abril 6, 2005

Confissão honesta

Duas ou três coisas despertam em mim uma inveja indigesta. Hoje torno pública uma fraqueza inconfessável: sempre invejei pessoas que estavam na época certa, no lugar certo e vivenciaram plenamente momentos irrepetíveis. Eu era uma criança em maio de 68, um adolescente tímido nos anos setenta, e acabei tendo que engolir a estranha década de oitenta com a certeza de chegar no final de uma festa enlouquecida. E fim de festa é sempre uma lástima, ainda mais se você é o único sóbrio.

Algumas das histórias mais invejavelmente saborosas e coloridas que já ouvi foram contadas (e muito bem contadas) por veteranos do rádio e da televisão. O rádio teve uma expansão brilhante no nosso país, levada adiante por grandes atores, dramaturgos, músicos, artistas circenses e visionários. Ouvir relatos desses pioneiros é arrebatador.

Essa mesma geração abraçou a TV com uma missão impossível: fazer televisão sem nunca ter visto televisão. Um ou outro felizardo ia aos Estados Unidos e voltava contando as maravilhas, mas sem nem uma VHSzinha pra poder mostrar. Acredite se quiser, mas TV era ao vivo. Nada de videotapes, séries enlatadas. Ao vivo.

Nada de undos, CTRL+Z ou back-ups para reverter burradas. Coisa para cabra macho.

Eu morria de inveja dessa safra de aventureiros. Eles traziam nos olhos o brilho de uma primavera da História.

Tenho um certo receio que minhas histórias não venham a encantar gerações vindouras. Vai ser difícil descrever nossa luta diária com máquinas instáveis, softwares trôpegos e uma massacrante falta de tempo. Pensando bem, agruras não interessam a ninguém. O que talvez me garanta um ouvinte aqui e outro ali seja um brilho no olhar, o calor na voz, o gesto apaixonado ao contar uma aventura fascinante, a de ter sido um protagonista modesto da primeira saga sem heróis nem deuses, da única história escrita por milhões de mãos.

Uma inveja a menos na alma. E o que é melhor: ninguém precisa ter inveja disso. É só pôr a mão na massa.

Posted by renedepaula at 11:13 AM

Cardápio fresco, variado e rico é receita de longevidade

(96? 97? deve ter sido meu primeiro artigo na ABOUT)

Sábado é dia de feira na minha rua. Uma feirinha de bairro, resumida, que nem chega a bloquear a passagem dos carros. Uma sacola na mão, uns trocados no bolso e lá vou eu.

São momentos de prazer, esses. Há sempre uma curiosidade sobre o que a feira trouxe de bom: é tempo de manga, já? Os peixes estarão frescos? E aqui e ali feirantes oferecem nacos generosos das suas melhores frutas, provas palpáveis e deliciosas da excelência do que vendem, da sinceridade do que apregoam. É uma festa, a feira.

É ainda Gênesis na Internet. A Luz mal se fez e o Verbo multiplica-se loucamente. A poeira se condensa, aqui gerando planetas, ali parindo sóis. Galáxias colidem e se engolem.

Nesse novo cosmo, porém, há mais do que Física: há Vontade e Espírito. Ali maçãs só caem quando o Criador assim deseja. E os Criadores são milhões, e são mortais, e são humanos. E humanos nem sempre criam à sua imagem e semelhança.

Feirantes vêm aprendendo há séculos o seu ofício, e a sua estratégia é posta à prova dia a dia. Inventou-se o supermercado, o hipermercado, a compra on line, e as feiras aí estão, frescas e coloridas. Não morreram nem azedaram porque seus fregueses a querem viva, a querem assim, fonte de alimento saudável e de contato humano.

Criar para a Web é criar para pessoas. Cada uma delas ligou sua máquina, se conectou a rede e acessou o seu site porque precisa de algo. Se encontrar menos do que procura, talvez não retorne. Se o que procura for difícil de achar, talvez não retorne. Se ela não se sentir bem-tratada, certamente não retornará.

Não é fácil agradar pessoas, satisfazê-las, adivinhar seus desejos. Temos que ser muito atentos.

Tenho dois exemplos de sites que sabem a que vieram: Blue Bus e Learn2. Longa vida a ambos, e que a sua lucidez lance sementes fecundas.

Meu nome é René, e esta é uma fatia do que prometo trazer semanalmente. Espero que tenha sido ao gosto do freguês. Até a próxima.

Posted by renedepaula at 11:12 AM

Críticas construtivas

Conselho de amigo: responda todo e-mail prontamente. Toda mensagem deixada de lado fica malcriada, se esconde, e o que é pior, reaparece só quando é tarde demais e o assunto, antes inocente, se tornou litígio grave.

Acumular e-mails não-lidos, então, é uma temeridade: eles se organizam e apelam para a guerrilha, anarquizando completamente o seu Inbox. Repito o aviso: tergiversar, jamais.

Responder pela metade também tem seu preço. Do outro lado do Atlântico há uma alemã esperando a metade final de uma resposta minha, e mal sabe ela do meu dilema.

A moça nem tem culpa, coitada. A pergunta foi inocente, mas minha hesitação tem suas razões. Não sei ser leviano com aquilo que amo. O que a mocinha pediu é coisa pro Caetano, não pra mim. Ela queria que eu contasse como é São Paulo.

Vá você explicar o avesso do avesso do avesso pra quem vem de outro sonho feliz de cidade. Quem sou eu... Enquanto enrolo a moçoila, circulo pela cidade.

Cidade? Cabe, a palavra?

Perguntas de estrangeiros desconcertam. Com crianças é mais fácil, elas pelo menos estão dispostas a absorver a barafunda de duplas morais, de paradoxos e compromissos que chamamos de cultura brasileira. Gringos não. Com os caras é "bread-bread, cheese-cheese".

Tenho que contar para a alemãzinha que, abstraindo a miséria, relevando os homicídios, ignorando o "casual ugly" de todos os bairros, essa cidade é do balacobaco. Fácil, não?

Sempre atribuí essa incomunicabilidade à falta de ginga das outras culturas, incapazes de acompanhar os meneios e remelexos da nossa mente barroca. Hoje vejo que nosso "Samba do Crioulo Doido" tem um preço alto demais.

Pensemos nessa meta-cidade que estamos todos construindo juntos, a Internet. Você quer cultura, contato, sacanagem, informação, comércio, anonimato? Tudo o que uma metrópole oferece você encontra na Internet, e numa escala muito maior. É a Babel possível, sem fumaça nem buzinas.

Se queremos escapar à maldição da Babel, contudo, devemos aprender muito com os "cyber-arquitetos" gringos.

Nada contra a arquitetura vernacular. Trata-se de perdermos vícios. Somos especialistas em soluções de compromisso, "jeitinhos" inconfessáveis, pactos obscuros, em relevar absurdos. Nossas cidades estão aí pra provar.

Pelo bem de todos, tenho algumas dicas aos que pretendem construir na Web:

* Não escolha o arquiteto pela roupa, nem pelo papo, e sim pelas obras.
* Visitando pessoalmente alguma obra pronta, não se deixe impressionar por traquitanas e modernidades. (Se você não assistiu "Mon oncle", do Jacques Tati, faça-o já). E leve um leigo com você. Se ele não conseguir ir além do hall, isso é bem ruim.
* Lembre-se de Brasília. No papel o projeto devia impressionar, em cartões postais é linda, mas vá viver lá dentro.
* Veja bem se a manutenção é simples ou se você vai precisar do homem aranha com um vaporetto para limpar a fachada.
* Leve em conta futuras expansões e reformas. Se cada vez que você pintar a parede, você precisar de um muralista italiano, esqueça.
* Não adianta gastar fortunas com o projeto e economizar com o "terreno". Já vi belos sites sacrificados pela escolha descuidada do provedor de hosting. Adote provedores de primeira linha, com suporte 24 horas. Opte por aquele provedor caseiro do amigo do seu cunhado e morra na praia, outra especialidade nacional.

Como prova de fogo, peça a opinião de um gringo. E não avacalhe: prova de fogo não quer dizer dar uma caipirinha pro cara antes do teste.

Posted by renedepaula at 11:11 AM

Terra a prazo

Ouvi há tempos uma historinha boa. O homem branco leva para uma tribo indígena uma polaroid. Convence um índio desconfiado a posar, enquadra o close e clica. A foto enfim se revela e ele a mostra, triunfante, ao seu modelo pelado. Para seu choque, o índio nem se comove. "Esse aí não sou eu. Eu tenho pernas". Um a zero para o time sem camisa.

Fui adquirindo um certo orgulho da nossa tupiniquice antropofágica de tanto conviver com estrangeiros e suas idiossincrasias .

Descartes não foi tão original assim, afinal vivia num mundo quase cartesiano. Queria vê-lo no meio do carnaval de Olinda.

Aliás, qual não deve ter sido o choque dos ibéricos que baixaram nestas terras quinhentos anos atrás. Com uma coragem beirando a insensatez, eles embarcaram em navios precários sonhando com terras de ouro e índias peladas. A pertinácia ibérica colonizou na marra o novo mundo, mas amancebou-se. E eis-nos aqui, ocidentais pero no mucho.

Bons tempos aqueles, em que se descobriam novos mundos. A China, hors-concours tradicional no quesito originalidade, agora é freguesa. Na falta de novidades, cientistas apontam antenas para o confim do universo e ficam ali, à espera de um sinal de vida.

Tenho receio de que um dia se descubra um universo paralelo, povoado por uma civilização intocada e próspera. Esse povo talvez nem chegasse a nos conhecer, porque provavelmente nos mataríamos antes disso, numa guerra maluca para decidir quem iria no primeiro comboio. Se coubesse a você compor essa comissão de frente, quem você incluiria? Antropólogos alemães? O Papa? A American Chamber of Commerce? A loira do tchan? Difícil decidir.

A Internet está passando por algo bem parecido. Ninguém sabe muito bem como, surgiu esse universo paralelo e populoso. Eis um Novo Mundo, uma "Terra Incognita"! Quando vejo a profusão de palestras, eventos e livros sobre como ganhar dinheiro com a Internet, penso nos antigos ibéricos desembarcando nas praias com a cruz em uma mão e a espada na outra.

Cada novo navio traz missionários, exilados, visionários, mercadores, e os inevitáveis piratas. Não quero insinuar que os colonizadores vão acabar na panela, nem que os índios vão virar pinguços sifilíticos, mas para que todos saiam ganhando, há alguns cuidados a se tomar.

Os usuários da Web herdaram dos índios uma saudável repulsa à servidão, bem como um elevado senso de dignidade e liberdade. A aparente desorganização da Web esconde laços sociais e humanos complexos, numa teia de vínculos entre tribos e clãs. Quem ignorar isso e forçá-los a outra vida corre o risco de morrer na praia.

Metáforas à parte, a tecnologia interativa tem possibilidades infinitas, mas nem todas com a mesma chance de sucesso. Pessoas se conectaram a essa rede high-tech porque ali se sentem mais humanas.

Você que está pensando em criar um website, pense bem em como melhorar a vida do seu usuário, e depois em como torná-lo seu freguês. Analise bem se o usuário vai se sentir à vontade no seu site, e faça muitos test-drives preliminares. Veja como associar o seu site a um site complementar, numa simbiose em que até o usuário ganhe. Pense em relações longas, em parcerias múltiplas. Não pense apenas na embalagem, pense no conteúdo.

Desta vez, quem precisa de catequese é quem vem para o Novo Mundo. Que é admirável, aliás.

Posted by renedepaula at 11:10 AM

Hashis, Arquitetura de Terremotos e a Web

A primeira ida a um restaurante japonês é difícil de esquecer. Nada é familiar. Para piorar, você parece ser o único desentendido no recinto, todos os presentes são PhDs em iguarias exóticas e contorcionismo. E você ali, apanhando agachado de um par de palitinhos.

Até então você se julgava um gourmet: por quantias módicas era fácil se empanturrar num rodízio, por menos ainda você ganhou bons quilinhos nas cantinas da vida, e já degustou a peso de ouro o melhor da nouvelle cuisine. Tudo uma questão de saldo bancário e domínio do garfo e da faca.

Quando a fome é do espírito o cenário é quase o mesmo. Apertando um botão ou dois imagens, sons e palavras jorram dos aparelhos mais diversos. Simples.

A internet entra em cena como um restaurante japonês. Os iniciados falam tantas maravilhas que não se pode evitar a decepção. Onde está aquela enxurrada de sensações das outras mídias? E que história é essa de comer aos bocadinhos? E por que não escrevem tudo em português duma vez?

Se o iniciante estranha, o cozinheiro novato estranha muito mais. Da feijoada ao sushi misto é uma longa e espinhosa estrada. É duro o aprendizado da singeleza. Foram terremotos que ensinaram o japonês a construir com bambu e papel de arroz suas casas insuperáveis. É a low bandwidth que nos obriga a ser precisos e elegantes, flexíveis e rápidos como samurais têm que ser.

Meu exemplo da semana é o site da Wired. A bíblia do design gráfico entrou no éter da Web deixando para trás todo o peso da matéria. Passeie por esta casa ampla e sirva-se à vontade. O sabor é excelente, é tudo de primeira qualidade e nem chega a pesar. E só tira o sapato quem quiser. Eu tiro o chapéu.

Posted by renedepaula at 11:09 AM

As time goes by

Durante um bom tempo tive um chaveiro em forma de tubarão. Era bonito o chaveiro. Perdi-o, e nem pensei em comprar outro igual. Não queria mal-entendidos. Afinal, ele representava para mim o contrário exato do que podia parecer. Eu tinha um tubarão comigo para lembrar-me sempre do que não somos.

Tubarões são uma estratégia levada ao extremo, ao seu ponto de perfeição. Essa máquina complexa é a tradução em órgãos do verbo caçar. E ponto. Nada nele é supérfluo, nada é desvio. O tubarão é tubarão até as ùltimas consequências, até a ponta de sua cauda. Enquanto o oceano for oceano ele será tubarão, como vem sendo há milhões de anos.

No nosso design o conceito foi outro, revolucionário. Nada de garras ou couraças, mas sim o dom de inventar modos de ser. Falando chinês ou sueco, usando gravata ou quimono, pelados ou de farda, os humanos criaram mundos à sua imagem. Somos plásticos.

Pero no mucho.

Há um mamífero muito peculiar dentro de nós. É ele que nos faz criar "tribos", que nos faz definir e defender territórios e que nos impele a amar. Foi agindo assim que esse animal sobreviveu a tudo, e nos trouxe até aqui. Ele só sabe ser feliz assim. Contrarie esses impulsos e veja nascer uma fera.

A cidade está aí para provar isso. Aguce os ouvidos e ouça bestas rugindo.

Criamos agora um mundo virtual, etéreo, impalpável, incorpóreo. E - ironia máxima - os mamíferos estão adorando.

Não há porque ser defensivo quando mal se pode falar de territórios. Ninguém é estrangeiro onde todos são estrangeiros. Quando todos têm a mesma força e voz, não há como intimidar. A noção de sujeito implode e o mamífero aplaude.

Preste atenção no seu corpo. Você vê garras? Espinhos? Escamas? Não. Sua pele é lisa, fina, suas mãos são hábeis, e seu coração não quer ficar vazio.

Seja mais mamífero, mesmo que virtualmente. É o primeiro passo para deixar de ser besta.

Minha dica da semana é o site Last Word, onde a dúvida de um é lição para todos, e onde ninguém tem a última palavra.

Posted by renedepaula at 11:08 AM

Teatro e seu hiperduplo

Acabo de voltar de um restaurante, onde encontramos um ator famoso misturado a outros mortais. Não nos surpreendemos, afinal aquele é um reduto antigo da classe teatral.

Atores. Eles costumam ter em alta conta seu ofício, e não é incomum que alguns, num esforço de redenção e catequese, se lancem pelados ao colo de algum espectador desavisado ou corram atrás de outros brandindo moto-serras, tudo em nome de uma experiência ativa da magia teatral.

Mas o que me fascina mesmo, mais do que aquilo que venha a acontecer no palco ou nas telas, é a massa humana em torno. Eles assistem calados, riem, choram, e assistem. Saíram de casa dispostos a observar gente representando, fazendo de conta descaradamente. Voltarão a suas casas com o coração e a mente ecoando emoções, pequenas sementes que talvez vinguem, talvez medrem. (Em casos mais radicais, trarão respingos de sangue de galinha, gosma ou tinta azul, mas isso deixo para lá).

Platéia e atores fazem de conta, é um pacto. O espectador pega o seu cotidiano, dobra bem dobrado, junta ao seu passado meio amarrotado e os deixa pendurados na chapelaria. O mundo fica lá fora, suspenso. Cá dentro, ele vive na pele dos outros, fala por mil bocas, ouve tudo ao mesmo tempo. Experimenta por empréstimo o que não pode, não quer ou teme tentar. O espectador se multiplica em corpos diferentes, em passados outros, em reações possíveis. Volta para casa são e salvo, mas marcado, maior. A platéia é antropofágica há milênios, não esperou por Oswald de Andrade.

É uma capacidade misteriosa essa nossa, de podermos ser outros, de vermos por outros olhos, de aprendermos com ilusões.

A internet é um palco seguro. Podemos ser qualquer coisa, inclusive a mais difícil de todas: ser bom. Talvez venha daí a generosidade e o altruísmo reinantes na rede. Talvez esse treino virtual da simpatia nos faça perder o medo, nos desarme, e nos ensine a ser gregários de novo. Eu espero que sim.

Tente entrar em um chat do Universo On Line. Você vai ver de tudo, sobretudo uma coisa: um espetáculo onde os atores estão em toda a parte e a platéia em lugar nenhum.

É fascinante, isso. E promissor.

Posted by renedepaula at 11:08 AM

Ao pé da letra

Um conhecido meu, muito querido, tem um carinho especial por envelopes. Não envelopes quaisquer, mas aqueles com o selinho "Via Aérea", com a borda verde e amarela, desses que papelarias vendem a preço de banana. Essa ternura por um objeto prosaico vem de longe, de um tempo doído, em que muitos brasileiros deixaram o país, querendo ou não. Ele foi para Paris, onde se formou jornalista.

(Longe daqui brasileiros perdem o pé, perdem o viço, e enganam a fome de Brasil com simulacros, batucando onde não devem, improvisando feijoadas, jogando bola. E devoram e ruminam as menores migalhas de brasilidade que lhes caem nas mãos, sejam revistas usadas, sonhos de valsa ou feijão.)

Naquele tempo um envelopinho tupiniquim trazia tesouros. Espremido em caligrafia ansiosa, preenchendo linhas e entrelinhas, chegava bem dobradinho um rio de brasileirice, saudades. Tudo dentro do envelope auriverde, bendito.

Hoje os rios são outros. Envio para amigos jorros curtos de zeros e uns, pouco mais que um frisson em fios de cobre, e, em uma tela qualquer do mundo, letras que não são minhas vão compor sabe-se lá como a mensagem que eu pari. Num milagre impalpável, elétrons inquietos carregaram pelo mundo carinho, emoção.

Eu escrevi, meu amigo lerá. Comunicação silenciosa, lenta, profunda. O que ele recebe foi pensado, sopesado, reescrito, e ele poderá degustar aos bocados, saborear. Mesmo na vala comum de um Inbox as mensagens não vão amarelar, nem se perder.

Em alguns anos, quando o besteirol em stereo surround nos engolir de vez, talvez sintamos uma saudade boa não de envelopes coloridos, mas do silêncio e do parto escondidos em cada e-mail, das hesitações no teclado, da mensagem "Receiving 1 of 2 messages".

Alguém me indicou outro dia o programa ICQ, e resolvi testar. Eu recomendo a todos: mal você se conecta, ele desperta e confere se os seus amigos estão ou não on line. Com um clique, você envia mensagens instantaneamente, abre chats em tempo real, confere e-mails inclusive. Melhor que telepatia. Testem, eu recomendo.

Posted by renedepaula at 11:07 AM

Cem por cento contrabando

Sou radialista por formação, e ainda guardo um enorme carinho pelo métier, mesmo o tendo abandonado de vez. Nesses meus poucos anos em TV acumulei histórias e personagens que me acompanharão pela vida toda. Tempo rico, esse.

Relembrar televisão, para mim, é lembrar a tela do IBOPE. Em todos os televisores e monitores da redação o canal 12 mostrava, sob fundo preto, uma tabela de números miúdos que mal se liam. Aquela salada de dígitos, contudo, era nosso termômetro, nossa bússola, era o retrato instantâneo em preto e branco da reação do nosso público.

Um ponto a mais ou a menos representava uma imensidão de lares, e era perturbador imaginar seu trabalho sendo visto por milhões de brasileiros ao mesmo tempo. E todas essas pessoas apareciam para nós como pequenos algarismos numa tela. Quem eram eles?

Um dos encantos da Internet é que do outro lado do meu monitor há pessoas com nomes e, sobretudo, com voz.

Nesse minha nova profissão, contudo, a incógnita é outra: eu nunca sei ao certo que máquina está digerindo meu trabalho. A fauna informática é variada, e o pedigree dos computadores nem sempre é nobre. Muitos deles são clones mal-feitos, colagem e bricolage de componentes de origens diversas, uma feira do Acari digital.

E vá você descobrir como funciona uma dessas máquinas. Manual nem pensar, e se houver não corresponde ao equipamento. Garantia é um substantivo abstratíssimo nesse universo, impalpável. No mais das vezes é um milagre que tais Frankensteins mal costurados funcionem: mal falam a mesma língua, e não pensam do mesmo modo.

Crentes e convictos, um desafio: provem-me que com humanos é diferente. Digam-me como configurar pessoas, ou convençam-me que uma mentalidade funciona melhor que outras. Tragam, inclusive, um método inequívoco de benchmarking. E onde está a garantia do fabricante? Definam um protocolo cross-plattform de convivência global. Mostrem-me uma interface amigável e evoluída que mascare o mamífero indócil dentro de nós.

Dentro de chips o silício encarna uma lógica precisa, mas, se funciona, é graças à manobras quânticas esotéricas, incríveis. Em nós, um milagre neurológico levou um vertebrado tão longe que mal se adivinha a que ele veio, ou de onde.

Digo isso porque quando tento julgar seres humanos e suas suas manias, idiossincrasias, seus vícios recorrentes, eu me perco e não chego a lugar nenhum.

Mas continuo fã da criatura, e vou sempre aplaudir qualquer conquista, mesmo que pequena. É sempre um milagre, afinal.

Posted by renedepaula at 11:06 AM

Uma só mão não bate palmas

Bom-senso não é matéria escassa, já dizia um xará meu, e é o máximo da divisão equalitária: todos acham que tem bom-senso bastante, e mais do que os outros, inclusive. Um milagre.

Nem tudo é assim, infelizmente. A Economia nos ensinou que tudo o que é raro vale muito, e quanto mais uma coisa se dissemina, menor o seu valor. Faz sentido, eu sei, mas agora vejo que há ventos de mudança soprando. Quem sabe eu até venha a gostar de Economia, pelo menos da Nova Economia.

Uma matéria da Wired deste mês chama a atenção para um novo fenômeno econômico. Eu, que há décadas pulo a seção de Economia do jornal em favor dos quadrinhos, parei para ler. Fiquei tão encantado que aqui estou, tentando passar a semente adiante.

É mais ou menos assim: uma revolução discreta balança as estruturas do pensamento econômico. O seu modelo não é mecânico, cumulativo, predatório, mas sim biológico, distributivo, simbiótico. Quanto mais um recurso se multiplica mais ele vale. Quanto mais disseminado estiver um padrão, mais ele se desenvolve. Tudo o que cria e amplia conexões, sinapses, associações, enriquece o sistema como um todo.

Pense num aparelho de fax: sozinho ele não vale nada. Se houver um outro fax seu valor aumenta. Com dezenas de milhões de aparelhos pelo mundo todo, sua utilidade cresce cada vez mais.

Com a Internet é assim, pelo menos a grosso modo. Uma nova tecnologia, um novo recurso não vale nada se não tiver potencial para aumentar sinapses, se ele mesmo não se difundir pelo cyberglobo.

Descobri por acaso um exemplo singelo desse impulso germinal, semeador, disseminador. É um site que ensina os fundamentos do JavaScript, e o fio condutor da lição é um poema zen. São muitas as citações zen ao longo das páginas, e uma delas originou o título deste texto. Bom, muito bom, e o que é honestíssimo e louvável, o autor reconhece que o que ele está ensinando não é simples, pois requer um aprendizado ativo. É rara essa franqueza.

(Um parêntese: estive por bons anos ligado à língua alemã. Fui aluno, cogitei ser professor, e por fim acabei me afastando desse universo. Uma coisa gravei: alemão não é fácil de se aprender, muito menos de se ensinar. Os cursos tradicionais, sérios, já não têm nenhum encanto no mundo marshmallow em que vivemos, e métodos moderninhos fazem malabarismos estranhos para tornar o aprendizado lúdico e digestivo.

Lembro-me bem: perdia-se um bom tempo tentando convencer o iniciante que alemão não dói. O esforço saía pela culatra, afinal todos sabem desde a infância que quando alguém diz "não vai doer, meu bem", ele tem uma broca de dentista na mão (na hipótese mais inocente) e vai doer sim, mas você vai ter que agüentar de qualquer jeito.

Em suma: aprender alemão requer paciência e dedicação, não dá para ser leviano. Mas é possível. JavaScript também. Fecha parêntese).


Nesse cursinho on-line, o autor pergunta: "-Qual o som de uma só mão batendo palmas?" Eureka. Touché. Voilà. Aí está a essência desse novo fenômeno tecno-social-econômico-filosófico: quanto mais mãos houver, mais alto será o aplauso. Mais alto do que o pampeiro que a mídia convencional faz sobre questões menores da internet, como multimídia, perversões ou terrorismo.

O buraco é mais embaixo, nas estruturas, nas fundações, nas raízes. Uma planta nova se espalha como grama, sem centro, sem caule, rizomática, e com frutos inéditos. Eu a rego diariamente, e espalho todas as sementes que me caem nas mãos. Acabo de passar mais uma.

Posted by renedepaula at 11:06 AM

Todo espelho é mágico

Espalhe um banho de prata sobre uma lâmina de vidro. Uma película se forma e, em contato com o ar, oxida sem demora, fica opaca. A outra face dessa fina camada tem outro destino. Contígua ao vidro e separada do mundo, a prata se furta ao tempo, e brilha para sempre. Sua sina agora é refletir fielmente. Eis um espelho.

Por ironia ou encanto, a imagem que o espelho devolve se recusa a envelhecer. O rosto que vejo é o mesmo de sempre, não acusa mudanças.

Aprisionada em celulóide ou papel, a prata não brilha mais, enegrece. Como que por vingança, fotografias denunciam cada ruga no rosto, cada traço do tempo. Denúncia inócua: o olho vê o que quer.

(Presenteei minha avó com um retrato dela que achei excepcionalmente feliz, superior a qualquer outro que eu já fizera. Ela odiou. Foto boa, mesmo, era a da sua cédula de identidade. Aquela sim era ela. A cédula tinha vinte anos.)

O olho tem o vício estranho de recorrer primeiro à memória, depois ao que olha. É mais prático, mais rápido, é confortante. Acompanhar o devir do mundo é trabalho sem trégua, é dispersão, e olhos nasceram para focar, para se concentrar num único ponto móvel.

Isso é vício, limitação, defeito? Não, é invenção. Acompanhar os fluxos e refluxos das coisas, suas paradas e reviravoltas parece impossível, vertiginoso. Mais seguro é se concentrar em um só ponto, e condenar o que sobra ao papel de cenário. Seguro mas arriscado, pois o o cenário e seus figurantes se transformam, crescem à revelia, em todas as direções, e quando menos se espera o mundo ataca pelas costas, foge aos nossos pés, nos escapa entre os dedos. Indiferente ao nosso engano o espelho nos sorri, e, como a lua, nos mostra a mesma face.

Contra o feitiço de um espelho só outro espelho, ou vários. Colocados em ângulo, multiplicam-se as vistas, e o olho atônito descobre que sua imagem tem verso e reverso. O cubismo é franco, desconcertante, e fiel.

(Seixos, de tanto rolar, perdem asperezas, ficam redondos. Humanos, quanto mais se expõem e se põem à prova, mais se aguçam, mais arestas criam, têm novas faces, outros vértices. Só arredondam se ficarem parados.)

Nunca senti minha atenção tão disputada. Pager, e-mails, telefones, compromissos, todos clamam por respostas, por ações. Dispersão quase esquizo, mas apaixonante, e irreversível. Como na Química, aumentam a cada dia as superfícies de contato, e as reações se intensificam..

Crie mil olhos, combine espelhos, e abrace tantos fluxos quanto puder. Ou arredonde.

Posted by renedepaula at 11:05 AM

Concreto transparente

Darwin exultou. Milênios de insularidade pariram em Galápagos criaturas bizarras, filhas do isolamento e da adaptação inventiva. Répteis gigantes, pássaros estranhos, uma festa para o naturalista.

Nosso país é, igualmente, habitat de fascinantes espécies endêmicas. Despachantes, por exemplo, só existem aqui. Cambistas e flanelinhas, abundantes e saudáveis, desconhecem ameaças naturais e proliferam à vontade. A selva que eliminamos com tanto afinco se insinua no cotidiano, e sanguessugas e parasitas voltam à vida sob mil disfarces: engravatadas, maltrapilhas, fardadas.

Terra que o tempo esqueceu, elo perdido entre o feudo e a urbe, nossa pátria é berço do carinho e ninho do descaramento. A hipertrofia da candura amancebada com o egoísmo mais natural. Terra de contrastes e contratos, de pactos e de patos, do deixa-comigo e do deixa-pra-lá. Do bandido paternal e do patrono criminoso.

O corpo da nação presta tributo a lombrigas seculares.

Ainda não se sabe o que pôs cabo aos dinossauros, mas antevejo o que pode nos livrar dos fósseis sociais que infestam esta terra.

Parasitas se instalam nas superfícies, nas membranas, lá onde as trocas ocorrem. Ali cobram seu dízimo, se nutrem, enfraquecendo o hospedeiro sem matá-lo.

Onde o cidadão se depara com o labirinto da lei, surge o mago da burocracia. Na fronteira que separa o consumidor do fabricante, floresce o contrabandista. Mediando fiéis e deuses pululam profetas.

Atravessadores. Se não existisse o fosso, eles o inventariam. Se o fosso existe, proclamam-se a única ponte. Estratégia infecunda, empobrecedora, que prospera sobre corpos fracos, e que tem seus dias contados. Hoje as pontes se multiplicam, caem muros, e a menor distância entre dois pontos é uma linha.

Telefônica.

Mouses acuam paquidermes.

No mundo imaterial do cyberspace só prospera o que é concreto. Nesse campo aberto e sem trincheiras vence a agilidade, a substância, a competência. Seleção natural numa selva de zeros e uns.

(Comprei recentemente um software importado de um representante nacional. Paguei mais caro pelo produto que eu poderia ter adquirido online, e o que é pior, o dito "representante" não se deu ao trabalho nem de traduzir o manual. Outra armadilha: quase compro online um ingresso para um espetáculo na cidade. A taxa pelo serviço era de mais de 25% do valor do bilhete. Se você for comprar online um ingresso para a Broadway a taxa mal chega a 10%. Provedores estrangeiros de hosting oferecem serviços excelentes por taxas muito menores que as nacionais. Aprendi a lição: tendo que optar entre duas tecnologias similares, driblei fronteiras e esquemas e adotei a que se impõe pela qualidade. E é gratuita.)

Esse novo mundo que estamos desbravando atrai piratas assim como o Brasil atraiu séculos atrás. A diferença, agora, é que pernas-de-pau e caravelas têm carreira curta, e logo naufragam. Não se vive mais de brisa frente a motores e chips.

Que venga el toro, e que sobrevivam os melhores. Pela evolução da espécie, e do país.

Posted by renedepaula at 11:04 AM

Como apostar a sua última ficha

(15/10/97)

Falar de cinema é falar de magia. Ao fim da sessão as luzes se acendem, e a platéia desperta preguiçosa do sonho coletivo para a vida de cada um. Aí reside grande parte da mágica dos filmes: eles acabam.

Talvez o que distinga comédias de tragédias, dramas de aventuras seja o ponto em que se colocam o "the end" e os créditos.

Ninguém nunca soube quem pagou as contas dos estragos que Indiana Jones causou, nem quantos anos ele pegou de cadeia pelos homicídios diversos, nem que vendetta macabra foi arquitetada pelos vilões sobreviventes. Ninguém saberá: o "the end" fecha as portas ao tempo, e congela a história.

Fora do celulóide histórias não têm fim. Tente você descartar personagens do seu roteiro e eles escreverão seus próprios roteiros, que um dia se entrelaçarão novamente ao seu script. Cerque-se de figurantes sem falas
e assista ao seu épico se transformar num disaster movie.

No cinema é mais fácil. Não só o diretor é soberano como conta com um recurso imbatível: o extra-quadro. Fora do quadro que a câmera mostra, um pouquinho mais à esquerda, ou ao alto, ou mesmo atrás dele, o que existe? Um nada, mas um nada providencial. Desse nada chega a sétima cavalaria, de lá vem a fortuna inexplicada do herói, para ali vão os bandidos depois de nocauteados. Aquilo que não se vê é fonte infinita de recursos e um imenso depósito de sucata.

A história do mundo não é diferente. Continentes usados como depósito, povos condenados à figuração, e sob flashes e refletores um reduzido elenco milionário. Ao longo dos tempos heróis de opereta deixaram um rastro de almas descartadas e terras estéreis.

Eis onde eu aposto minha última ficha: no jogo limpo, não-poluente, não-extrativo. Sei que ainda é possível jogar sujo, ganhar a curto prazo e explorar o próximo, mas o próximo está cada vez mais próximo, e pensar a curto prazo tem um custo inviável. Não há mais onde jogar o entulho, e os veios de ouro já têm dono.

Não teremos saída, em breve, a não ser a cooperação, o crescimento conjunto e a paz. Ou aprendemos a jogar limpo ou o lixo nos engole. É mera questão de tempo.

No nosso métier, onde distâncias e fronteiras não contam, esse espírito desprendido e visionário vêm ganhando corpo e conquistando apóstolos. Quem é ateu e viu milagres como eu sabe que, ali, deuses sem deus não cessam de brotar. Essa é a minha fé.

Posted by renedepaula at 11:03 AM

Tudo que é sólido desmancha em bytes

Quem garante que a sua profissão, hoje tão necessária, amanhã não será substituída por uma rede neural? Ou por um tamagochi melhorado? Nada é seguro nessa revolução permanente.

Algumas especializações, porém, continuarão sendo insubstituíveis e muito rentáveis por um bom tempo, como vêm sendo há milênios. Os nomes talvez mudem para tradutor/intérprete de borra de café, scanner de palma de mão, técnico de telecomunicações etéreas e analista sênior de baralhos exóticos. Mas a teoria e prática serão as mesmas, se é que há teoria.

(essas profissões têm peculiaridades sedutoras: não requerem diploma, não pagam impostos e, o que é mais fascinante, erros crassos não desmerecem o adivinho).

O métier divinatório-profético-vidente deve sua glória imorredoura à um fantasma também imorredouro: o insondável. O outro lado da lua, a noite, o além-morte, nossos velhos fantasmas, têm agora um companheiro de mistério, o gosto da massa humana.

Para perscrutar esse novo arcano surgiu um upgrade da bola de cristal, a telinha do IBOPE. Aqueles números irrequietos e inexpressivos decidem a sorte de milhões de dólares.

Tudo que é movido por forças desconhecidas desperta em nós comportamentos mágicos. Para manter o IBOPE auspicioso, editores de jornal banem assuntos, favorecem outros, diretores de novela matam personagens, esticam romances, da mesma maneira como se sacrificam galinhas para reaver a esposa fugida. Fazem como nós, que ameaçamos com tapas inúteis ou palavrões impressoras indóceis.

Mas apesar da empáfia dos especialistas, a massa continua imprevisível. Por que a Coca-cola ganhou o mundo? E o blue jeans, quem explica? O chiclete? A música neo-sertaneja?

O som quadrifônico, por outro lado, caiu do galho, deu dois suspiros e depois morreu. O vídeo Betamax, o amor livre, as bonecas Dorminhocas, o comunismo, o Jerry Lewis, todos eles caíram em desgraça sem aviso prévio. Mistérios impenetráveis.

Pelo sim, pelo não, os grandes pajés do gosto da massa vêm apostando na infantilização global: consumo de bugigangas, entretenimento descartável, e todas as variações do egoísmo e irresponsabilidade. Alguns acertos milionários aqui, fracassos fragorosos ali, e continuam investindo em gomas de mascar mascaradas.

Aqui e ali na história, salvadores e revolucionários dedicaram suas vidas a nos redimir, a iluminar a massa e direcioná-la rumo ao que eles juravam ser muuuuito melhor. O destino desses heróis todos conhecem: a massa os mastigou, cuspiu a carcaça e engoliu um ou outro bocadinho mais saboroso.

Ingratidão? Mediocridade? Menos do que isso. A massa humana é mais esperta do que imaginamos. Quando uma espécie inteira ou mesmo apenas uma cultura local está em jogo, é loucura apostar o destino de todos na proposta de um só. É mais seguro acompanhar de longe o que sucede a esse revolucionário, aprender com ele uma coisinha ou outra, e deixar que o moderninho se arrebente. Uma espécie sabe o que tem a perder, e mal imagina o que pode ganhar. Daí a cautela.

Essa prudência misturada à curiosidade gera o vaivém das modas, o fracasso de reformas, e um aparente comodismo generalizado.

O sucesso e a expansão da Internet me surpreendem, e me enchem de otimismo. Milhões de pessoas estão apostando nessa mídia precária e nessas máquinas instáveis, sem que ninguém os force a isso. O que eles vêem de bom na Internet? O contato humano, a conquista de uma certa soberania, a liberdade de expressão, a informação imediata? Não sei, e tenho um receio: de que tentemos mudar os rumos da Internet e que a massa se desencante.

Mas eu ando tão entusiasmado que acho que a humanidade cansou de ser criança, e não está mais para brincadeira.

Se essa profecia falhar, o azar é nosso.

Minha dica da semana é Playbill Online: ali você pode comprar ingressos para todas as peças da temporada nos EUA. Funciona.

Posted by renedepaula at 11:02 AM

A arte do caixeiro viajante

(29/10/97)

Você não navega na Internet. Ninguém navega. O que acontece conosco é uma experiência estranha. Podemos ali ser vários, ignorar distâncias; o mundo se condensa num só ponto para se abrir inteiro. Ao sabor de um clique, rios de informações são mobilizados, e serpenteando por satélites e cabos, desembocam diante dos nossos olhos.

Nossa viagem, porém, é imaginária. Quem viaja mesmo, e muito, é a informação.

Há quem viaje muito. Os rincões do nosso país são percorridos há séculos por caixeiros viajantes. Sírios, orientais, italianos, antes mesmo de aprender nossa língua, aprenderam os caminhos, os rios, os trens que levavam até vilas e casarios Brasil adentro. Conheceram povoados, foram recebidos nos lares, aos poucos intuíram o gosto de cada um, e aperfeiçoaram sua arte. Quem tem caminhos acidentados pela frente deve abrir mão do supérfluo e do pesado. Apenas aquilo que pode interessar ao cliente deve ser levado, e nada pode se estragar pelo caminho, nem retardar o passo.

Uma conduta muito cuidadosa é necessária quando se é forasteiro, quando se é visitante. O vendedor em um grande magazine está numa posição privilegiada: a loja é o seu território, ele tem todos os recursos a seu dispor, de seguranças a gerentes, e o cliente é o intruso. O caixeiro viajante, contudo, está só. Diante de si, cara a cara, estão novos fregueses, ao seu redor uma casa estranha numa cidade distante. Ele, que conta apenas com o que carrega consigo e com o que aprendeu, deve ter a etiqueta e o respeito de um embaixador, ou será expulso para nunca mais voltar.

Criar para a Internet tem muito em comum com a aventura desses comerciantes, pois o mundo virtual funciona da mesma maneira: cada internauta habita uma aldeia que ele mesmo criou, selecionando a dedo quem e o que faz parte dela. Para que nosso trabalho possa entrar nesse mundo e conquistar um lugar, devemos criar sites consistentes e leves, flexíveis e estruturados, sedutores e objetivos. Esse equilíbrio do inconciliável pode ser nosso passaporte para o universo de cada um.

Essa soberania de cada internauta é um fenômeno inédito, e desmonta em nós toda pretensão missionária ou de catequese. Não somos desbravadores diante de aborígenes nus. Não somos estilistas de vanguarda: somos alfaiates, cozinheiros, e ai de nós se desrespeitarmos o gosto do cliente.

Não fomos nós que fizemos a Internet gigante, foram os milhões de usuários que apostaram nela, pessoas comuns que hoje deixam suas TVs de lado, desligam o rádio para ligar uma máquina indócil, instável, mas que lhes restitui magicamente a dignidade, soberania, e autonomia que o cotidiano lhes roubou.

É tudo inédito e fascinante. Ninguém poderia prever essa reviravolta, e é muito cedo para falar do futuro, mas o presente é fecundo demais para que não dê frutos, e o contágio é mais rápido do que qualquer reação. Talvez a história humana tenha finalmente chegado à Primavera. Ou estou embriagado de otimismo. É possível, mas não sou o único. Somos milhões. E você está convidado a por o pé nessa estrada.

Posted by renedepaula at 11:01 AM

Prova de fogo

Conselho de amigo: responda todo e-mail prontamente. Toda mensagem deixada de lado fica malcriada, se esconde, e o que é pior, reaparece só quando é tarde demais e o assunto, antes inocente, se tornou litígio
grave. Acumular e-mails não-lidos, então, é uma temeridade: eles se organizam e apelam pra guerrilha, anarquizando completamente o seu Inbox. Repito o aviso: tergiversar, jamais.

Responder pela metade também tem seu preço. Do outro lado do Atlântico há uma alemã esperando a metade final de uma resposta minha, e mal sabe ela do meu dilema. A moça nem tem culpa, coitada. A pergunta foi inocente, mas minha hesitação tem suas razões. Não sei ser leviano com aquilo que amo.

O que a mocinha pediu é coisa pro Caetano, não pra mim. Ela queria que eu contasse como é São Paulo. Vá você explicar o avesso do avesso do avesso pra quem vem de outro sonho feliz de cidade. Quem sou eu...

Enquanto enrolo a moçoila, circulo pela cidade. Cidade? Cabe, a palavra?

Perguntas de estrangeiros desconcertam. Com crianças é mais fácil, elas pelo menos estão dispostas a absorver a barafunda de duplas morais, de paradoxos e compromissos que chamamos de cultura brasileira. Gringos
não. Com os caras é "bread-bread, cheese-cheese".

Tenho que contar para a alemãzinha que, abstraindo a miséria, relevando os homicídios, ignorando o "casual ugly" de todos os bairros, essa cidade é do balacobaco. Fácil, não?

Sempre atribuí essa incomunicabilidade à falta de ginga das outras culturas, incapazes de acompanhar os meneios e remelexos da nossa mente barroca. Hoje vejo que nosso "Samba do Crioulo Doido" tem um preço alto demais.

Pensemos nessa meta-cidade que estamos todos construindo juntos, a Internet. Você quer cultura, contato, sacanagem, informação, comércio, anonimato? Tudo o que uma metrópole oferece você encontra na Internet, e numa escala muito maior. É a Babel possível, sem fumaça nem buzinas.

Se queremos escapar à maldição da Babel, contudo, devemos aprender muito com os "cyber-arquitetos" gringos. Nada contra a arquitetura vernacular. Trata-se de perdermos vícios. Somos especialistas em soluções de compromisso, "jeitinhos" inconfessáveis, pactos obscuros, em relevar
absurdos. Nossas cidades estão aí pra provar.

Pelo bem de todos, tenho algumas dicas aos que pretendem construir na web:

- não escolha o arquiteto pela roupa, nem pelo papo, e sim pelas obras.
- visitando pessoalmente alguma obra pronta, não se deixe impressionar por traquitanas e modernidades. (Se você não assistiu "Mon oncle" do Jacques Tati, faça-o já). E leve um leigo com você. Se ele não conseguir ir além do hall, isso é bem ruim.
- lembre-se de Brasília. No papel o projeto devia impressionar, em cartões postais é linda, mas vá viver lá dentro.
- veja bem se a manutenção é simples ou se você vai precisar do homem aranha com um vaporetto para limpar a fachada.
- leve em conta futuras expansões e reformas. Se a cada vez que você pintar a parede você precisar de um muralista italiano, esqueça.
- não adianta gastar fortunas com o projeto e economizar com o "terreno". Já vi belos sites sacrificados pela escolha descuidada do provedor de hosting. Adote provedores de primeira linha, com suporte 24 horas. Opte por aquele provedor caseiro do amigo do seu cunhado e morra na praia, outra especialidade nacional.

Como prova de fogo, peça a opinião de um gringo. E não avacalhe: prova de fogo não q

Posted by renedepaula at 11:00 AM

Sem explicação

De bons projetos o inferno está cheio. Projetos de vida, então, nem se fala, nem precisa ir ao inferno pra encontrar náufragos, gente à deriva e destinos encalhados

Com esse desemprego todo, qualquer ripinha é tábua de salvação. É ator virando chofer de praça, engenheiro fazendo pizza, um show de jogo de cintura e jeitinhos.

O improviso é uma arte nossa, mas tem frutos estranhos. Nada contra, por exemplo, em contratar uma psicóloga desempregada como secretária, mas juro que eu ia perder a naturalidade completamente. Vai saber que conclusões ela estaria tirando das minhas menores manias... E que tal ir a uma livraria e ser atendido por um bacharel em letras com doutorado na França? Você pede um Paulo Coelho e o cara tem uma crise de choro convulsivo. Ou pior: alça uma sobrancelha, te lança um olhar gelado e fica dois segundos assim, antes de indicar a estante com um gesto mudo.

Um roteirista como segurança de shopping seria uma ameaça pública. Ele viu todos os filmes do Hitchcock, se especializou em filmes noir e vai achar que aquela sua mijadinha um pouco mais prolongada faz parte de um complô do submundo.

Comunicólogos são um caso sério. Uma boa escola de comunicação te dá todo o instrumental teórico para ser um chato de galocha, e caso o vendedor de geladeiras tente mostrar que você está levando pra casa uma versão concreta da cornucópia mítica, um artefato que introduz o slow-motion nos produtos perecíveis e cuja porta é a cortina que, quando aberta, revela fantasias de prazer oral num palco iluminado, pronto, você achou um comunicólogo desempregado.

Se a internet vai unir a humanidade ninguém sabe, mas que reuniu uma salada de profissionais, reuniu. Eu venho de TV, a Urbana é de arquitetos, muitos são publicitários, artistas plásticos, engenheiros, jornalistas. O nosso métier é uma Arca de Noé.

Essa "biodiversidade" fica clara se você receber diferentes propostas para um mesmo projeto. Ao invés de se explicarem por a mais b, empresas mais técnicas vão apelar para o algoritmo do cologaritmo do rotacional de a em b, enquanto produtoras mais "estéticas" acharão que o a pode até ser serifado, mas o b tem que necessariamente romper com o mito da legibilidade. Pronto, bem-vindo à Babel.

Independentemente do perfil e da formação de cada profissional, um princípio é fundamental: o usuário final tem sempre razão. Se o consumidor de um produto não consegue abrir o pacote, a culpa não é dele, é de quem fez o saquinho. Em outros termos, interfaces podem ser revolucionárias, mas devem ser cem por cento inteligíveis. Poucos visitantes do seu site terão PhD em Comunicação Não-Linear, e ninguém gosta de ser chamado de burro por um site intrincado.

Antes de se colocar qualquer coisa no ar, teste-a antes. A seleção dos pilotos de prova deve ser cuidadosa: dispense internautas experientes, evite todos os que tenham participado do projeto e escolha pessoas que representem mais ou menos o seu público-alvo. Meia dúzia deve bastar. Coloque-os diante do produto e observe suas reações, suas hesitações, seus comentários. Antes, porém, prepare seu ego para o que der e vier. Não é fácil admitir que aquele metáfora genial do seu ícone animado para "Fale conosco" pareça na verdade uma mosca passeando na tela.

Este preceito é simples e claro (e trabalhosíssimo), mas é a pedra de toque de qualquer peça de comunicação interativa. Você duvida? Coloque um sociólogo pra ser presidente e pergunte se alguém entende o que ele fala. Eu, não.

Posted by renedepaula at 10:59 AM

Receitas básicas

Eu não podia dizer não. Há convites que, rejeitados, inscrevem você para sempre nas categorias mais odiosas da humanidade. Fui à feira, portanto.

Nada contra feiras, muito pelo contrário. Elas trazem aquilo que a Internet tenta, aos trancos e barrancos, oferecer: produtos frescos, contato humano, transações diretas. O problema era sim uma esplêndida dor de cabeça, resultado inevitável de mais uma overdose de trabalho. Fui, contudo.

Não me arrependo. Minha enxaqueca não melhorou em nada (tantas cores e cheiros e sons) mas minha visão das coisas sofreu um abalo profundo.

Tudo começou com um linguado.

Você já viu um? Não frito, nem cru, mas o cadáver mesmo? Pois bem, sorte a sua. Poucas teologias e crenças resistem à afronta do linguado. Desconfio que ele sozinho explica metade de Picasso.

Pois bem, eu nunca tinha visto nenhum, e observando uns peixes achatados sobre o balcão do peixeiro, percebi que eles não tinham olhos. Coisa estranhíssima: tinham boca e tudo, mas olho não. O peixeiro com muita naturalidade desvendou o enigma, virando a criatura. No lado B do defunto ficavam os dois olhos, meio encavalados, encarando você com ares de Guernica.

Em suma, lado A boca torta, lado B olhos cubistas. Como se ele tivesse sido flagrado no meio do caminho entre um peixe e uma arraia. Veja por si mesmo. É perturbador.

Pela fartura de exemplares sobre o balcão, contudo, se deduzia que a espécie ia muito bem, obrigado, proliferando e cevando à revelia da simetria bilateral. Sem medo de ser feliz.

Antes desse choque eu tinha uma idéia clara do que escrever neste artigo, mas tudo mudou. Vejo agora que o que chamamos hoje de web é algo mal definido, aparentada com tudo e parecida com nada, e que a despeito disso se expande, e muito. Sejamos honestos e admitamos: ninguém explica a web.

Já que não entendo o linguado e a web ainda me espanta, o jeito é dar algumas receitas. Não de linguado, por favor, não sei cozinhar, mas receitas simples e saudáveis de uso da web. Nada de iguarias exóticas envolvendo tubarões, baleias, e peixes-palhaço, apenas maneiras sensatas de usar a Internet a seu favor.

Posted by renedepaula at 10:59 AM

Nu com a mão no mouse

Despir-se não é coisa simples, nem para exibicionistas.

Vi uma reportagem interessante outro dia sobre coelhinhas da Playboy. Modelos experientes confessavam que ser gravada nua em vídeo era, no início, altamente constrangedor, enquanto posar para fotos era moleza. Pensei: pelada por pelada, que diferença faz?

Tem diferença sim: numa sessão de fotos elas preparam a pose, expõe os melhores ângulos (ou curvas?), e têm noção do que está sendo enquadrado. Já no vídeo não basta ser gostosona, tem que ser jeitosa (o que nenhum silicone resolve), e o que é pior, enquanto fazem seu número, nunca sabem o que o cameraman está explorando. E se ele fecha o zoom naquela dobrinha secreta? Ou naquela marca de vacina? E acabam perdendo o rebolado.

Vou confessar que já me senti assim algumas vezes, e não gostei. O que estava em cena não era minha nudez (que parece ter valor comercial irrisório) mas outras intimidades. Estou me referindo a testes psicotécnicos, daqueles em que um sujeito observa atentamente você desenhando casinhas e árvores, mexendo quadradinhos coloridos e outras puerilidades, e vai anotando tudo. Não sei se isso te incomoda, mas eu me senti estranhíssimo. Que taras e manias secretíssimas ele diagnosticou só porque eu hesitei entre um triângulo rosa e um círculo vermelho? Até que ponto meu destino profissional estaria dependendo de eu colocar peitos maiores ou menores num desenho tosco? Eu, hein... Não gostei. Dançar pelado deve ser mais fácil, ainda mais se bem pago.

Ainda vou preparar um teste indicador de perversões e taras baseado naquilo que é quase um inconsciente coletivo: televisão. Primeira questão: quem te atrai mais, a Jeannie-é-um-gênio ou a Feiticeira? Segunda: você já teve sonhos estranhos com Dr. Smith, com Fitzhagen ou com Spok? Quem você queria como seu amiguinho: Robin, Zorro ou o James West?

(Aliás, o que leva alguém saudável (todo herói parece ser) a vestir roupinhas colantes e coloridas e se envolver com bandidos? Quem é o figurinista perturbado que desenha as máscaras, capas e outros adereços incompatíveis com a performance atlética? Mistério mesmo é que um par de óculos disfarce o superhomem. Eu posso me vestir de Banana de Pijama que todos me reconhecem de longe.)

Heróis mascarados são fascinantes mesmo: na vida cotidiana são taxados de bananas e nem se incomodam, porque sabem que, no fundo, são do balacobaco. Na vida mascarada eles são absolutos, não devem satisfação a ninguém, e podem castigar desafetos sem medo de derrota nem de retaliação. Qual o garoto que não inveja isso?

Se o seu consumidor era até hoje arredio, diluído na massa, uma ficção estatística, agora ele não é mais invisível, está a nus, exposto. Estou falando da Internet, claro, onde as máscaras são tantas e a privacidade tamanha que o usuário não se preocupa com a própria imagem, e age com total naturalidade. Nu com a mão no mouse.

Um site bem planejado é capaz de acompanhar cada passo do visitante, e registrar cada decisão, cada preferência, e ir criando um precioso banco de dados de custo irrisório. Se os seus usuários forem fãs do Pinguim isso vai ficar patente, mesmo que eles jurem adorar a Mulher-Gato.

O que leva um internauta a se expor tanto? Não é só a “máscara”, a certeza de privacidade e segurança. Se a Internet só oferecesse isso não passaria de um espetáculo estranho, como um daqueles bailes de carnaval que passam de madrugada na tv.

O segredo são os superpoderes. Dê ao usuário do seu site poderes concretos, capacidades que ele não tem no seu cotidiano, poderes como o de efetuar transações, encontrar informações, se comunicar diretamente. Isso vale mais que capas voadoras, visão de raio X e telepatia.

Você já comprou livros na Amazon Books (http://www.amazon.com)? Lá você acha o que quiser, escolhe, encomenda, encontra sugestões, e toda decisão sua fica armazenada. Na próxima vez que você visitá-los, ele já arrisca sugerir livros com base no seu comportamento online. É de tirar o chapéu. E o cartão de crédito.

Dê poderes ao seu usuário e você o conhecerá como nunca, sem que ele se sinta invadido.

Se ele insistir em vestir a cueca por cima do collant, isso é problema dele.

Posted by renedepaula at 10:58 AM

Peixes e a Era de Aquários

Quem quiser me encontrar aos sábados pela manhã, que me procure na feira. Vai ser fácil me achar, as barracas são poucas, a rua é curta e não tem tanta gente assim. Só peço que não perguntem de mim aos feirantes: não tenho idéia do que eles pensam de mim, e prefiro nem pensar nisso. Eles continuam me tratando normalmente, tão bem quanto à minha esposa, versadíssima na ciência milenar dos hortifrutis, mas que eles devem desconfiar, isso devem.

Esse meu interesse profundo pelas formas de repolhos, pelo design de peixes e pelas convoluções de vísceras bovinas deve parecer algum tipo de fiscalização à paisana. Se eles lessem ABOUT, contudo, iam se sentir verdadeiras musas de artigos aleatórios.

A barraca dos peixes é para mim fonte de inspiração perpétua, mesmo que inspirar naquela área não seja muito recomendável. Os poucos peixes que conhecia até então viviam em aquários. Um deles, o último que tive, marcou minha memória ao saltar do seu mundinho esférico e amanhecer morto na máquina de escrever de meu pai, sem deixar um bilhete sequer. Entendi enfim Manuel Bandeira e “a paixão dos suicidas que se matam sem explicação”.

Outra lembrança literária dessa incomunicabilidade vem de um diário de Érico Veríssimo, onde ele descreve os camponeses mexicanos como tão inacessíveis e distantes como peixes num aquário.

Pode ser algum tipo exótico de claustrofobia, mas é assim que as mídias tradicionais me fazem sentir: como um peixe no aquário. Vejo através do vidro um mundo separado de mim, e que me alimenta gratuitamente com uma ração diária de emoções e informação. Para piorar, ainda nos confundem com piranhas, servindo doses cada vez maiores de carne tenra e sangue.

Essa sensação de passividade e isolamento desaparece na Internet. Ali caço meu próprio alimento, ali encontro companheiros de espécie, ali tudo é móvel, variado e fecundo.

Ok, já se foi o tempo que nós precisávamos de metáforas para descrever a Internet, nós não precisamos mais disso. Nós não, mas eu sim. São tantas e tão complexas as questões que vem envolvendo esse fenômeno que eu precisei parar por um instante e repensar minha posição a respeito. Essa mídia requer lucidez e coerência, e isso se perde com facilidade.

Duas idéias básicas: a Internet não é minha nem sua, muito menos dos profissionais de comunicação. Sejamos sinceros e admitamos: ela surgiu e cresceu à nossa completa revelia, e o máximo que alguns de nós conseguiram foi pegar o bonde andando e sentar na janelinha. O que isso implica? Implica humildade e cuidado dobrado, pois estamos lidando com um universo muito particular, onde muito do que sabemos não tem mais valor.

Segunda idéia central: embora estejamos conseguindo tornar a Web cada dia mais rica em recursos multimídia, usando Flash, Shockwave, Java e Real, isso não garante a conquista dos corações e mentes online. Se tudo essa pirotecnia realmente fosse fundamental, as pessoas não estariam deixando suas TVs estereo de 29” para sentar frente a um PC. O grande tesão da internet é conectar-se ad libidum (libidinosamente, inclusive), como, quando e com o que você quiser.

A internet é relação, não só desejo.

Fazer sites que gerem relações férteis não envolve necessariamente a última tecnologia. Com um bom banco de dados e um pouco de CGI você pode ter um site útil, funcional, dinâmico, multi-plataforma e de expansão e manutenção simples.

Sites que funcionam propiciam relações fecundas, que geram frutos para todos os envolvidos. O usuário se realiza, o “dono” do site colhe resultados, e o site cresce e se ramifica. Por mais tecnológica que pareça a internet, sua essência é orgânica. Tivemos que digitalizar e cabear o mundo para criar um universo vivo, onde seres humanos não são números nem massa, são agentes e criadores.

Não acredito em quem dita regras, mas gosto de semear o que penso. Tenho sete propostas para sua próxima ação na internet: leveza, funcionalidade, coerência, expansibilidade, compatibilidade, gerar relações, coleta de dados.

Tenho uma outra proposta, mas deixa pra lá. Nem todos gostam do barulho e do cheiro de feira.

Posted by renedepaula at 10:57 AM

Prometeu não nega fogo

Uma charge do Millôr mostrava, semanas atrás, duas moçoilas de biquini na rua - cidade maravilhosa, o Rio - sendo surpreendidas por três exibicionistas septuagenários, que abriam os casacões ostentando suas libidos em riste. Uma delas exclama: “Com esse Viagra os velhinhos andam impossíveis!”

Pois é, com o Cyberlion que a DM9/DDB e a Urbana trouxeram de Cannes, somos nós, os webcreatives tupiniquins, que vamos desfilar nosso tesão, potência e sex-appeal. Agora a coisa vai.

Ou aproveitando a onda Viagra, agora ou dá ou desce.

A abertura do site, um nu masculino “powered by” duas pilhas alcalinas, funcionou duas vezes (Viagra!): essa conquista do webdesign nacional deu uma injeção de ânimo em todos nós, até então “powered by” um entusiasmo inexplicável.

E mais: temos agora uma agência e uma produtora com destaque mundial, e assim como nas pilhas, uma diferença de potencial, mesmo que modesta, gera tensão e move máquinas. Estou falando aqui de rivalidade, competição, emulação, ou seja qual for a palavra para descrever o verdadeiro Viagra do métier publicitário.

Fico duplamente feliz com essa vitória porque ela consagra várias qualidades fundamentais desse website:

- é um site de marketing de produto
- está vinculado a uma estratégia de marketing
-do ponto de vista estético é uma porrada nos cornos (na era A.V., Antes do Viagra, diríamos impactante)
- do ponto de vista da comunicação é pá-pum (A.V.: eficiente)
- é tecnologicamente enxuto
- é rápido
- é funcional
- é temporário
- é trend-setting, admitamos

Em resumo, eu tiraria o meu chapéu, se usasse um. (Uma digressãozinha biográfica: meu avô, desiludido com seu tino comercial, dizia que o dia em que ele fabricasse chapéus, todo mundo nasceria sem cabeça. O Lollo lembrou outra tirada análoga: o dia em que comprasse um circo o anão crescia. Mas como essa envolve pessoas verticalmente desfavorecidas, fico com a piadinha do meu avô, tem um toque Magritte).

(Outra digressão familiar: injustiça meu avô ter morrido A.V. Se ele soubesse da iminência do milagre acho que tentaria estender seu deadline).

Ora, pílulas. Há trinta e tantos anos o anticoncepcional, uma pilulinha baratinha, virou o mundo literalmente de pernas pro ar. Curioso, não? Uma pílula anti-fecundação tão prenhe de consequências maravilhosas.

Naqueles idos anos eu pensava em como ia ser o ano 2000. (Que remédio? Eu era muito novo pra entrar na suruba geral, tinha mais é que pensar bobagens). Ficava imaginando como seria a grande festa mundial, e fogos e coisa e tal. O que não me passava pela cabeça é que Prometeu ia nos conceder a versão 2.0 do fogo celestial, o segredo da chama eterna, e que no revéillon do milênio, nossos fogos não darão chabu.

Outra digressão, essa de caráter mercadológico e fashion: na era D.V. (depois do Viagra), as gravatas serão extintas ou aumentarão ainda mais? Não duvido que alguém - parodiando a Intel - crie gravatas com um selo “Viagra Inside”. A dúvida é séria: o que será dos símbolos fálicos, agora que o dito cujo fala por si só? Venderemos mais pick-ups incrementadas? Mais charutos? Menos chinelos? Só o tempo dirá.

Última digressão: alguns sites nacionais tiveram sua competitividade prejudicada por problemas nos servidores de hosting. Eu sempre digo: na hora do vamos-ver, performance é tudo. Provedores de hosting podem ter um papo sedutor, mas na hora h, nada substitui the real thing, o desempenho.

Basta de digressões. O que interessa, na verdade, é que o leão foi merecido, e que essa conquista deve abrir novos horizontes para as mídias interativas no Brasil. Parabéns DM9/DDB, parabéns Urbana.

(Aliás, mais uma digressão: parece que o leão é o único mamífero sexualmente mais ativo do que o homem. O cabeludo é um atleta incansável. Deve ser por isso que as leoas nem juba tem, mais. Mas os leões que se cuidem. Um dia sai o Viagra 2.0, com um milagroso tônico capilar.)

Posted by renedepaula at 10:56 AM

Redes, peixes e receitas

A cronologia da História é injusta. Algum lobby de metalúrgicos ou engenheiros acabou por dividir a aurora da nossa espécie em Idade do Ferro, do Bronze e nem sei que outros metais. Imagino que os arqueólogos tivessem poucos argumentos palpáveis a contrapor, ainda mais que depois de tanto tempo nada continua palpável, só ferro e bronze, mesmo.

Não tarda o dia, porém, em que se descobrirá a língua original da poeira, e o pó arqueológico contará, altissonante, a saga heróica das dores de barriga primordiais. Virão à luz, finalmente, milênios de cólicas, piriris e envenenamentos. A transição da Idade da Fruta à Idade do Assado será questão de vestibulares Brasil afora.

Homens de fígados corajosos e bravos intestinos, nossos ancestrais.

Hoje, qualquer dona-de-casa do mundo traz dentro de si a herança mais preciosa da Humanidade: a culinária. A mandioca, por exemplo, é um verdadeiro monumento a mártires desconhecidos. Quantas intoxicações foram necessárias para que chegássemos ao aipim frito?

(Não responda "the answer, my friend, is blowing in the wind". A piada é vulgar. Aliás, mistério é alguém ter desencavado esse tubérculo medonho e ainda imaginar usos alimentícios para ele. Beira a perversão.)

O que engrandece ainda mais a arte gastronômica é não ter nenhum respaldo do instinto. Entre um belo caldo verde e um sundae de chocolate, a criança passa ao largo da saúde e cai de boca na delícia. Reverter essa tendência ao besteirol alimentar é missão e cruz de mães, babás e spas caríssimos.

O longo e penoso percurso entre o macaco e o cidadão francês, descobridor de virtudes alimentícias em quase todo o reino animal, vegetal e mineral, foi revertido em uma geração apenas, e eis-nos lambuzados de ketchup e coca-cola. Curioso.

Tão difícil quanto distinguir cogumelos venenosos dos comestíveis é reconhecer o que realmente presta na Internet, e esse drama se estende da escolha de softwares à de fornecedores, produtoras e mesmo das soluções ditas "interativas". Mesmo que o serviço em questão seja idêntico (criar um website, por exemplo), as propostas que se ouvem variam do óleo de rícino ao chapéu da Carmen Miranda.

Como avaliar "homens que falam javanês" se não falamos javanês? Que paradigmas usar para julgar novos paradigmas? A que revolucionário você deve confiar o seu futuro?

Se pelo menos tanta abobrinha fosse a preço de banana, o problema não seria sério. Os custos aumentaram, e o custo do prejuízo mais ainda.

(Há cem anos Nietzsche propôs o martelo como instrumento de avaliação. Você martela: se quebrar é porque era ruim. Esse método é interessante, a menos que você vá testar a vitrine da sua loja em pleno horário comercial. )

Eu sugiro que você encare novos fornecedores ou soluções como candidatos a cozinheiro da sua casa. Essa singela acrobacia mental gera as seguintes questões:

Fator 171
você tem certeza de que ele sabe preparar sozinho tudo o que ele promete? E os pratos vão ficar iguais às fotos que ele mostrou?

Compatibilidade soft
nada mais chique que um cozinheiro tailandês, mas ele vai se entender com o resto dos funcionários?

Compatibilidade hard
você vai ter que jogar fora todas as suas panelas e facas para comprar um kit francês caríssimo?

Interface
você vai ter que aprender catalão ou ele está disposto a aprender português?

Versatilidade
o mestre-cuca vienense vai fazer tutu-de-feijão sem ter chiliques?

Custo operacional
e se ele só souber trabalhar com ingredientes importados caríssimos?

Pensando a longo prazo
você não vai enjoar de banquetes exóticos depois de uma semana?

Bandwidth
o que suas veias e artérias vão achar dessa dieta carregada?

Referências
você tem certeza que os antigos patrões não estão internados com intoxicações graves? E se eles têm reações alérgicas violentas à mera menção do nome do seu chef de cuisine?

Relações exteriores
seus convidados usuais não vão achar tudo isso exibicionismo da sua parte?

Essas modestas considerações dietéticas podem evitar muita dor-de-cabeça, indigestões e extrações cirúrgicas - afinal, em casos extremos, cabeças podem rolar. E se alguém lhe oferecer uma deglutição de batráquios (ou batrachian swallowing), cuidado. Você está prestes a engolir um sapo.

Posted by renedepaula at 10:55 AM

Antes que seja tarde

Não quero ser alarmista, juro, nem azedar o seu dia, mas estamos em julho de 1998.

(Pensei até em usar uma daquelas fontes de gibi de terror ou de capa de disco de rock para essa frase aterradora, mas lembrei-me a tempo de uma anedota: um homem era fascinado por Guimarães Rosa. Leu absolutamente tudo, estudou, debateu, mas uma dúvida o perseguia. Atormentado, procurou o escritor. Guimarães Rosa o recebeu, e ouviu do admirador uma só pergunta: "Sr. Rosa, em toda a sua obra nunca encontrei pontos de exclamação nem reticências. Isso tem razão?" O Mestre teria respondido algo assim: "Homem que é homem não se espanta à toa nem deixa nada em suspenso". Pois bem, que o fato grite e pese por si só. Estamos em julho de 98.)

Não quero relembrar promessas de révéillon ou as conjecturas otimistas de todos nós. Isso dá samba mas não rende artigo. Prefiro me concentrar na mídia interativa. (Aliás, nada rende mais mídia espontânea do que a mídia interativa. Tenho a impressão que falar sobre internet movimenta mais dinheiro do que a internet em si).

OK, esse ano é histórico para o webvertising nacional, e está aí o cyberlion da DM9 DDB para nos inspirar a todos. Essa conquista parecia ser o pontapé inicial e glorioso para o webvertising brasileiro, e torço para que realmente seja.

Se pareço um pouco cético agora é por ter ouvido boatos de que esse seria o primeiro e último ano dos Cyberlions, e que o Festival de Cannes se concentraria apenas em filmes publicitários. Como o boato nasceu e se ele procede não me interessa tanto, o que me incomoda e muito é que ele vinha acompanhado de um certo tom de alívio.

Sete meses desse ano se passaram, e o que falta ainda para a mídia interativa conquistar corações e mentes? Ou ainda: o que provoca tanta rejeição?

Mistério. O que sei é que a defesa dos refratários é sempre a mesma: isso rende quanto?

(Esse rigor contabilista parece lei brasileira, só vale para inimigos. Preste atenção e veja quantas decisões na sua empresa são julgadas assim. Poucas, convenhamos, e não necessariamente as melhores. Se nos limitássemos a esse raciocínio simplista, venderíamos todos os computadores e voltaríamos a fazer lay-outs a lápis. Que tal lhe parece a idéia?)

A rentabilidade imediata da web é nosso calcanhar-de-aquiles, e é aparentemente paradoxal que grandes empreendimentos online ainda tenham situação financeira frágil. A Amazon Books cresce, cresce, mas não gera a fortuna que imaginamos. Mesmo as webagencies têm que conviver com números muito mais modestos que o de uma agência tradicional.

Paradoxos à parte, cresce cada vez mais o vulto e o alcance dos empreendimentos ditos virtuais (se é que milhões de dólares, megacomputadores, satélites e milhares de quilômetros de fibras óticas podem ser considerados virtuais).

Há um movimento irreversível em andamento, e não há como fechar os olhos para isso. A chave desse movimento é a conexão, a interatividade, o compartilhamento. Seu computador já funciona assim, as máquinas do seu escritório estão interligadas mesmo que precariamente, o seu banco hoje é mais ágil por causa disso.

Encarar a mídia interativa como apenas uma oportunidade marginal de negócio é não perceber que a interatividade já invadiu o nosso cotidiano e o mudou irreversivelmente.

Criar iniciativas isoladas na Internet e cobrar delas retorno instantâneo é condená-las ao fracasso. Incorpore a interatividade ao seu negócio como um todo e você estará no caminho correto.

Insisto: estamos em julho de 1998. Entramos num caminho sem volta. Sobretudo para os que ficarem para trás.

Posted by renedepaula at 10:54 AM

Entre cruzes e espadas

Ouvi há tempos uma historinha boa. O homem branco leva para uma tribo indígena uma polaroid. Convence um índio desconfiado a posar, enquadra o close e clica. A foto enfim se revela e ele a mostra, triunfante, ao seu modelo pelado. Para seu choque, o índio nem se comove. "Esse aí não sou eu. Eu tenho pernas". Um a zero para o time sem camisa.

Fui adquirindo um certo orgulho da nossa tupiniquice antropofágica de tanto conviver com estrangeiros e suas idiossincrasias . Descartes não foi tão original assim, afinal vivia num mundo quase cartesiano. Queria vê-lo no meio do carnaval de Olinda. Aliás, qual não deve ter sido o choque dos ibéricos que baixaram nestas terras quinhentos anos atrás. Com uma coragem beirando a insensatez, eles embarcaram em navios precários sonhando com terras de ouro e índias peladas. A pertinácia ibérica colonizou na marra o novo mundo, mas amancebou-se. E eis-nos aqui, ocidentais pero no mucho.

Bons tempos aqueles, em que se descobriam novos mundos. A China, hors-concours tradicional no quesito originalidade, agora é freguesa. Na falta de novidades, cientistas apontam antenas para o confim do universo e ficam ali, à espera de um sinal de vida.

Tenho receio de que um dia se descubra um universo paralelo, povoado por uma civilização intocada e próspera. Esse povo talvez nem chegasse a nos conhecer, porque provavelmente nos mataríamos antes disso, numa guerra maluca para decidir quem iria no primeiro comboio. Se coubesse a você compor essa comissão de frente, quem você incluiria? Antropólogos alemães? O Papa? A American Chamber of Commerce? A loira do tchan? Difícil decidir.

A Internet está passando por algo bem parecido. Ninguém sabe muito bem como, surgiu esse universo paralelo e populoso. Eis um Novo Mundo, uma "Terra Incognita"! Quando vejo a profusão de palestras, eventos e livros sobre como ganhar dinheiro com a Internet, penso nos antigos ibéricos desembarcando nas praias com a cruz em uma mão e a espada na outra.

Cada novo navio traz missionários, exilados, visionários, mercadores, e os inevitáveis piratas. Não quero insinuar que os colonizadores vão acabar na panela, nem que os índios vão virar pinguços sifilíticos, mas para que todos saiam ganhando, há alguns cuidados a se tomar.

Os usuários da Web herdaram dos índios uma saudável repulsa à servidão, bem como um elevado senso de dignidade e liberdade. A aparente desorganização da Web esconde laços sociais e humanos complexos, numa teia de vínculos entre tribos e clãs. Quem ignorar isso e forçá-los a outra vida corre o risco de morrer na praia.

Metáforas à parte, a tecnologia interativa tem possibilidades infinitas, mas nem todas com a mesma chance de sucesso. Pessoas se conectaram a essa rede high-tech porque ali se sentem mais humanas.

Você que está pensando em criar um website, pense bem em como melhorar a vida do seu usuário, e depois em como torná-lo seu freguês. Analise bem se o usuário vai se sentir à vontade no seu site, e faça muitos test-drives preliminares. Veja como associar o seu site a um site complementar, numa simbiose em que até o usuário ganhe. Pense em relações longas, em parcerias múltiplas. Não pense apenas na embalagem, pense no conteúdo.

Desta vez, quem precisa de catequese é quem vem para o Novo Mundo. Que é admirável, aliás.

Posted by renedepaula at 10:53 AM

Negócios da China

Seja qual for o seu negócio, uma coisa você tem em comum com Bill Gates: uma vez por semana (no mínimo) alguém aparece com uma proposta sensacional envolvendo Internet. Se você desconfiou do sujeito e não deu bola, tem mais um ponto em comum com Bill. As semelhanças devem morrer por aí, pois se o pai do Windows quase perdeu o bonde da Web, logo correu atrás do dito cujo e hoje está sentado na janelinha.

É difícil separar o joio do trigo quando o assunto é Web. As maravilhas são tantas, as bobagens são tantas, que corremos dois riscos: ou nos entupimos de informação e ficamos rotundos, ou vomitamos tudo, e anorexia já não é mais chique.

Essa síndrome de febre e delírio é recorrente na nossa história. Mapas antigos têm serpentes marinhas, dragões e povos bizarros, tal e qual reportagens sobre perversões na internet. Portugueses e espanhóis morreram na selva buscando cidades de ouro, mais ou menos como alguns empresários que eu conheço.

Essa reação febril da humanidade parece ser normal quando ela se depara com algo estranho, algo que não consegue digerir. Pense num suíço com overdose de jaca, por exemplo. Ou pense em Marco Polo.

Marco Polo era macho. Botar o pé na estrada rumo à China hoje é uma aventura mediana. Há quinhentos anos era uma temeridade. E ele foi.

O escritor Italo Calvino escreveu um livro sobre Polo, o livro "Cidades Invisíveis". Nele, o veneziano presta serviços ao Grande Khan. O imperador mongol conquistou tantas terras que não tem como conhecê-las todas, e incumbe Polo de percorrer o reino e contar tudo o que viu. É maravilhoso.

(Aliás, o Natal está aí, e se você tem amigos muito queridos e que amam ler - pedi demais? - esse livro é um presentão).

Se você tem um site, você tem um Marco Polo nas mãos. Ele está indo a lugares inimagináveis, levando a sua mensagem aos quatro cantos. A metáfora é rica: viajantes devem carregar o estritamente necessário e, assim como eles, seu site deve ser ágil, simples e completo. Exploradores devem se comunicar com todos. Seu site idem. Embaixadores e emissários devem ser respeitosíssimos, e seu site também.

Marco Polo não seria Marco Polo, contudo, se não tivesse voltado para contar o que viu. Se o seu site não traz de volta nenhuma informação sobre seus usuários, mil perdões, mas você está sustentando um globetrotter estróina.

Que tipo de informação seu site poderia estar trazendo para você? Bem, quando eu entro no site da Amazon Books eles sabem quem eu sou, quando comprei pela última vez, quanto gastei, onde moro, meu cartão de crédito, e o que é mais admirável, sabem mais ou menos o que eu gosto. Como adivinham? Analisando o que eu compro. Nada mal, não? Quanto valem essas informações?

Outra lição da Amazon: leveza. Eles poderiam usar multimídia? Poderiam. Poderiam usar frames? Sim, claro. Poderiam usar animações? Decerto. Mas não usam nada disso. Por quê?

A resposta é simples, a resposta é ser simples. Qualquer um desses recursos limitaria o alcance do site, sacrificaria a sua rapidez e o desviaria do seu foco, que é vender livros e criar um gigantesco banco de dados dos seus clientes. O resto não agregaria valor. Agilidade, foco, valor, são essas minhas dicas para seu próximo site. Opa, outra dica de livro para o Natal: "Seis propostas para o próximo milênio", também do Calvino. Ele entendeu tudo.

Posted by renedepaula at 10:52 AM

Nus com a mão no bolso

(fev99)

Uma campanha publicitária na Internet dizia: faça compras nu. Genial. Nada como a internet pra você comprar pelado, trabalhar pelado, e inclusive ir a museus pelado. (Não recomendo ir ver a Mona Lisa nu. O sorrisinho dela acaba com a sua auto-estima.)

Maravilhoso mesmo é ir ao museu nu e voltar com obras-primas no bolso. Eu já tenho comigo vários Klimt, Schiele, Klee, Mondrian, textos clássicos, edições fac-símile, cartazes de filmes. Escolho a obra, clico com o mouse, e gravo num zip disk. Voilà.

Nesta coleção compacta as peças mais desconcertantes, modernas e emocionantes não surrupiei de museu algum, e nenhum dinheiro as poderia comprar: são pinturas da gruta de Lascaux. Há dezessete mil anos homens pintaram no fundo escuro de uma caverna touros esplêndidos, cavalos, cervos. Obras-primas.

Se do ponto de vista de Criação esses homens das cavernas não ficam devendo nada a nós, quanto a Mídia eles eram pré-históricos. Por que cargas d'água esconder aquelas maravilhas numa gruta sem luz? A explicação clássica dizia que as pinturas tinham finalidade mágica: capturar a alma dos animais e atraí-los para dentro da gruta, onde viravam janta. Ao que tudo indica, porém, os animais pintados não faziam parte da dieta dos pintores. Cai o argumento e fica o mistério.

Por uma ironia histórica, estamos deixando outro belo enigma para os arqueólogos do futuro. Eles vão encontrar sites brasileiros esplêndidos e irão se perguntar: "Por que essa pérola do webdesign ficava escondida nas profundezas da Web? Eles usavam alguma magia para atrair usuários?" (Vão acabar pensando em alguma seita iniciática, porque são tantos os plug-ins e recursos necessários que os leigos e não-iniciados acabam ficando de fora.)

A menos que você queira esconder seu site, são muitas as maneiras de se garantir visibilidade. A primeira delas é uma boa estratégia de mídia, se possível combinando a mídia tradicional com banners eficazes e bem distribuídos. Uma maneira ainda mais eficiente é estar se associando a portais ou sites de comunidade (Starmedia, Universo On Line, Zaz, entre outros), que investem pesadamente na conquista e manutenção de uma platéia cativa e sobretudo ativa.

Despertar interesse, assegurar visibilidade, focar um determinado target, isso a propaganda já faz (e muito bem) nas outras mídias, mas nada disso traz resultados na Web se seu site não gerar relações fecundas. Se o usuário não se envolver com seu site, se não obtiver nada em troca do seu desejo, vai embora e não volta. Outros milhares podem vir, gerando números altíssimos de visitação, mas partirão em busca de quem os trate melhor. (É quase a mesma diferença entre ser um grande sedutor e um excelente amante e companheiro. Sedutores podem se gabar de seus números, mas bons amantes marcam para sempre.)

Quer outra diferença entre as mídias? Papel aceita tudo, TV idem: se você diz que seu cliente é o máximo, não há como desconfiar do contrário. Na Internet, porém, se você não cumpre o que promete fica muito, mas muito feio. E isso inclui desde oferecer serviços que não funcionam até demorar a responder e-mails de usuários.

Para se dar bem nesse campo de nudistas que é a Web, vai aí meu conselho: não adianta ser lindo e ficar escondido. Não adianta se expor, se você não seduz. E não adianta seduzir se na hora H você nega fogo.

Esse público é exigente: frustre-o e te jogam no fundo da caverna. Você vira curiosidade arqueológica.

Posted by renedepaula at 10:51 AM

Tempos Promíscuos

(abr99)

Mudem o mundo, revolucionem o país, mas não toquem em duas coisas: bancas de jornais e padarias. Há valores que são sagrados.

O cheiro do pão fresco, o balcão, o caderninho com as contas, isso é um legado secular de savoir-faire e de savoir-vivre, um patrimônio nacional. Uma boa banca de revistas, então, é uma vitrine do mundo. Estão ali estampados o mais belo e o mais sacana, bundas e desastres, vitórias e fofocas, uma cornucópia de informação e sonhos.

Dias atrás cumpri um ritual dominical: fui a uma padaria charmosíssima na vizinhança. Fui a pé, e como de hábito comunguei numa banca próxima. Passei bons minutos folheando gibis de heróis que eu nunca vira.

Herói que é herói tem superpoderes. Por que sonhamos com superpoderes? A culpa é do mundo, creio. Nada no mundo colabora com nossos desejos. Quer ver sua amada já? Lamento, mas ela está trancada num escritório em Tóquio. Quer o jornal de anteontem? A faxineira jogou fora. Enquanto o desejo deseja o que bem entende, o mundo só complica.

Não admira que a Internet fizesse tanto sucesso. O mundo online é a criação humana mais próxima do nosso desejo. Ele é quase instantâneo, cheio de ligações imprevistas, é aberto a expansão e evolução. É a nossa cara.

O mundo online cresce movido pelo desejo, desejo que quer satisfação, quer resultado, que não espera e não tolera obstáculo. Nada de promessas, nem de sedução vazia: o usuário quer resultados, e logo. Embromação, nunca.

Têm futuro, hoje, websites que investem na mais complexa das tecnologias: o marketing de relacionamento. Se a Amazon é até hoje um case, é porque ela foca em três aspectos: o consumidor, o consumidor e o consumidor. A Amazon traz resultados velozes, trata o seu usuário com respeito, se antecipa aos seus desejos e recebe em troca a moeda mais valiosa nesses tempos promíscuos: fidelidade.

Alguém definiu a propaganda como a fina arte de separar as pessoas do seu dinheiro. No mundo online, mais importante que uma transação vantajosa é o relacionamento prolongado, instrutivo, fecundo onde todos crescem, sobretudo o vínculo entre o usuário e seu produto.

Você terá acertado no dia em que ele defender seu produto como eu defendo minha padaria e a banca da esquina.

Posted by renedepaula at 10:50 AM

Questão de foco

Já disse Millôr: a Música é a única arte que nos ataca pelas costas. E eu modestamente acrescento: fotografia também pode ser traiçoeira, mesmo quando não é arte.

Fui pego desprevenido outro dia por um álbum de viagem ancestral. O bandido ficou na tocaia por bons vinte anos para me dar o bote numa arrumação geral de armários.

A viagem em questão era minha primeira viagem, e a câmera, minha primeira câmera.

Revendo-me em fotos descoradas (ou será que já eram ruins?) entendi claramente por quê certas tribos indígenas mantêm seus adolescentes trancados numa oca: por razões estéticas. Credo cruz, essas minhas fotos o mundo não verá jamais.

Uma delas, porém, trago a público: a pérola ao lado, onde uma máquina de jornal posa desenxabida. Você dirá: e o quico? Pois bem, saiba que há vinte anos essa maquininha singela dava um nó na cabeça de brasileiro.

O chocante não era tanto a modernidade da engenhoca, era a sua fragilidade. O que impedia que o cidadão levasse mais de um jornal, ou arrombasse a dita cuja? A pergunta se auto-responde: o fato de ser cidadão. Essa cidadania era na época mais perturbadora do que qualquer tecnologia.

Uma maquineta dessas no Brasil d'antanho ia virar piada. Em primeiro lugar, quem garantiria que haveria jornais novos sempre? Além disso, ia ser preciso sofisticar muitíssimo o mecanismo, para garantir que um só jornal fosse tirado por vez. A tranca deveria ser reforçada, e um alarme instalado. O jornal ia acabar saindo mais caro, e ao invés de usar moedas, você teria que comprar uma ficha na banca mais próxima. (Quem se lembra das primeiras vending machines daqui sabe que não estou delirando).

Folhear o álbum da Web perturba, também. Algumas donzelas antes fotogênicas e cobiçadas ficaram pra titia, outras que ninguém dava bola hoje batem um bolão. Uns deram o golpe do baú, outros estão enchendo o mundo de filhos, um encalhou e passa a vida a falar mal dos outros. A Web gira e a Lusitana roda.

Crescemos todos? Espero que sim, e digo isso não só pelo engravatamento geral do métier interativo, mas sobretudo pela maturidade dos projetos que estão surgindo. Claro que ainda há Peter Pans por aí se recusando a crescer e fazendo sites pueris, injustificáveis, mas quem quer pagar por isso?

(Talvez um dos problemas da mídia interativa seja esse. Algumas coisas são uma delícia de se fazer: animações rebuscadas, layouts bizarros, tecnologias de ponta. Justamente coisas que não servem pra quase nada.)

O oba-oba passou, a poeira baixou e a Internet não é o Futuro, é o presente e já tem história. Já dá para se fazer um balanço, e ver que nem todos os profetas acertaram. Alguns erraram na mosca.

Quem teve intuição e tino está hoje muito bem, obrigado. Vide Starmedia, Amazon, a própria Microsoft. E o azarão Linux, hoje roubando a cena.

O que distingue os lanterninhas dos campeões da Web? Sorte? Eu acho que não.

É lucidez.

Corro o risco de ser repetitivo, mas assumo o risco: vem tendo sucesso quem explora aquilo que a Internet tem de único, o relacionamento direto, a integração do que é disperso.

Nada é tão inovador e efetivo quanto a possibilidade de se tratar um usuário one-to-one, ou de se integrar numa solução business-to-business colaboradores espalhados geograficamente. Isso é muito mais revolucionário que qualquer pirotecnia. Isso é mensurável, justificável, rentável.

Se antes um projeto de Web prometia tecnologia de ponta, alta interatividade (argh) e olhe lá, hoje inclui E-commerce, e-service, i-service, personalização, formação de comunidades, database marketing, one-to-one marketing, web-centric processes, intranets e assim vai.

Claro que você pode continuar sub-utilizando a Web, tratando-a como um canal a mais de comunicação, como um apêndice do seu negócio. Não é fácil, realmente, integrar a sua empresa à Web e fazer da Internet o eixo central dos seus processos. Isso não é divertido, nem rápido, nem barato, muito menos coisa de moleque. Mas seu concorrente já deve ter começado, e logo pode te tirar do mercado.

Ficar para trás não é fatal, há sempre uma saída. Bancas de jornais, por exemplo, parecem dar um bom dinheiro. Até alguém lançar uma versão digital da maquininha de jornal aí da foto, que você aciona com o telefone celular, pega o seu exemplar, o preço do jornal vai para a sua conta telefônica, que você paga via Web e aproveita para se cadastrar para receber notícias instantâneas desse mesmo jornal no display do seu telefone multi-função. (Essa foto eu ainda não tenho, mas Isso já existe).

Você não está sendo atacado pelas costas. Você está cercado.

Posted by renedepaula at 10:49 AM

Não faça isso em casa

A foto ao lado é uma proeza. Seu poder de fascinação escapa ao olhar do leigo. Se o milagre não se revelou à você imediatamente, resigne-se. Não adianta analisar a luz (100% casual), o tema (um must em folhinhas de lavanderia) nem o enquadramento (descuidado)

Um camundongo, por outro lado, estaria agora embevecido, extasiado.

Gerações de ratos acalentaram o sonho do gato com um guizo no pescoço. A idéia era brilhante, quase óbvia. Só não atinaram até hoje em como colocar o guizo lá.

Para humanos que têm um gato (se é que possível ter um gato), o paradoxo “gato estável versus chocalho no pescoço” é intrigante. Essa mistura gera uma instabilidade explosiva, uma distorção no espaço-tempo que desencadeia um tufão incontrolável. Esse dom furioso é precoce, e se manifesta mesmo em espécimes simpáticos como o (agora ilustre) ilustrado.

Eu jamais publicaria essa foto singela sem um alerta garrafal: “não tente isso sem supervisão de um adulto treinado”.

O mesmo alerta vale para a web.

Metade do meu tempo (e dos meus pares) é dedicado a vender as maravilhas da mídia interativa, metade a criar e produzir o que vendemos. Na outra metade (!) faço o que estou fazendo agora: colaboro para que não se compre gato por lebre.

Algumas coisas são fáceis de se vender. Paraísos, por exemplo. Só se chega lá morrendo, e aí não dá mais pra reclamar.

Vender web – antes um sacerdócio – bruscamente tornou-se uma delícia. Todos querem comprar, todos podem pagar. (Não me pergunte que milagre foi esse, só sei que não foi por falta de reza nossa).

Você deve estar comprando web, suponho, seja um bannerzinho modesto ou uma solução de e-commerce e CRM, e nessa altura todo conselho, mesmo de graça, pode ser bom. Vamos lá.

Ok, você comprou a idéia do gato com guizo. O projeto parece ser fiel à sua marca, e está em sintonia com sua estratégia de marketing, CRM, e tudo o mais. Tão importante quanto o projeto é o plano para se chegar lá. Um bom projeto deve incluir um cronograma de implantação, com fases, entregas e materiais necessários a cada passo.

Outro sinal de um bom projeto é a sua flexibilidade. Se um gato é um moving target bastante inquieto, a web é mais imprevisível ainda, e toda projeção a longo prazo deve ser bastante cautelosa. Pense em escalabilidade, expansão modular e correções periódicas de rumo. Cuidado com tecnologias proprietárias ou pacotes fechados.

Pronto, o gato está devidamente equipado. O que garante que em um requebro, três contorções e duas acrobacias (ou seja, em um segundo e meio) esse guizo não se soltará?

Traduzindo: como você vai garantir a qualidade da sua presença online a médio e longo prazo?

Exija do seu fornecedor clareza quanto à manutenção/atualização do website. Pergunte a ele:

A freqüência de atualização é compatível com a dinâmica (ou a falta de dinâmica) do seu negócio?
Quem vai ser responsável pela freshness do conteúdo?

Quem vai gerar esse conteúdo?

Caso a responsabilidade pela atualização seja dos seus funcionários, quais serão as ferramentas necessárias?

Quanto tempo de treinamento será oferecido?

Um conselho derradeiro: tente ver seu candidato a fornecedor como um candidato a parceiro. Um website é um work in progress, e você precisará de alguém que te conduza pelo tempo afora. Portanto, desconfie de sabichões e donos da verdade. Trabalhar com web requer um aprendizado constante, e humildade e transparência são fundamentais.

Pelo bem da verdade: precisei de uma dúzia de cliques para a bendita foto. Mais: o guizo não durou nada. O que está durando mesmo é a cicatriz das unhadas.

Posted by renedepaula at 10:48 AM

Nada muda tudo

Todo Joca que se preze treme nas bases quando ouve ao longe a mãe gritar: "João Carlos!". É mau sinal. Um cascudo está a caminho. O mesmo vale para os Tucas, Malus e demais mortais com nomes compostos, usados apenas em situações indesejáveis.

A internet, mesmo agora na sua infância, já tem seus traumas. A mera menção da palavra "tudo", por exemplo, me gela a espinha. Essas quatro letrinhas, ainda mais se acompanhadas de uma pausa de efeito e um olhar enigmático, precedem um longo calvário de desentendimentos.

Frases como "a Internet vai mudar tudo", então, deveriam disparar alarmes e acionar enfermeiros com uma camisa de força.

"Rápido", "fácil" e "barato" são outros termos que deveriam ter tarja preta, usáveis somente mediante receita e em doses controladas.

Citar o nome da Amazon em vão encabeça minha lista de pecados digitais.

Deixar-se levar pelo hype e oba-oba da Internet é como achar que um iceberg é uma ilhota branca e radiante. Como o Titanic bem provou, aquilo que não se vê é grande, profundo e pode pôr os melhores projetos a pique.

Websites de sucesso como a Amazon e a Dell são parte de uma reestruturação profunda dos modelos de negócio, desde a relação com os fornecedores até o relacionamento com os consumidores. Ao comprar nesses websites, você está movimentando uma máquina imensa que envolve fornecedores, distribuidores, bancos de dados e uma infra-estrutura técnica robusta.

A quem creditar esses sucessos? A analistas de sistemas geniais? A webdesigners ousados? A engenheiros? Não necessariamente. Esses talentos todos nós temos aqui, a diferença não pode ser essa.

Se você confiou seu début na Internet a um webdesigner ou a um programador, talvez tenha hoje um belíssimo website. Se esse website ainda não "mudou tudo" na sua empresa, é porque ele é vítima de um pecado nada original: ele é um marginal no seu negócio.

Muitas empresas iniciam sua relação com a Internet dessa maneira: tinham uma verba pequena sobrando e criaram um website bonitinho. Esse site vivia à margem do negócio da empresa, mais ou menos como o webmaster que acabaram contratando: um sujeito meio peculiar que falava coisas que ninguém entendia e não gerava receita nenhuma. Eu passei por isso.

Mais dia menos dia a relação com a Internet evolui, e o site passa a se integrar aos poucos na estratégia de comunicação da empresa. Aquele webmaster isolado agora atualiza o site de tempos em tempos, e passa uma boa parte do dia quebrando galhos para todos: enviando e recebendo documentos estratégicos por e-mail (uma temeridade), ajudando a encontrar informações aleatórias, etc. O webmaster e o site absorveram enfim a "cara" da empresa, e agora são tão confusos e ineficientes quanto todos. Passei por isso também.

O próximo nível nessa história não é apenas mais elevado: é mais profundo, e sobretudo mais amplo. Eu ouso dizer que só nesse momento avançado é que a internet mostra a que veio. Que nível é esse? É aquele em que a empresa gira em torno da web: é o web-centrismo.

Todos os processos do negócio foram se integrando através da internet, do controle de estoque até o database dos clientes, das transações com os fornecedores à venda direta ao consumidor. O negócio ganha agilidade, transparência e torna-se capaz de se relacionar diretamente com o consumidor final. A empresa está web-ificada, e o marketing one-to-one começa a se tornar possível, viável.

Aquele webmaster sozinho não vai conseguir essa metamorfose, mesmo que ele consiga pronunciar Customer Relationship Management sem gaguejar ou que tenha uma noção do que é uma solução business-to-business.

A internet sai enfim da alçada de Sistemas e Tecnologia, e não se subordina mais ao seu gerente de Comunicação: seu negócio, afinal, não é upgrades ou branding, você precisa de resultados concretos. A internet agora é assunto de cúpula, e está na pauta do presidente da companhia.

Vendedores de soluções "interativas", "digitais", "online" batem à sua porta diariamente. Antes de entregar a um deles o futuro da sua empresa, preste atenção: se ele disser que vai a internet é o futuro (argh!) e vai mudar tudo (urgh!) num processo rápido e barato (uff!), dê um cascudo nele. Dê dois, aliás. Um é por minha conta.

Posted by renedepaula at 10:47 AM

Muito Pessoal

No mundo todo, a carreira mais lenta é a de filho. Você é obrigado a esperar décadas para ser promovido ao cargo de pai. A piada (da Mafalda, uma personagem lá do século vinte) é ingênua, mas ao saber que minha irmã esperava seu segundo filho, além de deliciosamente comovido, senti-me mais do que tio. Senti-me promovido a uma categoria especial: a tio do século passado.

Sensação curiosa, essa. Vou olhar para essa criança e pensar: você é do século 21.

Cá estamos nós, pessoas de um outro século bruscamente a bordo do terceiro milênio. Não é o paraíso, muito menos o inferno, mas a novidade é que aqui não há mais luz no fim do túnel. Luz é o que não falta, o que acabou é o túnel. Chegamos do outro lado.

Agora tudo é "do ano 2000" mesmo, do supercomputador ao grampo de cabelo. Até que alguém crie uma nova grife para tudo o que é visionário, estamos todos sem um norte, um farol que indique quando começa o futuro. Bem-vindos, temporariamente, ao presente.

Os publicitários diziam: no dia que a internet for uma mídia "de massa", aí sim. As produtoras diziam: no dia em que houver dinheiro para a internet, aí sim. Os profissionais de mídia: no dia em que internet for mensurável, aí sim. Os clientes: no dia em que meu concorrente entrar na web, eu entro. Pois bem, o dia chegou. A "revolução digital" vai bem, obrigado.

Revoluções têm sempre vítimas, e se fizermos um balanço honesto dos mortos e feridos veremos que muitos dos slogans - como em toda revolução - eram cândidos. Os middle men, por exemplo, perderam terreno em algumas áreas mas souberam reagir. Exemplos: mesmo que seja possível negociar ações online, as dicas de brokers experientes são hoje muito bem pagas. A compra online de carros não necessariamente é mais vantajosa do que a feita num dealer, onde é possível barganhar e fazer negócios menos convencionais.

O poder milagroso da abundância de informações mostrou-se quimera. A abundância é fato, mas as informações são tantas e tão dispersas que o usuário fica aliviado quando encontra uma ou duas fontes que concentram tudo o que precisa.

Mais um: a facilidade de comparação de preços online iria acirrar a concorrência. Surpresa: muitos dos usuários (eu me incluo) preferem comprar em sites conhecidos, que tenham uma boa política de relacionamento, sem questionar o preço tanto assim.

Quanto a tecnologias, nem se fala. Webdesigners apoiados por publicitários e afins alardeavam uma época áurea onde a internet seria multimídia, "emotiva", onde o design voaria solto, sem amarras. A sensatez felizmente imperou e a vanguarda hoje são sites enxutíssimos, funcionais, mais rápidos, com um investimento milionário em tecnologias invisíveis (databases, CRM, segurança).

Quem diria, por exemplo, que um sistema operacional gratuito pudesse ameaçar o império Microsoft? Parabéns ao Linux. Parabéns ao Palm Pilot, tão modesto e despretensioso, mas onipresente nos bolsos por aí.

O Acaso e a Fortuna poderiam levar o crédito por tantas derrocadas e vitórias, mas eu continuo firme nas minhas apostas. Vejo que por trás de tantas mudanças (ou acima delas, ou abaixo também) algo permanece.

O mundo é feito de gente. Slogans à parte, bandeiras, números à parte, o que há são pessoas. Pessoas têm história, têm dignidade, querem se realizar, exigem respeito.

O que deu força à Internet foi a ânsia de pessoas insatisfeitas com o blá-blá-blá do falecido século 20. Pessoas que se cansaram das promessas vazias, do desejo frustrado, da indiferenciação, da irrelevância que vêm das metrópoles, da mídia de massa, da publicidade, da política.

Só depois que milhões dessas pessoas deram corpo à Internet é que a maioria de nós entrou no barco. Quem tentou fazer online o mesmo que fazia há décadas teve sucessos variados. Outros tentaram descobrir como satisfazer o anseio geral por participação, conveniência e sobretudo respeito. Eu, modestamente, me incluo no segundo time, e acredito cada vez mais no que faço. Nada é mais apaixonante, complexo, dinâmico e "interativo" do que a arte do Relacionamento.

Mais instigante do que tecnologias é descobrir como usá-las a favor de uma vida mais digna.

OK, estou sendo idealista e sentimental. É que minha irmã está grávida, o mundo não acabou e estou no ano 2000. Dêem um desconto, afinal eu sou gente. Cada vez mais.

Posted by renedepaula at 10:46 AM

O outro lado da ilha

Acredite se quiser, mas eu já estive na Ilha de Caras. Tenho bonezinho e tudo. Fui me encontrar com uma diva do cinema mundial, a francesa mais francesa do mundo.

Falando assim, até eu fico com inveja de mim mesmo. Felizmente para nós, essa é uma revista que vai muito além das legendas e manchetes, e posso contar a história behind the scenes.

Antes de ser "interativo" eu era produtor e editor de TV, e meu último trabalho foi na HBO Brasil. Como meu francês é passável, fui escalado para entrevistar Catherine Deneuve na Ilha de Caras. Já me vi descendo de um iate e ganhando um colar de flores de Ricardo Montalban e Tatoo. Tive que me contentar com penosas horas na Kombi da produção, um barquinho merreca e desembarcar na porta dos fundos da ilha. Ossos do ofício.

Calor africano. Dezenas de repórteres confinados numa sala escura e quente, tentando vislumbrar pelas janelas o paraíso lá fora. Uma parafernália de tripés, câmeras, microfones. Suadouro geral. A grande dama do cinema finalmente chega, uma senhora de lenço e óculos escuros. Uma bela senhora, driblando com classe o peso dos anos, mas padecendo sob o peso dos quarenta graus à sombra, dos quarenta microfones, dos quarenta minutos que tinha para nós todos.

Fiz lá minha perguntinha, ela respondeu, e nos retiramos pelos fundos novamente, para sacolejar nas respectivas kombis serras acima. Zero glamour.

Mais dia menos dia uma de nossas estrelas da Internet vai estar na Ilha de Caras. É só o que falta mesmo, já que a publicidade aprendeu como usar todos os recursos usuais (mass-media, branding, assessorias de imprensa) em favor da Internet.

Felizmente, para nós, essa é uma revista que... (já disse isso) e posso me estender sobre o lado menos glamoroso do mundo interativo, em mais uma modesta contribuição em prol de uma web saudável (vide http://www.usina.com/textos).

Se pensarmos que a web é uma idéia na cabeça e um capitalista na mão, a web nacional vai ficar tão aquém da web americana quanto o cinema tupiniquim está distante da indústria de Holliwood. Poderemos ter um Glauber Rocha aqui, uma Central do Brasil ali, mas indústria que é bom mesmo, necas.

A comparação com uma indústria não foi gratuita. Mesmo que investidores estejam hoje dispostos a apostar muito na web, eles um dia vão querer retorno disso, e não vão sustentar salários astronômicos se o negócio todo não se mostrar viável a médio e longo prazo.

Antes de contagiar um investidor com seu entusiasmo e carisma, prepare-se bem. Frente a um business man, todos somos crianças contando historinha: "aí então eu faço o site aí então eu... eu... aí vem um montããão de gente e compra tudo e aí faço IPO e então eu fico rico, e...". E depois? E antes? E durante?

São vários os caminhos das pedras da web, mas as pedras são sempre as mesmas:

§ logística: como você vai entregar em Belém do Pará? A que custo?

§ integração com o negócio: quando acabar o estoque, o site vai indicar isso? a promoção vai sair do ar a tempo?

§ segurança: não basta ser seguro, o negócio tem que parecer seguro. A recíproca vale.

§ infra-estrutura: conte com o risco de que sua demanda crescer muito mais rápido do que sua capacidade, pois ninguém vai esperar você se reestruturar.

§ viabilidade: Durante quanto tempo você vai depender da mesada do papai, digo, investidor?

§ diferencial: você pode fazer todo o branding do mundo, mas na hora do vamos-ver, o que te distingue dos concorrentes? Serviço? Preço? Qualidade? Personalização?

§ interface: ouça designers e você terá um carro alegórico, ouça o seu programador e você terá um jipe militar. Seu consumidor tem paciência zero e alergia a complicações.

§ nicho: você pode ter um target em mente, mas eles precisam de você? Eles só vão sustentar seu sonho se você realizar os deles.

Voltemos pras ilhas e barquinhos, ou mais, voltemos pra uma metáfora marinha que uso sempre: o que vemos de um iceberg é aquela ilhota reluzente, mas o que a faz flutuar é a massa de gelo embaixo d'água. A mesma massa, aliás, que afunda Titanics incautos.

Posted by renedepaula at 10:45 AM

Coisas de Gênio

Convenhamos: o melhor da adolescência é que ela passa. Você vai com certeza me apontar mil encantos dessa fase crítica, mas eu tenho cá pra mim que esses encantos são mais encantadores agora, retroativamente, do que eram então.

Corro o risco de que você seja um dos happy few que tiravam tudo de letra. Conheci alguns assim: don-juans natos, conquistadores instintivos. Nós, manés, ficávamos imaginando qual seria o segredo dos campeões de audiência. Lábia? Físico atlético? O skate, a bike, a moto, o carro, rodas em geral? Mistério. E enquanto os abençoados cativavam as sereias da praia, nós rezávamos para descobrir na areia uma lâmpada com um gênio dentro. Primeiro pedido: "aquela moça ali... não, a outra atrás, e aquela outra, e essa que passou, tá vendo? então...".

Nem precisava três pedidos, um só dava. A imaginação era mais curta do que o atraso.

Felizmente para quase todos o redemoinho hormonal se acalma. Você já sabe que conquistar não é difícil, o problema é o que vem depois. Aquele gênio teria agora pedidos mais complicados pra atender, envolvendo pendências bancárias, gorduras localizadas e parentes incorrigíveis.

Ninguém se pergunta porque cargas d'água alguém tão poderoso está preso na lâmpada. Se alguém prendeu o gênio ali, fica a questão: por que castigou alguém tão benfazejo? E por que o poderosão não usa seus poderes em proveito próprio?

É claro que estou pensando nessa numerosa fauna & flora de consultores, incubadoras e companhias que acenam com promessas mágicas para o seu negócio. Sem querer ser o Mister M dessa história, gostaria apenas de mostrar que la rapadura es dulce si, pero no es muele no.

O cenário hoje é tão cruel quanto uma boa praia. Nossos "targets" passam rebolando, os concorrentes joviais estão batendo um bolão, enquanto você - sutilmente encolhendo a barriga - tenta convencer sua companheira que aquele garotão sarado é certamente boiola.

Piadas à parte, a situação não tem graça: está muito difícil diferenciar sua marca, a concorrência te força a reduzir a margem, a aquisição de novos consumidores está cada vez mais custosa. Reter os seus clientes é uma luta inglória.

Remédio há, e não falta quem venda. O nome genérico/princípio ativo é CRM, ou Customer Relationship Management.

Abre parênteses: o hit parade de siglas e acrônimos que nos envolve deixa a MTV no chinelo: Y2K, B2B, B2C, C2B, 1-2-1, DBM, e-isso, e-aquilo... Imbatível mesmo é o ME2, ou me-too. Funciona assim: o que o meu concorrente está fazendo? Opa, me too! Fecha parênteses.

Trocando CRM em graúdos: o maior patrimônio da sua empresa são seus clientes, e quanto mais intenso, amplo e prolongado for seu relacionamento com eles, mais você ganha. Daí a preocupação com fidelização, retenção, lealdade, sem descuidar da aquisição, pelo contrário: conhecendo qual o perfil do cliente mais rentável, você descobre em que tipo de novo cliente investir. Para não queimar vela com mau defunto, em português claro.

Esse, porém, é o lado doce da rapadura. Não vá pensar que basta comprar um pacotão de softwares e treinamento, colocar um website no ar e ser feliz para sempre. Isso não é mole não, nenhum pacote é varinha de condão, assim como nenhuma colônia pós-barba faz chover mulher.

Siglas à parte, tecnologias e jargão e computadores à parte, o que conta é o que está nas duas pontas: pessoas. Do lado de cá do seu "pacote" de CRM, toda a empresa deve ter em mente que do lado de lá estão pessoas de verdade, cuja confiança deve ser conquistada diariamente. Um deslize, um tropeço, e a confiança se vai, seu consumidor se vai e não volta tão cedo.

Como fazer para que, da mala direta ao website, do e-mail ao ponto de venda, do anúncio ao welcome-pack seu consumidor sinta que vale a pena se relacionar com sua marca? Como cativar sem prender? Como fazer que seus sofisticados bancos de dados sirvam para alguma coisa, e te dêem suporte para novas decisões?

É claro que isso não é fácil. Nenhum relacionamento é fácil. Não há mágicas, acredite. Acredite, sim, em aprendizado constante, na experimentação, na interação real entre seres humanos.

E em mim, vale a pena acreditar? Minha promessa é modesta: trarei nesta coluna muitas perguntas, poucas respostas, nenhum dogma mas um credo profundo: a crença em pessoas. Mesmo que acreditem em gênios.

Posted by renedepaula at 10:44 AM

Incommodities e o e-daí

Antes de comprar aquele carrão importado, confira: a garantia diz algo sobre conquistas amorosas e aventuras sexuais? Nada? Nem no manual, escondido entre tabelas de potência e curvas de torque? Gozado. Pelo visto o prazer vai ser solitário. Prazer de dirigir, bem entendido. Nem pensei em sexo.

O melhor conselho para candidatos a don-juan talvez seja: coloque-se na posição do seu objeto de desejo. É o que, pela primeira vez na vida, estou fazendo agora. Para evitar mal-entendidos: não pensei aqui em sexo.

Simples: hoje sou cliente, não mais agência. Depois de um bom tempo exercitando a arte da sedução e conquista de clientes, hoje estou na não tão confortável posição de escolher pretendentes.

Revelo aqui um segredo valioso: o que conquista um prospect não é o sex-appeal, a lábia nem a grana. É a perspectiva de um relacionamento fecundo.

(Desapontado? Lembrou-se de todas as suas conquistas frustradas? De frustrantes one-night stands?)

Nesse jogo de sedução, você acena com promessas de e-business, e-marketing, e-advertising, os seus rivais também, e a galera responde: e-daí? Quanto vale o show?

Seus concorrentes leram a mesma cartilha que você (os mesmos e-newsletters, os mesmos websites). Os conceitos de CRM se tornaram commodities, e agora são tão repetidos que viraram incommodities.

Quem ganha o jogo? Publicitários? São eles, especialistas em desejo, em sedução, que vão te levar ao altar da Web? Sim e não. Você corre o risco de entrar na seguinte roda-viva:

* como a concorrência globalizada é atroz, você baixa a margem para ser competitivo.
* para compensar a margem baixa, você tem que adquirir novos consumidores aos montes
* a concorrência está gastando os tubos em aquisição, fazendo um barulhão na mídia. Para se destacar, você vai ter que desembolsar mais ainda.
* Nunca foi tão fácil ser promíscuo. O consumidor sai da tua base de clientes antes que você chegue a recuperar o custo de aquisição.
* Para compensar a sangria de clientes, você investe mais em aquisição.

(Se você é cliente, só de pensar nessa orgia de gastos deve estar com um mal-estar na região gástrica; se você for um publicitário inescrupuloso - são poucos, claro - vai sentir uma excitação na região do bolso. Sem pensar em sexo, bem entendido).

Em suma: conquistar por conquistar é dispendioso, desgastante, frustrante e não se aprende muito. E agora pensei em sexo também.

O que distingue os rivais (agências, produtos, soluções de CRM, fornecedores) é a capacidade (técnológica e humana) de cumprir a promessa, e a profunda compreensão da vantagem de um relacionamento duradouro.

Os publicitários e marketeiros que entenderem (e praticarem) isso vão ganhar o jogo. Talvez nem precisem ser publicitários e marketeiros.

A questão do Customer Relationship Management na web é crítico, já que:

* prometer na web e não entregar, seja o que for (serviços, brand promises, produtos), é suicídio
* a comparação entre o seu produto (e o desempenho dele) é imediata. Clicou, comparou.
* Ser promíscuo, na web, é fácil. Troca-se de serviço, provedor, produto, sem dizer nem tchau.
* Informação é commodity, e-mailing é incommodity (seu inbox que o diga)
* A web não é "barata" faz tempo: o custo de aquisição de um e-cliente é muuuuito mais alto do que no mundo offline. Barato é o custo de retenção.

Criar um relacionamento com o novo consumidor não é bolinho, não. O que ganha esse jogo não são só ferramentas ou técnicas, mas sim a sensibilidade por trás disso. Como no amor.

O que interessa mais a você, informações objetivas sobre CRM ou análises mais subjetivas sobre tendências e cases? Mande um email (mesmo que em branco) para queronoticias@usina.com ou para queroanalises@usina.com. O próximo artigo já vai ser reflexo dos resultados.

René de Paula Jr.

rene@fera.com

Gerente de marketing interativo

Fera.com

Posted by renedepaula at 10:44 AM

Interativos: ponham-se no devido lugar

O bebê chora. Pouco adianta você ser Einstein ou Garrincha, bispo ou general: o bebê chora. Não há acordo. Algo dói? Onde? O que fazer? Faltam anos ainda para qualquer diálogo. Enquanto isso, por falta de melhor recurso, o bebê chora. A plenos pulmões.

Claro, a gente cresce e aprende a se expressar melhor. Não muuuuito melhor, justiça seja feita. Vá a um vernissage e veja leigos diante da obra avaliando: "quanto movimento nessa tela!". Ou, frente a uma coreografia mais ousada, dizerem que é conceitual.

(Dica: diante de websites, não hesite: a palavra salvadora é interativo.)

Não crucifiquemos os leigos por isso. Todos nós somos leigos também em alguma coisa. Aprendi outro dia, por exemplo, que um ikebana não é apenas um arranjo floral acrobático. Quando eu dava a volta murmurando "lindo, lindo, lindo" estava cometendo uma gafe básica. Ikebanas são feitos para serem vistos de um ângulo só, e ponto. Só não me pergunte que ângulo é.

Vai ver é por isso que odiei Brasília. Eu devia ter me restrito a contemplar cartões postais, ou então, numa hora mística, me postar num lugar x/y e contemplar "o traço poético do arquiteto". Aquilo não é uma cidade, é uma maquete 1x1, e ali ninguém caminha, roda-se de carro a velocidades ensandecidas.

No nosso ofício as coisas são bem diferentes, ou pelo menos deveriam ser. Nossos usuários pegam o que fazemos e fazem com ele o que bebês fazem: viram do avesso, retorcem, espremem, mordiscam e, com um clique, o jogam pra trás quando se entediam. Ou protestam com a mesma energia e obscuridade do bebê que chora irritado.

Deixemos as metáforas e bebês em paz. Vamos direto ao ponto. Ou melhor, dois pontos.

Primeiro ponto: o que vocês dois, cliente e interativo, pensam e sabem pouco interessa. Se um conhece o organograma da empresa e seu catálogo de cor e salteado, e se o outro é o rei dos disáiners ou das incubadoras, pouco importa. Como diria o Arquivo X, the truth is out there. Quem manda é o freguês.

Um dos maiores desafios para a mídia interativa é mudar justamente de posição, é por-se no seu devido lugar: o lugar do usuário. Ser customer-centric é imperativo.

Falando assim parece fácil, mas não é não. Se você conseguiu criar um site que reflete com perfeição o perfil de uma empresa (branding, serviços, produtos), meus pêsames. Você provavelmente criou um labirinto no qual seu usuário talvez nem entre, e de onde saberá sair com um clique só.

Segundo ponto: ponha-se no lugar do seu consumidor e veja se é de criatividade que ele está sentindo falta. "Criativa" a comunicação brasileira (propaganda, TV, rádio) já é há décadas, e a vida dele não melhorou muito com isso.

Seu consumidor quer serviço. Quer resolver problemas. Quer satisfação imediata. Ou então vai pra Amazon.

Vamos em frente. Como ser consumer-centric?

Um ponto de partida de obviedade ululante é ter bem claro com quem você está falando. Isso vai definir a tua estratégia inteira, do texto à mídia, da interface ao mix de produtos. Não perca isso de vista em momento algum, por mais que seja complicado definir o target em web.

Uma vez definidos os targets, vem a parte complicada: abstrair a empresa e focar nos targets. O que quer cada um deles? Que diabos ele espera fazer no nosso website? Liste todas os possíveis desejos e necessidades.

Mais um ponto chave: barreiras. Quais são os bloqueios e inseguranças que seu target pode ter com relação à web?

Agora sim começa o trabalho: atacar um a um cada desejo, cada intenção, cada necessidade. Criar uma experiência onde o usuário se sinta confortável, seguro, ambientado. Aqui começa o desafio para quem cria, implementa e mantém websites.

Uma dica: não se fie no que o usuário diz. O usuário sabe expressar seus problemas e medos tão mal quanto um bebê expressa sua dor-de-ouvido.

O resultado desse parto pode ser surpreendente. Você pode descobrir, inclusive, que algumas coisas nenhum site resolve sozinho, e que uma boa ligação de telemarketing, por exemplo, pode ser indispensável.

Em suma: gente precisa de colo. Sempre.

Posted by renedepaula at 10:41 AM

O coração da cidade

Eu me conheço: pela janela do avião que pousa vejo a cidade, reconheço meu berço, e num instante esqueço lugares melhores que deixei para trás. Feitiço estranho esse, que nos vincula filialmente a cidade que nos pariu, que nos criou, que nos envenena. Meu-bem-meu-mal é São Paulo, meu e de outros milhões. Qual será o seu?

Caminhando sozinho por ruelas, alamedas, avenidas nessa alvorada fria e luminosa em Porto Alegre, encantado com cada nuance desse lugar encantador, tão diferente, tão perturbadoramente diferente daquilo que chamo de lar, penso por um instante se esse sonho feliz de cidade me vacinará contra o veneno paulistano. Eu me conheço: não.

Nosso bem, nosso mal, cidades são nossa segunda natureza. Onde rotas cruzam rios, onde reis semeiam impérios, onde fluxos de homens, mercadorias, e de sonhos se interpenetram, nascem cidades. Onde nascem cidades, fluxos se recombinam, se fecundam, se enriquecem. Com isso as cidades crescem, e com elas crescem os homens.

A força da internet, seu motor e movimento são os mesmos da cidade: fluxos, trocas, fecundidade. Liberdade, intimidade, anonimato. Um tempo próprio, non-stop, 24h, desumano e embriagante.

Eis minha preocupação: ao criar sua presença interativa, você está contribuindo para uma internet fecunda e sadia, ou pelo contrário, está atravancando o mundo online, engessando seu crescimento?

Penso de novo em cidades: uma metrópole que só é viável para helicópteros, um dia-a-dia que só beneficia despachantes e atravessadores, um lugar onde blindagem de carros é equipamento básico, não é uma cidade, é uma guerra civil disfarçada.

Um website que só é viável para computadores de ponta, que desconsidera usuários leigos, que se baseia em soluções fechadas e despreza preferências e individualidades não é um website, é uma marcha-à-ré quando tudo avança a todo vapor.

Uma cidade, doente ou não, é um organismo imenso, com células compondo tecidos compondo órgãos. Na internet, websites não são criaturas isoladas: são células que deveriam compor tecidos e órgãos de um corpo onipresente, impalpável e fértil.

Faça um website estanque e você estará criando um corpo estranho que a vitalidade da internet acabará por sufocar e expelir.

Ao criar uma estratégia de fidelização, veja bem se você está aprisionando seu consumidor ou tornando a vida dele mais rica. Um caso exemplar é o da Yahoo. Seu email gratuito é, por si só, um grande fator de stickyness, mas eles vão muito além. Você tem outras contas de email? O Yahoo permite consultá-las onde quer que você esteja, com uma funcionalidade admirável. Mais stickyness nesses tempos em que o usuário não usa apenas seu computador pessoal.

O golpe de mestre mesmo é o Yahoo Messenger. Ele não só é mais leve do que o ICQ: ele te dá asas. Ao contrário do concorrente, ele armazena todas as suas informações na internet, e não no seu PC. Isso quer dizer que, voltando pra São Paulo, não terei que levar comigo nada do Yahoo. Bastará eu me conectar e ele estará tal qual o deixei. Lindo.

Mais: ele coordena vários pontos de contato de maneira invejável: você pode mandar mensagens instantâneas, fazer chat de voz, ler conteúdo customizado (ações, notícias), marcar compromissos e to-dos num calendário online personalizado, e mais um monte de funcionalidades em perfeita sintonia. Comunicação com amigos, email, web personalizada, esteja onde você estiver. Não tarda e ele estará integrando WAP e outras tecnologias ainda mais móveis.

Fidelização que liberta, tecnologia que humaniza.

Vamos ver como o YM se dissemina. Para minha alegria, os milhões de seres humanos conectados têm sabido preservar sua saúde ao rejeitar o que é nefasto e alimentar o que é promissor.

Não vou sair de Porto Alegre impune. Tanto ar, tanta luz, tanto calor humano me lavou a alma, e tenho certeza que isso vai gerar frutos. Eu me conheço.

Posted by renedepaula at 10:40 AM

Desafinado

Minha energia eu uso mesmo é no Carnaval. Falo sério.

É preciso o rebolado da Globeleza e a verve de Joãozinho Trinta para escapar incólume por 35 anos a esse maremoto, a essa endemia recorrente, a essa ditadura da alegria que é o Carnaval.

Essa inglória resistência começou cedo e, criança ainda, me preocupou saber que quem não gosta de samba bom sujeito não é. Como eu não era doente do pé, então devia ser ruim da cabeça, diagnóstico que ainda está em aberto.

Carnaval tem um lado bom: dura pouco, mesmo para quem mora do lado da Vai-Vai e convive meses a fio com preparativos ruidosos e apinhados.

Um oba-oba que parece não terminar nunca, porém, é o da Internet brasileira. A tão temida quarta-feira de cinzas não chega nunca, e não há registro de ressacas maiores. A julgar pela cobertura da mídia, a internet é uma festa permanente, uma cornucópia de sucessos, um desfile de alegorias. Doce ilusão.

Não culpo ninguém. A grande mídia entende tanto o que é internet quanto entende o que é carnaval: mostra carros alegóricos milionários, sambódromos, pop stars peladas e premiações encarniçadas.

Mesmo sendo a antítese do folião, eu sei que a raiz do carnaval são o o carinho autêntico, a nudez de alma, a alegria sem medo, o abraço da multidão. O resto é pra inglês ver.

Para minha alegria eu consigo, de tempos em tempos, puxar o meu banquinho e, com muita calma pra pensar, tendo tempo pra sonhar, passar pro papel o que se passa no meu coração vagabundo.

Para afinarmos os instrumentos, o tom hoje é dó maior. Dó de quem acredita que a tecnologia por si só dignifica. Se isso tivesse fundamento, a felicidade geral dobraria a cada 18 m