, que diferença faz?

Tem diferença sim: numa sessão de fotos elas preparam a pose, expõe os melhores ângulos (ou curvas?), e têm noção do que está sendo enquadrado. Já no vídeo não basta ser gostosona, tem que ser jeitosa (o que nenhum silicone resolve), e o que é pior, enquanto fazem seu número, nunca sabem o que o cameraman está explorando. E se ele fecha o zoom naquela dobrinha secreta? Ou naquela marca de vacina? E acabam perdendo o rebolado.

Vou confessar que já me senti assim algumas vezes, e não gostei. O que estava em cena não era minha nudez (que parece ter valor comercial irrisório) mas outras intimidades. Estou me referindo a testes psicotécnicos, daqueles em que um sujeito observa atentamente você desenhando casinhas e árvores, mexendo quadradinhos coloridos e outras puerilidades, e vai anotando tudo. Não sei se isso te incomoda, mas eu me senti estranhíssimo. Que taras e manias secretíssimas ele diagnosticou só porque eu hesitei entre um triângulo rosa e um círculo vermelho? Até que ponto meu destino profissional estaria dependendo de eu colocar peitos maiores ou menores num desenho tosco? Eu, hein... Não gostei. Dançar pelado deve ser mais fácil, ainda mais se bem pago.

Ainda vou preparar um teste indicador de perversões e taras baseado naquilo que é quase um inconsciente coletivo: televisão. Primeira questão: quem te atrai mais, a Jeannie-é-um-gênio ou a Feiticeira? Segunda: você já teve sonhos estranhos com Dr. Smith, com Fitzhagen ou com Spok? Quem você queria como seu amiguinho: Robin, Zorro ou o James West?

(Aliás, o que leva alguém saudável (todo herói parece ser) a vestir roupinhas colantes e coloridas e se envolver com bandidos? Quem é o figurinista perturbado que desenha as máscaras, capas e outros adereços incompatíveis com a performance atlética? Mistério mesmo é que um par de óculos disfarce o superhomem. Eu posso me vestir de Banana de Pijama que todos me reconhecem de longe.)

Heróis mascarados são fascinantes mesmo: na vida cotidiana são taxados de bananas e nem se incomodam, porque sabem que, no fundo, são do balacobaco. Na vida mascarada eles são absolutos, não devem satisfação a ninguém, e podem castigar desafetos sem medo de derrota nem de retaliação. Qual o garoto que não inveja isso?

Se o seu consumidor era até hoje arredio, diluído na massa, uma ficção estatística, agora ele não é mais invisível, está a nus, exposto. Estou falando da Internet, claro, onde as máscaras são tantas e a privacidade tamanha que o usuário não se preocupa com a própria imagem, e age com total naturalidade. Nu com a mão no mouse.

Um site bem planejado é capaz de acompanhar cada passo do visitante, e registrar cada decisão, cada preferência, e ir criando um precioso banco de dados de custo irrisório. Se os seus usuários forem fãs do Pinguim isso vai ficar patente, mesmo que eles jurem adorar a Mulher-Gato.

O que leva um internauta a se expor tanto? Não é só a “máscara”, a certeza de privacidade e segurança. Se a Internet só oferecesse isso não passaria de um espetáculo estranho, como um daqueles bailes de carnaval que passam de madrugada na tv.

O segredo são os superpoderes. Dê ao usuário do seu site poderes concretos, capacidades que ele não tem no seu cotidiano, poderes como o de efetuar transações, encontrar informações, se comunicar diretamente. Isso vale mais que capas voadoras, visão de raio X e telepatia.

Você já comprou livros na Amazon Books (http://www.amazon.com)? Lá você acha o que quiser, escolhe, encomenda, encontra sugestões, e toda decisão sua fica armazenada. Na próxima vez que você visitá-los, ele já arrisca sugerir livros com base no seu comportamento online. É de tirar o chapéu. E o cartão de crédito.

Dê poderes ao seu usuário e você o conhecerá como nunca, sem que ele se sinta invadido.

Se ele insistir em vestir a cueca por cima do collant, isso é problema dele.

Posted by renedepaula at 10:58 AM

Peixes e a Era de Aquários

Quem quiser me encontrar aos sábados pela manhã, que me procure na feira. Vai ser fácil me achar, as barracas são poucas, a rua é curta e não tem tanta gente assim. Só peço que não perguntem de mim aos feirantes: não tenho idéia do que eles pensam de mim, e prefiro nem pensar nisso. Eles continuam me tratando normalmente, tão bem quanto à minha esposa, versadíssima na ciência milenar dos hortifrutis, mas que eles devem desconfiar, isso devem.

Esse meu interesse profundo pelas formas de repolhos, pelo design de peixes e pelas convoluções de vísceras bovinas deve parecer algum tipo de fiscalização à paisana. Se eles lessem ABOUT, contudo, iam se sentir verdadeiras musas de artigos aleatórios.

A barraca dos peixes é para mim fonte de inspiração perpétua, mesmo que inspirar naquela área não seja muito recomendável. Os poucos peixes que conhecia até então viviam em aquários. Um deles, o último que tive, marcou minha memória ao saltar do seu mundinho esférico e amanhecer morto na máquina de escrever de meu pai, sem deixar um bilhete sequer. Entendi enfim Manuel Bandeira e “a paixão dos suicidas que se matam sem explicação”.

Outra lembrança literária dessa incomunicabilidade vem de um diário de Érico Veríssimo, onde ele descreve os camponeses mexicanos como tão inacessíveis e distantes como peixes num aquário.

Pode ser algum tipo exótico de claustrofobia, mas é assim que as mídias tradicionais me fazem sentir: como um peixe no aquário. Vejo através do vidro um mundo separado de mim, e que me alimenta gratuitamente com uma ração diária de emoções e informação. Para piorar, ainda nos confundem com piranhas, servindo doses cada vez maiores de carne tenra e sangue.

Essa sensação de passividade e isolamento desaparece na Internet. Ali caço meu próprio alimento, ali encontro companheiros de espécie, ali tudo é móvel, variado e fecundo.

Ok, já se foi o tempo que nós precisávamos de metáforas para descrever a Internet, nós não precisamos mais disso. Nós não, mas eu sim. São tantas e tão complexas as questões que vem envolvendo esse fenômeno que eu precisei parar por um instante e repensar minha posição a respeito. Essa mídia requer lucidez e coerência, e isso se perde com facilidade.

Duas idéias básicas: a Internet não é minha nem sua, muito menos dos profissionais de comunicação. Sejamos sinceros e admitamos: ela surgiu e cresceu à nossa completa revelia, e o máximo que alguns de nós conseguiram foi pegar o bonde andando e sentar na janelinha. O que isso implica? Implica humildade e cuidado dobrado, pois estamos lidando com um universo muito particular, onde muito do que sabemos não tem mais valor.

Segunda idéia central: embora estejamos conseguindo tornar a Web cada dia mais rica em recursos multimídia, usando Flash, Shockwave, Java e Real, isso não garante a conquista dos corações e mentes online. Se tudo essa pirotecnia realmente fosse fundamental, as pessoas não estariam deixando suas TVs estereo de 29” para sentar frente a um PC. O grande tesão da internet é conectar-se ad libidum (libidinosamente, inclusive), como, quando e com o que você quiser.

A internet é relação, não só desejo.

Fazer sites que gerem relações férteis não envolve necessariamente a última tecnologia. Com um bom banco de dados e um pouco de CGI você pode ter um site útil, funcio