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outubro 16, 2005
Dicas de dança por um peso-pesado
Você vai ficando mais velho e o que era elogio passa a te deixar com
um pé atrás. Por exemplo: ser um profissional "sênior" indica uma
trajetória profissional longa e rica ou quer dizer que... por decurso
de prazo você já virou um "ex-jovem"?
E ser um "peso-pesado"? Significa que você precisa retomar a dieta
a-go-ra ou que a sua atuação é poderosa e faz diferença no jogo de
forças?
Pelo sim, pelo não, essa semana eu me inscrevo numa academia. :)
Se você não for tão sênior assim talvez nunca tenha ouvido falar de um
peso-pesado magnífico, o Cassius Clay. Já? Não? Mohammed Ali, então?
Também não? Céus... quem mandou eu ter 40 anos, enfim?
Vamos lá: Mohammed Ali e Cassius Clay são o mesmo pugilista, e o nome árabe foi adotado quando ele se converteu ao islamismo como o Cat Stevens (o que, na pré-história da minha juventude, era um gesto anti-guerra e pacifista, pasmem).
Eu ia sugerir que você pesquisasse a respeito por conta própria, mas me esqueci que a tua referência de peso-pesado deve ser algo furioso e bestial como Mike Tyson, cuja colaboração artística para a humanidade foi arrancar com os dentes uma orelha alheia, e isso não deve te animar muito.
Esqueça o Tyson. Cassius Clay era elegantíssimo no ringue, um dançarino. Mais: fora dos ringues era um ativista político, um negro consciente, um ídolo pop e, pasme, um belo frasista. É dele a frase que me inspirou esse artigo: "fly like a butterfly, but sting like a bee", voe como uma borboleta, mas ferroe como uma abelha. Lindo, não? Exceto, claro, para quem, confuso de ver aquele gigante dançando em torno de si, recebia o murro certeiro e beijava a lona.
E o que tem a ver o conselho de um boxeur com nosso ofício de zeros e uns? Simples: muitos dos grandes tapas-na-cara digitais hoje, muitas das porradas nocauteadoras no digimundo são... simples.
Não? Pense nas páginas de busca. Pense nos messengers. Pense nos blogs. Voam como borboletas, não? Você os acessa de todo lugar, em qualquer máquina, em palms, em celulares... Não importa onde, eles pousam com graça e leveza sempre. A hora que você os aciona, porém, são rápidos e certeiros. Como uma abelha. Viram só? Ou vocês pensavam que abelhinhas e flores só servem pra (não) falar de sexo?
Agora pense naqueles sites super instigante-original-multimídia que você viu uma vez só, achou lin-do, mas nunca mais usou porque ele não te agregava em nada. Well, de cara me lembro de uns 3.
Eu creio, porém, que o Cassius Clay não tenha jamais sido picado por uma abelha. Você já foi? OK, dói, mas como se não bastasse a picada, a abelha continua se batendo contra você insanamente, batendo, batendo, até morrer. Muito estranho (e contra as regras do pugilismo, imagino). Sabe por que ela faz isso? Antes de morrer, ela vai te marcando com um odor que avisa às outras abelhas que você é um inimigo. As outras abelhas sentem o cheiro que ela deixou em você e te picam também. Aí que mora o perigo: uma picada leva à muuuuuitas outras.
Tem outra grande lição aí: abelhas não só ferroam forte, mas também colaboram entre si, trocam informações, e assim derrotam qualquer inimigo. E as coisas mais bacanas que temos hoje no digimundo funcionam da mesma maneira: as "borboletas" digitais não só voam com elegância mas também se comunicam entre si. Teu messenger te avisa do email que chegou e das últimas notícias, teu webmail te avisa por SMS de uma mensagem urgente, você escolhe quais fontes de notícia tua home vai "escutar" por RSS, você compartilha teus favoritos usando metatags, você compra produtos baseado nos reviews de outros consumidores...
É assim que os pesos-pesados do digimundo estão lutando hoje, num estilo que mistura leveza, rapidez e integração. Preste atenção, compare os campeões, estude seus movimentos. E torça fervorosamente, como eu, pelos milhões de usuários que estão ganhando asas.
Posted by renedepaula at 9:47 PM
Gestão do Luxo
Se você quiser entender o Brasil volte pra escola: escolas de samba.
Eu faltei nessa aula e até hoje sinto falta.
Um dos nossos gênios da raça, Joãozinho Trinta, cercado de corpos nus e alegorias, despiu nossa brasilidade em cadeia nacional: "Quem gosta de miséria é intelectual. Povo gosta de luxo". E dá-lhe apoteoses, purpurina, plumas e samba para o mundo inteiro babar.
O "renezinho quarenta" aqui não gosta de miséria, mas eu devo confessar que essa mania toda de luxo me desconcerta. Gestão do Luxo pra cá, shopping de luxo pra lá, revistas de luxo, cafés de luxo, bancos de luxo... Tem algo esquisito aí, não? Ou sou eu que preciso ter mais jogo de cintura?
Talvez eu tenha passado tempo demais bebendo de outras fontes, fontes gringas, lendo os Jakob Nielsen e Steve Krug da vida e torcendo o nariz pra carnavalidades, leões de Cannes, prêmios e outras alegrias tupiniquins.
Talvez eu tenha me viciado na racionalidade das métricas do marketing direto, ou na fissura de otimizar resultados e tal.
Overdose de "less is more", talvez.
Preciso reler Oswald. Preciso rever a Tropicália. Quem sabe assim eu aprendo a me alimentar da racionalidade importada para transformá-la em algo que dê samba. É o mínimo que eu posso fazer, pois em torno de mim, com ou sem Oswalds e Caetanos a brasileirada toda é PHD em antropofagia.
Orkut? Dá samba. Fotolog? Entrou na roda. Podcast? Manda que a gente traça!
Essa facilidade com que adotamos novidades me desconcerta, palavra. Quando eu menos espero já perdi o pé e estou atravessando o samba. E dá-lhe repensar, sondar, fazer de tudo o que possa me trazer de volta ao compasso popular. Mas cinco minutos depois surge outra novidade e pronto, lá vamos nós de novo.
Acho que estou aprendendo algo, enfim: no digimundo "miséria" não quer dizer interface peladinha, e "luxo" não requer banda larga. Pense bem: messengers são um luxo. Orkuts e Yahoogrupos são um luxo. Uma caixinha de busca no teu browser, seja Yahoo ou Google ou MSN, são um luxo. SMS entre operadoras idem.
Pense agora nas coisas que te fazem sentir miserável: internet banking ruim é miséria. Sites com "loading" são uma miséria. "Fale conosco" que não responde é uma miséria. Softwares pesados são uma miséria.
Luxo é uma experiência rica. Experiência rica é aquela que te enriquece como ser humano.
Miséria é querer e não conseguir. Miséria é ser tratado como mais um.
Luxo não é um computador que fala: luxo é falar de graça com gente querida usando Skype.
Luxo não é uma foto de 6 megas: é tirar uma foto do teu filho com o celular e mandar direto pro Flickr para o mundo inteiro ver.
Luxo é esquecer que abismos existem. Miséria é ficar ilhado.
Rodei, rodei para enfim cair numa roda de samba, precisei chegar aos 40 para entender a sabedoria do Joãozinho Trinta.
Falta só eu ter mais ginga. Quem sabe um dia.
Enquanto isso crio passarelas e pontes e construo instrumentos para o povo delirar na avenida.
Posted by renedepaula at 9:02 PM | Comments (0)
