agosto 7, 2006
Os Intocáveis
(...) estamos sempre tropeçando da mesma maneira, vamos sempre ter os mesmos problemas. E, se tudo no mundo tem uma causa, problemas repetidos só podem ser... efeito de causas crônicas.
E como algo que causa problemas pode ser crônico? Simples: porque não se fala dela. Não pega bem. Não é "legal". Nesse assunto ninguém toca. (...)
Eu estava prestes a começar este artigo dizendo "você que gosta de idiomas...", mas me toquei a tempo que pouca gente tem apreço por línguas. Deletei tudo, e recomecei com "você que lida muito com estrangeiros...". Deleta deleta deleta. De volta ao cursor piscando no início de uma página branca.
É raro eu travar. Normalmente eu saio escrevendo/palestrando/gravando sem o menor embaraço, e as idéias vão se concatenando naturalmente, haja vista/ouvido o improviso do podcast Roda e Avisa (http://www.usina.com/rodaeavisa ) .
Um tema, porém, quebra essa regra. Se eu não esvaziasse a lixeirinha do meu desktop ela pareceria hoje um cesto de papéis de escritor empacado, coberta por folhas amassadas atiradas com fúria.
Que tema é esse? Simples: o que não se diz. Ponto. Complicadíssimo, o tema.
Falemos de fotografia, então, pra facilitar. Todo mundo tem câmera, e todo mundo gosta de uma boa foto, não? Pois bem, comecemos por aí.
Câmeras retratam a realidade, certo? Câmeras não mentem.
Olhemos então aquele teu álbum de viagem. Monumentos, belas paisagens, momentos dignos de uma foto, pessoas posando. Álbum é sempre assim. Agora reveja as fotos e me diga: o que não aparece?
Enquanto você digere a pergunta, eu dou uma pista: câmeras têm lentes, e com lentes você enquadra. Quando você enquadra algo, seleciona o que vai aparecer... e o que não vai aparecer. A menos que você ande fazendo fotos em 360 pelo mundo... o que aparece é uma fração bem pequenina comparado com o mundão que não aparece.
Você fotografou o mendigo? O prédio feio? As pessoas infelizes? O céu chuvoso? A sua mala bagunçada? Provavelmente não. Isso não é coisa que se mostra normalmente, e a gente nem registra na memória.
(Paulistanos como eu são PHD nisso: conseguem não-ver o caos e enxergar só o que é bacana na cidade, vide http://www.flickr.com/photos/renedepaula)
Deve fazer parte da nossa natureza "maquiar" a realidade e deixar de lado coisas que "não ornam". Isso é sinal de urbanidade e educação, inclusive, e cada cultura ou língua (lá venho eu com idiomas e gringos de novo) lidam de maneiras diferentes com isso. Em alguns países é inadmissível se falar da vida íntima, em outros ninguém tem pudor em dizer que teu cabelo está horrível.
Varia muito, mas uma coisa é certa: algumas coisas nunca são ditas. Outra coisa é certa: isso tem um preço, um preço que pagamos a prazo porque não enfrentamos as coisas à vista.
Nosso ofício interativo não escapa dessa sina, e a prova é: estamos sempre tropeçando da mesma maneira, vamos sempre ter os mesmos problemas. E, se tudo no mundo tem uma causa, problemas repetidos só podem ser... efeito de causas crônicas.
E como algo que causa problemas pode ser crônico? Simples: porque não se fala dela. Não pega bem. Não é "legal". Nesse assunto ninguém toca.
Tem gente que (sobre)vive disso: você já deve ter visto um "intocável", uma daquelas figuras que orbitam em torno desse área fortificada. Sempre tem: por vezes os criativos são intocáveis, por vezes os engenheiros, por vezes os "chegados" do chefe.
Nem tudo que é intocável, porém, tem que ser eterno. Muitas vezes os nossos monstros sagrados são tigres de papel, basta um assoprão e eles somem da nossa vida. E é pensando nisso, nesse exorcismo dos nossos fantasmas crônicos é que eu sugiro um remédio importado: o post-mortem.
Post-mortem é um apelido dado a uma avaliação do que foi bom ou ruim durante um projeto. Acabou o projeto? Post-mortem nele.
Quer tentar fazer? Acabo de fazer um bem simples: cada um dos envolvidos listou ao menos três coisas que foram ótimas, três que foram boas e três que foram ruins. Um coordenador vai juntar tudo isso, consolidar e compartilhar com todos. De um post-mortem simples assim pode nascer um plano para que os erros não mais se repitam e também para que inovações positivas sejam incorporadas ao processo.
Simples. Transparente. Mas levemente arriscado, também: um brasileiro pode se magoar porque o estrangeiro não teve papas na língua, ou um outro latino pode ter sido mais passional do que devia, ou... Ok, lá venho eu de novo com línguas e culturas :) Que mania.
Aponte minhas manias por favor, não tem problema. Aponte-as ou... vou repetir a dose nas próximas edições :)
Posted by renedepaula at 9:53 AM
novembro 1, 2005
Minha Teia 2.0
O Tarzan deve morrer de inveja do Homem-Aranha: o cara clica num botão
e zás, sai um cipó automático limpinho para se baloiçar sobre abismos.
Assim é fácil.
Para piorar a raiva, a selva de pedra tem mocinhas muuuito mais interessantes do que a Jane e a Chita. Sem platéia feminina de que adianta desfilar saradão e seminu pela floresta, afinal? Uma banana pra esse mascarado, deve grunhir o homem-macaco.
É curioso que um dos super-heróis mais queridos seja... uma aranha. Imagine você convencendo um cliente ou chefe de que um homem-inseto que sobe pelas paredes e lança teias vai ser um estrondo comercial. Faça isso hoje e o cara ou te demite ou pede antes um focus-group, que vai optar fragorosamente pelo Iridiscente Homem-Borboleta. Só o Stan Lee mesmo para emplacar uma idéia improvável dessas.
Mudemos da Cartoon Network pro Discovery Channel: o forte das aranhas não é o bungie-jumping. Aranhas vivem por um fio, mas um fio que tece teias. O bichinho escolhe um canto e vai pacientemente esticando, prendendo, enredando, até que uma teia complicada e invisível fique estendida no ar. Como um certo senhor barbudo, ao final da criação ela descansa.
Descansar é modo de dizer: na ponta de suas patas os fios tensos vão dando notícia se o almoço chegou ou não. Um tremelique nervoso no setor XYZ é a sineta do lanche: ela corre para o ponto exato antes que o almoço escape.
Biologices à parte, vou confessar uma coisa: pela primeira vez em anos eu vejo sentido nessa história de falar em web. Que web é teia em inglês não é novidade, mas antes o que me vinha a cabeça era uma teia mundial de computadores interligados e zunindo, e a metáfora não me comovia muito.
Tudo mudou, ou melhor, tudo está mudando muito rápido. A teia agora é outra. Eu posso escolher quais são as fontes de notícia e informação mais relevantes para mim e concentrá-las todas numa página só, ou em um único software. Eu bato o olho ali e vejo o que tem de novo em N fontes diferentes. Como a aranhazinha, sem sair do lugar eu fico ligado em mil fios que me anunciam as novidades. E tudo o que eu produzo, de podcasts a blogs passando por minhas fotos, tudo pode ser importado nas teias alheias.
Como isso é possível? RSS.
Não, RSS não quer dizer "risos". RSS é tão fácil que é até divertido, mas é algo bem sério. RSS (realyl simple syndication) foi um recurso criado anos atrás para facilitar a distribuição de informações. Eu atualizo meu podcast "roda e avisa" (http://www.usina.com/rodaeavisa) e automaticamente um arquivinho é gerado com o resumo das mudanças. Esse arquivinho de nada é que permite que pessoas do mundo todo "acompanhem" as coisas que eu publico sem ter que visitar minha página.
(Confira http://pt.wikipedia.org/wiki/RSS para ver mais detalhes, é bem bacana)
Preste atenção em grandes sites de notícias, em bons blogs e portais: você vai ver que em algum lugar vai ter um botãozinho escrito RSS, ou XML, ou FEED. Esse botão tem um link, e esse link você pode adicionar à tua teia pessoal de interesses e fontes de notícia.
Quer ver um bom exemplo? A CNN oferece inúmeros feeds: http://www.cnn.com/services/rss/ Outro exemplo: ontem me indicaram um blog bárbaro de um americano super-antenado: http://jeremy.zawodny.com/blog/. Como o blog dele tinha RSS, adicionei-o imediatamente à minha página agregadora e pronto: agora ele faz parte da minha teia, ou melhor, da minha web.
OK, agora todos nós temos "sentidos de aranha", todos nós lançamos teias num duplo-clique. Isso o Peter Parker já tinha. Mas temos uma vantagem sobre o CDF solitário: somos milhões de aranhas, milhões, cada uma construindo sua própria web, cada uma produzindo e pendurando na teia para todas as outras aranhas, cada uma aliando forças com outras aranhas e montando sua própria rede de comunidades e trabalho.
Para nós que trabalhamos com essa selva de teias, qual o impacto? O que muda? Vamos ter que repensar nossa maneira de fazer sites, de criar serviços, de pensar em ações de comunicação?
Sim, e rápido. A menos que queiramos ficar de tanga escutando gorilas
Posted by renedepaula at 9:50 PM
outubro 16, 2005
Dicas de dança por um peso-pesado
Você vai ficando mais velho e o que era elogio passa a te deixar com
um pé atrás. Por exemplo: ser um profissional "sênior" indica uma
trajetória profissional longa e rica ou quer dizer que... por decurso
de prazo você já virou um "ex-jovem"?
E ser um "peso-pesado"? Significa que você precisa retomar a dieta
a-go-ra ou que a sua atuação é poderosa e faz diferença no jogo de
forças?
Pelo sim, pelo não, essa semana eu me inscrevo numa academia. :)
Se você não for tão sênior assim talvez nunca tenha ouvido falar de um
peso-pesado magnífico, o Cassius Clay. Já? Não? Mohammed Ali, então?
Também não? Céus... quem mandou eu ter 40 anos, enfim?
Vamos lá: Mohammed Ali e Cassius Clay são o mesmo pugilista, e o nome árabe foi adotado quando ele se converteu ao islamismo como o Cat Stevens (o que, na pré-história da minha juventude, era um gesto anti-guerra e pacifista, pasmem).
Eu ia sugerir que você pesquisasse a respeito por conta própria, mas me esqueci que a tua referência de peso-pesado deve ser algo furioso e bestial como Mike Tyson, cuja colaboração artística para a humanidade foi arrancar com os dentes uma orelha alheia, e isso não deve te animar muito.
Esqueça o Tyson. Cassius Clay era elegantíssimo no ringue, um dançarino. Mais: fora dos ringues era um ativista político, um negro consciente, um ídolo pop e, pasme, um belo frasista. É dele a frase que me inspirou esse artigo: "fly like a butterfly, but sting like a bee", voe como uma borboleta, mas ferroe como uma abelha. Lindo, não? Exceto, claro, para quem, confuso de ver aquele gigante dançando em torno de si, recebia o murro certeiro e beijava a lona.
E o que tem a ver o conselho de um boxeur com nosso ofício de zeros e uns? Simples: muitos dos grandes tapas-na-cara digitais hoje, muitas das porradas nocauteadoras no digimundo são... simples.
Não? Pense nas páginas de busca. Pense nos messengers. Pense nos blogs. Voam como borboletas, não? Você os acessa de todo lugar, em qualquer máquina, em palms, em celulares... Não importa onde, eles pousam com graça e leveza sempre. A hora que você os aciona, porém, são rápidos e certeiros. Como uma abelha. Viram só? Ou vocês pensavam que abelhinhas e flores só servem pra (não) falar de sexo?
Agora pense naqueles sites super instigante-original-multimídia que você viu uma vez só, achou lin-do, mas nunca mais usou porque ele não te agregava em nada. Well, de cara me lembro de uns 3.
Eu creio, porém, que o Cassius Clay não tenha jamais sido picado por uma abelha. Você já foi? OK, dói, mas como se não bastasse a picada, a abelha continua se batendo contra você insanamente, batendo, batendo, até morrer. Muito estranho (e contra as regras do pugilismo, imagino). Sabe por que ela faz isso? Antes de morrer, ela vai te marcando com um odor que avisa às outras abelhas que você é um inimigo. As outras abelhas sentem o cheiro que ela deixou em você e te picam também. Aí que mora o perigo: uma picada leva à muuuuuitas outras.
Tem outra grande lição aí: abelhas não só ferroam forte, mas também colaboram entre si, trocam informações, e assim derrotam qualquer inimigo. E as coisas mais bacanas que temos hoje no digimundo funcionam da mesma maneira: as "borboletas" digitais não só voam com elegância mas também se comunicam entre si. Teu messenger te avisa do email que chegou e das últimas notícias, teu webmail te avisa por SMS de uma mensagem urgente, você escolhe quais fontes de notícia tua home vai "escutar" por RSS, você compartilha teus favoritos usando metatags, você compra produtos baseado nos reviews de outros consumidores...
É assim que os pesos-pesados do digimundo estão lutando hoje, num estilo que mistura leveza, rapidez e integração. Preste atenção, compare os campeões, estude seus movimentos. E torça fervorosamente, como eu, pelos milhões de usuários que estão ganhando asas.
Posted by renedepaula at 9:47 PM
Gestão do Luxo
Se você quiser entender o Brasil volte pra escola: escolas de samba.
Eu faltei nessa aula e até hoje sinto falta.
Um dos nossos gênios da raça, Joãozinho Trinta, cercado de corpos nus e alegorias, despiu nossa brasilidade em cadeia nacional: "Quem gosta de miséria é intelectual. Povo gosta de luxo". E dá-lhe apoteoses, purpurina, plumas e samba para o mundo inteiro babar.
O "renezinho quarenta" aqui não gosta de miséria, mas eu devo confessar que essa mania toda de luxo me desconcerta. Gestão do Luxo pra cá, shopping de luxo pra lá, revistas de luxo, cafés de luxo, bancos de luxo... Tem algo esquisito aí, não? Ou sou eu que preciso ter mais jogo de cintura?
Talvez eu tenha passado tempo demais bebendo de outras fontes, fontes gringas, lendo os Jakob Nielsen e Steve Krug da vida e torcendo o nariz pra carnavalidades, leões de Cannes, prêmios e outras alegrias tupiniquins.
Talvez eu tenha me viciado na racionalidade das métricas do marketing direto, ou na fissura de otimizar resultados e tal.
Overdose de "less is more", talvez.
Preciso reler Oswald. Preciso rever a Tropicália. Quem sabe assim eu aprendo a me alimentar da racionalidade importada para transformá-la em algo que dê samba. É o mínimo que eu posso fazer, pois em torno de mim, com ou sem Oswalds e Caetanos a brasileirada toda é PHD em antropofagia.
Orkut? Dá samba. Fotolog? Entrou na roda. Podcast? Manda que a gente traça!
Essa facilidade com que adotamos novidades me desconcerta, palavra. Quando eu menos espero já perdi o pé e estou atravessando o samba. E dá-lhe repensar, sondar, fazer de tudo o que possa me trazer de volta ao compasso popular. Mas cinco minutos depois surge outra novidade e pronto, lá vamos nós de novo.
Acho que estou aprendendo algo, enfim: no digimundo "miséria" não quer dizer interface peladinha, e "luxo" não requer banda larga. Pense bem: messengers são um luxo. Orkuts e Yahoogrupos são um luxo. Uma caixinha de busca no teu browser, seja Yahoo ou Google ou MSN, são um luxo. SMS entre operadoras idem.
Pense agora nas coisas que te fazem sentir miserável: internet banking ruim é miséria. Sites com "loading" são uma miséria. "Fale conosco" que não responde é uma miséria. Softwares pesados são uma miséria.
Luxo é uma experiência rica. Experiência rica é aquela que te enriquece como ser humano.
Miséria é querer e não conseguir. Miséria é ser tratado como mais um.
Luxo não é um computador que fala: luxo é falar de graça com gente querida usando Skype.
Luxo não é uma foto de 6 megas: é tirar uma foto do teu filho com o celular e mandar direto pro Flickr para o mundo inteiro ver.
Luxo é esquecer que abismos existem. Miséria é ficar ilhado.
Rodei, rodei para enfim cair numa roda de samba, precisei chegar aos 40 para entender a sabedoria do Joãozinho Trinta.
Falta só eu ter mais ginga. Quem sabe um dia.
Enquanto isso crio passarelas e pontes e construo instrumentos para o povo delirar na avenida.
Posted by renedepaula at 9:02 PM | Comments (0)
julho 2, 2005
Como se pega um beija-flor?
OK, isso não é coisa pra se perguntar assim do nada, mas a questão quase me acerta na testa mal eu abro a porta, e voilá a dita ave em pânico se debatendo contra o teto, paredes, um furacão azulado sem freios nem juízo.
Rapidamente notei que alguém já estava se dedicando a esse problema filosófico de maneira bastante atlética, e antes que ele literalmente matasse a charada, tirei meu gato de cena. O pobre passarinho não tinha sete vidas, enfim.
Como se pega um beija-flor?, pensava eu quebrando a cabeça enquanto o pobre bicho quase quebrava a própria. De sopetão? De tocaia? Com as mãos? Com uma rede? Perto de uma criatura tão delicada eu me senti um godzilla tosco. E pensar que ele descendia de dinossauros, e não eu.
O que tem essa história a ver com nosso métier, afinal? Well, pra mim tem. Se você já teve que cativar corações e mentes e fazer com que um projeto online fluísse, sabe do que estou falando. Colaboração é avis rara, ave... do paraíso, quase.
Desenhar uma arquitetura, definir um fluxo de trabalho não é bicho de sete cabeças. Difícil é fazer sete bichos humanos não baterem cabeças ao trabalhar em conjunto.
Muitos idéias “interativas” brilhantes nunca decolam porque dependem de uma integração, de uma colaboração, de uma espontaneidade impensáveis em condições normais de temperatura (baixa) e pressão (alta). As pessoas se entocam, viram porco-espinho e os projetos atrofiam.
Gente é um bicho estranho mesmo: um mero boato faz com que cordeiros virem lobos, e o que era uma alegre colméia vira ninho de vespas. A mera suspeita de uma mudança de organograma é capaz de deixar gente sênior tão atarantada quanto meu beija-flor na cozinha. É só passar o perigo, porém... que todos somos golfinhos brincalhões de novo.
Projetos de internet não escapam dessa selva. Qualquer projeto online, qualquer mesmo, sacode estruturas. O mundo não é empresas de um lado, pessoas de outro, com a internet servindo de ponte. O mundo real é feito de feudos, tribos, tramas, times rivais e outras encrencas numa cartografia intrincada e, pior de tudo, invisível. Você só percebe que existia uma fronteira depois que pisou no campo minado.
Information highway? Eu só vejo buraqueira, semáforos quebrados e gente em fila dupla.
Mas... qual a saída? Engrenar a tração nas 4 rodas e forçar o motor? Acredite: a menos que você queira fundir motores e cérebros, não.
A primeira medida é... medir o terreno. Avalie muito bem quais são os interesses em jogo, que resultados são realmente críticos e quais os fatores que podem levar o projeto à ruína. Falta de verbas? Custo crescente? Estouro de prazo? Refaça a tua rota para não ficar no mato sem cachorro.
Segunda medida: casting. Como numa peça de teatro ou filme, um projeto online precisa de atores, gente que reme, fique no timão, gente que ice as velas. Investigue com carinho se as pessoas são aptas a tocar esse barco.
OK, a essa altura teu projeto já tem motor, airbags, piloto, navegador e o tanque cheio de combu$tível. Mas que o impede essa turma de desencanar e ir para o litoral norte ser feliz? Simples: envolvimento. Eis aí nossa ave fugidia, nosso beija-flor assustado.
Todo começo de projeto online parece sala de aula: sempre um ou dois levantam a mão ansiosos por responder, enquanto uma turma enorme faz cara de paisagem. Teu projeto também vai ter um ou dois entusiastas, mas ainda falta cativar o resto das tribos.
Aí está o segredo: as malditas tribos.
Mas por mais que a gente se feche em tribos (atendimento x criação, comercial x desenvolvimento, TI x marketing), tribos são feitas de pessoas, e pessoas são muito mais ricas e complexas e interessantes do que um mero rótulo. Veja teus amigos no orkut: você sempre se surpreende por descobrir que um conhecido teu, de outra tribo completamente distinta, também está na comunidade “eu adoro pizza amanhecida”. Quem diria... Outro colega teu de departamento, tímido e fechado, é popularíssimo numa comunidade forrada de conhecidos do outro andar. Ora vejam...
Se você criar oportunidades e propiciar o clima adequado, as pessoas saem da toca e criam novos laços, novas afinidades, e perdem a vergonha de levantar a mão e vir à lousa.
Não é fácil não, mas compensa. É um processo delicado, que requer sensibilidade, justiça e alguém que transite livremente. Mais importante ainda: alguém que saiba reconhecer, valorizar e incentivar as atitudes pró-ativas, generosas. Em pouco tempo surge algo definitivamente maior que a soma das partes: colaboração, sinergia, fecundidade.
Vale a pena. Eu juro que vale. Digo isso com uma gata rajada se espreguiçando ao meu lado, gata sem dono que inexplicavelmente confiou em mim, entrou conosco no chalé e passou boas horas no meu colo diante da lareira. Um dengo. Que diferença do meu gato maldoso que quase enfartou um beija-flor desnorteado.
Falando nele... como eu peguei o beija-flor? Nem sei. Sentei por uns bons trinta minutos ali, tranqüilo, esperando que em algum momento ele se acalmasse e aceitasse minha mão. Uma bela hora eu lhe estendi com calma um apoio, ele pousou ali e eu lentamente o levei até a janela. Lá se foi ele.
Deve haver outras maneiras, imagino. Mas isso é o que eu soube fazer: me desarmar e estender a mão.
Os dinossauros acabaram virando pássaros. Se você facilitar, pessoas também criam asas.
Posted by renedepaula at 8:14 PM
Era só bala que avoava!
Dias atrás reencontrei bons e velhos amigos, gente que não via faz tempo, alguns há quase dez anos. Muitas risadas, lembranças queridas, pizza, brindes... e uma percepção geral: a grande história que vivemos juntos não entrou para a história.
“Devíamos escrever um livro!”, alguém arriscou. “Um documentário!”, sugeriu outro. Eu calei. Para mim sempre foi claro que algumas histórias, boas ou não, nunca vão mais longe do que a mesa de um bar (ou um divã de psicanalista). São complexas demais, são intensas demais, são revolucionárias demais. Ou você as viveu, ou não.
Você já deve estar pensando que a grande história injustiçada é a saga de alguma pontocom extinta, ou de alguma campanha online tresloucada, ou de algum projeto digital ensandecido. Lamento, mas não. Estávamos relembrando nossos tempos de telejornalismo, nosso tempo de Aqui Agora. (Sim, eu trabalhei no Aqui Agora).
Espero não ter decepcionado ninguém. Quem trabalha com internet tende a achar que esse ramo é o clímax da loucura, do corre-corre, que existe um “internet timing”, que existe um pique, uma agilidade, uma urgência que são marca registrada e monopólio desse métier.
Sorry, mas eu não caio mais nesse papo. A tal “loucura” do trabalho online é loucura sim, mas loucura nossa. Não precisava ser assim. Não deve ser assim. Se é assim, é por consenso mútuo entre adultos sem juízo.
Quer uma prova? Então inspire-se nos seriados CSI ou Without a Trace, vista a camisa do Gil Gomes e tente reescrever a tragédia de um job através das provas.
Primeiro mistério: quase não há provas. “O cliente estava com pressa e passou o briefing por telefone”, ou “Ele me pediu isso via messenger”. Mas... você não cumpriu o seu papel e colocou esse briefing no papel, ou ao menos num email de confirmação? “Não dava tempo”.
Segundo mistério: os tempos “não batem”. A tal da “pressa internética” parece que só existe no pontapé inicial e em pontapés no traseiro quando o job atrasa. Entre o chute inicial e os chutes derradeiros, é um festival de demoras, tropeços, passos intrincados de tango e uma alternância de pés em cima da mesa e pisadas nos calos. Os ritmos começam a atravessar logo de cara, o descompasso é crescente e os prazos começam a enforcar todo mundo.
Terceiro mistério: o motivo. Como ninguém registrou nada, como as bolas que vieram quadradas seguiram quadradas e, sobretudo, como ninguém manifestou suas dúvidas a tempo, no final ninguém sabe mais qual era a finalidade essencial do job. Sem saber o propósito do trabalho, o resultado são tiros no escuro. Se alguém acertar o alvo, foi não-intencional.
Quarto mistério: temos um serial killer. Jobs inocentes acabam esquartejados a cada semana, a cada mês, e o padrão é sempre o mesmo. De vez em quando tem sangue na parede, cabeças rolam, mas no geral temos o que a polícia mui sabiamente categoriza como desinteligência. E tá lá o job estendido no chão.
Para acabar com essa onda de jobicídios, só tem um remédio: tolerância zero. Nada de briefings por telefone, nada de pedidos em mesa de happy hour, nada de solicitações por messenger. Briefing tem que vir por escrito, tem que ficar registrado, tem que ser devidamente documentado. Briefing tem que ser completo, briefing tem que vir redondo.
Informalidade e subserviência frente a um cliente queima o teu próprio filme: jamais vão te considerar como um profissional sério. Quem é profissional e maduro exige processos, exige metodologia.
Não há caminho do meio: ou teu job acaba numa história do Gil Gomes, ou com a benção do Russomano: “sendo bom para ambas as partes...”. Seriedade já, aqui e agora.
Posted by renedepaula at 8:13 PM
Lenda viva, muito viva
A lenda é mais ou menos assim: na legendária aula inicial, o grande mestre distribui a seus discípulos (todos novatos) folhas de papel e diz “Construam”. E sai.
O desafio era heróico. A escola era, afinal, lendária, seus professores idem, e muitos do que saiu dali (homens e idéias) mudariam o mundo.
Quando o mestre volta há uma torre Eiffel de papel, uma catedral gótica de papel e... algo inusitado: um grupo dobrou uma folha em V, inverteu-a e a apoiou na mesa, como uma tenda. Comparado aos outros projetos, é quase uma afronta.
O mestre disse:
- Catedrais góticas são o apogeu da pedra. É a construção mais luminosa, mais vertiginosa que jamais se fez em pedra. A torre Eiffel, por outro lado, é o triunfo do ferro: só quando dominamos os segredos do ferro pudemos fazer uma estrutura assim. Já essa tenda de papel, tão singela, explora aquilo de que só o papel é capaz: ser dobrado com as mãos e sustentar sua forma com leveza e graça.
Os outros dois grupos tentaram usar o papel para imitar outros materias. Já esse grupo entendeu a natureza do papel e a expressou com perfeição.
Não sei se você já pensou nisso, mas quando se começa a trabalhar com internet o que te jogam na mão é mais delicado que papel: um “material” tênue, flexível, quase transparente. E aí, o que dá para fazer com isso?
Assim como com o papel da lenda, dá para se fazer muita coisa, sobretudo besteiras. Nos primórdios, quando conexão de 28k era um luxo, já se faziam shockwaves elaborados, streaming video, audio, games em java... Imagine, então, quando tivermos banda larga, pensava-se.
Em pouco tempo “construir” passou a ser... usar flash. Que maravilha! Originalidade, impacto, complexidade, tudo isso sem pesar as toneladas de antes. Agora sim estávamos fazendo coisas “interativas” sem ter que esperar pela terra prometida... da banda larga.
Assim como o guru da lenda, eu já fazia meus apartes: coisas pesadonas assim, imersivas, multimídia, são usos pobres dessa novidade. Isso CD-ROM já fazia, TV já fazia, rádio já fazia... e melhor. Usar internet pra isso é fazer catedrais de papier-maché, é usar internet como cano estreito para despejar conteúdo. E sonhar com banda lardar era ficar fascinado com o dedo que aponta a lua, e não ver a lua.
Um dia os Google’s, Yahoo’s, Radio Userland e Orkut’s da vida nos deram um tapa na cara dizendo “acordem, manés”. Diante de nossos olhos estavam enfim usos inteligentes, bem-bolados, elegantes de tudo aquilo que esse nosso papel hiper-dobrável era capaz de fazer.
Mas afinal... do que esse nosso papel é capaz?
Ele é capaz, sobretudo, de criar pontes. No nosso ofício, só cria ilhas quem quer ou está mal-informado. E, claro, só está mal informado quem quer.
Aprender a lição desses mestres não é fácil não.
Por exemplo: RSS. Eu demorei um bom tempo para entender que diabos era isso, mas hoje todos os meus blogs estão compatíveis. Idem para podcasting: meu audioblog também está preparado. Quem quiser acompanhar o que eu publico, é só usar um bom leitor de RSS (tem pra windows, mac, pocketpc, palm...).
Pra descomplicar: RSS é uma maneira de você disponibilizar conteúdo. Eu publico um post no meu blog, e automaticamente ele gera um arquivinho com um resumo do que eu publiquei. Esse arquivinho sempre “fresco” pode ser lido e importado de um monte de jeitos. Se você usa o blogger, ou usa o movable type, ou muitas outras soluções de publicação, elas geram RSS automaticamente. E para você acompanhar vários RSS ao mesmo tempo, eu sugiro o Awasu, gratuito e legal (www.awasu.com)
Uma vez que meus blogs e coisas online todas estavam compatíveis com RSS, criei uma página que mostra de uma só vez, automaticamente, as últimas novidades de todos os meus blogs. Eu publico uma foto nova? Aparece lá. Um post novo? Idem. Quem quiser ter uma visão geral do que eu ando fazendo, vê tudo no www.usina.com/varal.
Mais: quem quiser inserir no seu próprio site chamadas para o que eu publico, é só usar meus RSS também.
Quer ver quem faz isso em larga escala? O Yahoo. A home do My Yahoo permite você adicionar blocos de conteúdo de outros sites. Basta eles gerarem... RSS. Veja o site da BBC. CNN. Veja o site... da MSN. Todos eles tem um linkzinho em algum lugar para o RSS. Veja que belo esforço o do projeto RSSficado (http://www.rssficado.com.br )
Eu fico encantado: conteúdo sendo distribuído e publicado e trocado e disponibilizado automaticamente, seja para que plataforma for, seja para que sistema for. Pessoas misturando conteúdos de todo canto, pessoas disponibilizando seu trabalho em todas as direções. A tal da web finalmente começa a ter cara de... spider web.
Procure descobrir mais sobre RSS. Aventure-se, explore. Vale a pena.
Voltando à nossa lenda: a escola era a Bauhaus em Weimar, Alemanha. O mestre? Josef Albers. Quando? Lá se vão oitenta anos mais ou menos. O prédio em que você está, a cadeira em que você se senta, tua caneta, muito do nosso repertório cotidiano vem de lá. Pesquise na Wikipedia, vale a pena (www.wikipedia.org , outro belo projeto colaborativo).
Gosto muito dessa lenda. Lenda boa é assim: não tem gnomos, princesas nem bruxos. Lenda boa tem homens, coragem e, sobretudo, a esperança de um final feliz para muita gente. Isso sim é mágico.
Posted by renedepaula at 8:11 PM
DIÁRIO DE BORDO
San Francisco, Califórnia
- Vocês estão procurando algo? Posso ajudá-los?
Tirei meus olhos do mapa amarrotado e ali estava ele, sorridente. Perguntei por uma casa vitoriana XYZ que deveria ficar nas imediações. O moço a conhecia sim, era na rua de cima à esquerda, coisa simples. Agradeci pela solicitude e hospitalidade e pensei comigo: esse cara é o Google 2.0.
Miami, Flórida
Vishal me deu uma carona. Veeranna também veio conosco. No carro, comentávamos felizes o jantar indiano comme il faut que Lalitha nos oferecera. Perguntei ao Vishal se ele gostava da cidade, se ele gostava da América. Enquanto dirigia pela noite tranqüila, me disse que tanto fazia Miami, San Diego ou qualquer outra cidade, dava mais ou menos na mesma. Encontrar lugar para morar, achar trabalho, fazer compras, dirigir, tudo na vida cotidiana era o mesmo, tudo funcionava igual. “Sistema americano” foi a palavra que ele usou. Você pode mudar de cidade sem pestanejar, porque o sistema é o mesmo. Insisti: “vocês não estranham nada?”.
- Claro! As maçanetas. Aqui são ao contrário!
Rindo, Veeranna acrescentou:
- Os interruptores também! Aqui são de cabeça para baixo!
São Paulo
- Rua Manoel Maria Tourinho? Deixa comigo.
Pacaembu eu conhecia bem. Aquilo era um labirinto, ruazinhas sinuosas serpenteando bairro adentro num traçado perverso que eu só aprendi depois de anos morando na área. De casual, porém, o desenho do bairro não tinha nada: foi um truque urbanístico para que as ruas não virassem um corredor de tráfego, para que as casas ficassem sossegadas numa ilha impenetrável aos motoristas de fora.
Adoro cidades. Adoro. E quanto mais eu trabalho no digimundo, mais eu vejo que estamos de novo erguendo cidades, metrópoles, bairros, malls... sem tijolo algum. Cidades Invisíveis, do Calvino, está ganhando um adendo. (Você não leu? Leia. Releia.)
Esse paralelismo cidades x internet me fascina faz um bom tempo. A primeira coisa que me ocorreu foi mais pobre, porém: pensava no quanto webdesign e arquitetura eram parecidos: a home e a fachada, o sitemap e a planta, e por aí vai. Não é de se espantar que se fale em arquitetura de informação, afinal.
A analogia não ajuda muito, porém: se você quiser fazer sua casa redonda, é problema seu. O vizinho fez uma palafita? Azar o dele. A casa em frente vai ser inteira cor-de-rosa, paredes e teto? Sorte sua que você não vai morar lá.
Muito do que se fez de webdesign, no começo, era assim: cada site era a cara do dono, cada site era original, homes competiam em originalidade e impacto.
Algo, felizmente, nos salvou desse festival de bizarrices. Google. E por três razões.
Primeira razão: sites demais. Antes dava para “navegar” a esmo, checar alguma lista de hot links e topar com o que você queria. Agora não dá mais.
Segunda razão: se o conteúdo do teu site é invisível para o Google (arrá!!! Quem mandou fazer em flash?), teu site vai passar batido, a menos para internautas paranormais.
Terceira razão: uma busca no Google traz dezenas de resultados. Se tua página for bizarra, se não for imediatamente compreensível e usável, o usuário clica, rejeita, volta atrás e tenta outro mais fácil.
Adeus condomínios fechados. Adeus aldeiazinhas e tribos. Adeus ilhas da fantasia. Google é o novo Robert Moses do digimundo. (Não sabe quem é? Confira... no Google)
Hoje não penso mais em arquitetura. Hoje penso em urbanismo. Na minha cabeceira, hoje, está Vida e Morte das Grandes Cidades, da Jane Jacobs. Meus assuntos de interesse, hoje, são softwares sociais, padrões emergentes e, como sempre, usabilidade.
Cidades são complexas. Cidades são imprevisíveis. Cidades desafiam qualquer tentativa de controle. Internet é igual: o email favelizou-se, sites de banco são fortalezas anti-fraude, o Orkut já não é mais “entre amigos”, homes são pichadas por vândalos.
Como evitar que a internet degenere? Como criar ambientes online que sejam dignos, que enriqueçam a vida das pessoas? Como tornar a vida digital mais humana? Como usar esse universo em favor da democracia e liberdade? Como desarmar o egoísmo para que a colaboração floresça?
Essas são as questões que eu me coloco hoje, seja ao esboçar um novo projeto, seja na escolha de um ou outro layout, seja na hora de comprar um gadget. É isso que me orienta quando modero uma comunidade.
Pensar grande não é pensar pirâmides ou monumentos. Pensar grande é pensar em como manter as calçadas do digimundo gostosas, seguras, e plurais.
Essa é a nossa natureza.
Posted by renedepaula at 8:09 PM
abril 6, 2005
Palavrão com P maiúsculo
artigo para revista webdesign
Eu percebo que estou ficando jurássico quando vejo que meus palavrões mais caros, justo aqueles que viraram advérbios (para ****, do **) ou viraram minhas “vírgulas” (****), hoje caem mal como um pum.
O mais interessante dos palavrões é que muitos deles homenageiam o que todo mundo tem, ou o que todo mundo faz. Por que *** será que são “feios”?
Estamos em pleno verão, carnaval, e vou me despir dos meus pudores rotineiros. Tape os seus ouvidos e olhos, porque vou soltar um palavrão aqui: Política.
Repetindo de boca cheia y con mucho gusto: Po-lí-ti-ca. Eu faço, você faz, todos fazemos. Freud que me perdoe, mas ainda acho que política nos move mais que tesão. Ditadores velhotes podem precisar de viagras pra sexo, mas pra política estão sempre a postos.
Você não faz política? Siiiiim, você faz. Se você decidiu não fazer política... essa é uma política também. A maneira como você se veste é política. As gírias que você usa. As tuas comunidades no orkut. Comprar um iPod. Não comprar um iPod. Fechar os olhos, abrir os olhos, dar o braço, apertar o passo, largar a mão. Tudo é política.
Sei que não costumamos pensar assim e que esse parece ser um território da estética, da ética, da moral ou gosto. Mas se isso impacta outras pessoas agora ou no futuro, então é política. Ponto.
Pode ficar tranqüilo: não vou questionar teu corte de cabelo, nem tua vida noturna. Por uma decisão política antiga e teimosa, eu vou bater na mesma tecla de sempre: seu trabalho no digimundo.
Eu trabalhava em TV, antes. Quando você percebe que teu trabalho entra sem pedir licença na sala de uma nação, dá um frio na barriga. Você está fazendo parte da vida, das referências, das memórias de milhões de pessoas.
Ok, não estou mais em mídia de massa. Ou estou/estamos?
Eu, por postura... política, prefiro pensar que sim, com um agravante: mídia INTERATIVA para massas. Estou conferindo a milhões um poder que elas nunca tiveram. Estou dando para meus contemporâneos e descendentes mais controle sobre seu próprio destino. Estamos no mesmo barco de Gutemberg e... Pronto: falei que política dá tesão? Já me empolguei.
Voltando ao que nos une, o nosso ofício: qual tua postura política? Aqui vai um check-up:
* você faz coisas só para privilegiados ou todos podem usar?
* Você compartilha o que você aprende?
* Outros podem usar teu trabalho?
* Teu trabalho está aberto a comentários e participação ou é fechado?
* Teu trabalho tem escalabilidade? O que acontece se milhões o utilizarem?
* Teu trabalho gera riqueza social ou é parasitário?
* Teu trabalho dá crédito para quem colaborou?
* Quem paga as contas do teu trabalho?
* Teu trabalho pode servir como base para um futuro melhor?
* Teu trabalho pode evoluir e se adaptar ou vai virar relíquia?
* O fruto do teu trabalho germina e dá frutos ou “estraga” depois de um tempo?
* Teu trabalho “conversa” com todas as plataformas ou é uma ilha sem pontes?
* Dá pra encaixar teu trabalho em trabalhos maiores ou ele é “stand-alone”?
* Teu trabalho reflete a tua visão de mundo ou a dos teus usuários?
* Quem você escuta antes de criar? Gurus, inspirações ou... gente de verdade?
E por aí vai. Decisões altamente políticas em cada interface que você cria, em cada solução que você propõe, em cada gif, flash, javascript, mapa, tudo.
Claro que você pode achar isso “chato”, e querer ser parâmetro de tudo, ou querer ser genial, engraçadinho, irreverente, enfant-terrible, etc.. Para isso tem outro palavrão da década de 60: inocente útil.
Eu tenho uma bandeira: power to the people. Se quiser fazer parte, o prazer é nosso, pra ***.
Posted by renedepaula at 1:13 PM
O gênio da página
artigo escrito para a revista Webdesign
Memórias brasileiras têm um gosto indefinível, misto de doçura e de absurdo, de picante e suculento, gostos de dar água na boca e que te trazem palavras fortes na ponta da língua, mas antes que você as enquadre as palavras te driblam o verbo e lá se foi o discurso, a história, a prosa.
Não somos um país sem memória. Memória não falta, o que falta é colocá-las na linha, em linhas, em blocos comportados longe do carnaval das entrelinhas e da folia do não-dito. Haja jogo-de-cintura para se fazer um balanço nesta terra sem perder o rebolado.
A repórter perguntou: “General, o senhor poderia fazer um balanço do seu governo?”.
Figueiredo não hesitou. Diante das câmeras e dos olhos da nação balançou pra cá, pra lá e disse: “Está bom assim?”
(Creio que foi assim mesmo, creio ainda que absurdo, creio com fé vacilante na minha memória idem).
Há balanços mais tentadores do que o de um general irreverente -Vinicius que o diga - mas a tentação de se fazer balanços numa hora como essa é quase irresistível, ainda mais quando um ano se encerra e pede um epitáfio, um rótulo, uma elegia.
Balanços têm sempre um eixo, e girando em torno do título desta revista eu proclamo: esse foi um excelente ano para o webdesign, sobretudo porque foi um péssimo ano para o webdesign ou, ao menos, para o que se costumava encarar como webdesign.
(Well, quem sou eu para falar em webdesign se nem designer eu sou... mas é que esse ano me fez perguntar: o que eu sou mesmo? O que eu deveria ter feito e pelo visto ainda não sei fazer? O que eu vou ser no ano que vem?)
Acabei esse ano deliciosamente desnorteado, abençoado por experiências que jogaram pro alto toda minha experiência, e que me forçaram a perceber que esse nosso ofício tem que se reinventar de cabo a rabo.
Reveja 2004 e veja o Google. Veja os filhotes do Google: Google Desktop, Google Adsense, Google Gmail, Google Picasa. Google via SMS, via WAP. Que webdesign é esse, que fez um logo, uma caixa de texto e um botão de submit virarem a chave para o inumerável?
Veja o Yahoo. Veja as facetas do Yahoo: messenger, chat por voz, webmail, grupos, mobile, porta-arquivos, agenda online, bookmarks online. Veja o Skype.
Veja o Orkut. Veja os blogs. Veja o SMS. Veja a integração do iPod com o iTunes e com a loja online da Apple.
Há algo maior tomando corpo, se infiltrando nas nossas vidas, redefinindo a maneira como trabalhamos, vivemos e vemos o mundo. Algo que não se restringe a interfaces instigantes, criatividade gratuita ou interatividade de araque. Algo que não espera pela benção da academia, nem pelo champagne de publicitários. Algo que não é privilégio de descolados ou de gente com cabelo esquisito. Coisas com siglas anônimas que nos tornam mais humanos, mais dignos, naturais, letras mudas que nos dão mais voz. Um mundo inteiro de integração, de transparência, de agilidade, um universo inédito que parece com tudo o que eu sempre sonhei mas com nada que eu soubesse fazer ou criar.
Reveja tudo isso que te é tão caro no digimundo e me responda: que webdesign é esse, que nos faz mais completos, mais humanos, mais criativos? Usaram Flash, applets, DHTML? Usaram a cabeça, e pensaram... com a cabeça dos usuários. Pensaram naquilo que os usuários pensam, e pensaram em como fazer coisas fáceis de usar, páginas que fossem como o gênio da lâmpada: você pede, ela faz.
Gênios de historinha concedem três desejos sempre, e se vocês me concederem essa honra, coloco aqui meus 3 desejos para o nosso ofício:
* Desejo que aprendamos a satisfazer desejos reais, e não a inventar desejos vazios
* Desejo que desejos possam ser atendidos a qualquer momento e em qualquer lugar, não só na frente de um desktop de 30 quilos.
* Desejo que milhões desejem milhões de desejos, e que não precisem de gênios para realizá-los
Nós, brasileiros, já demos os primeiros passos.Veja o case mundial de e-governo que é o Brasil. Veja os telecentros da prefeitura de SP.
Estamos num momento mágico, e que pede novos gênios que não cruzem os braços como a Jeannie e fechem os olhinhos, mas que saiam dos oásis e arregacem as mangas.
Mãos à obra.
Posted by renedepaula at 1:12 PM
Super Size Web
artigo pra revista Webdesign
Uma pergunta de quinze quilos: por que será que escolheram o @ e não outro símbolo qualquer? Arroba pesa.
Quem sabe se tivessem escolhido outro símbolo esse nosso digimundo não pesaria tanto, quem sabe assim não teríamos que avançar léguas... polegada por polegada.
Símbolos por símbolos, poderiam ter usado o &. Quando clientes briefam um projeto, normalmente querem isso & aquilo & aquilo também & um fórum & chat & o maior portal do setor, tudo isso @ um preço e prazo ***, enquanto você pensa consigo mesmo: #!%&!!!
Nesse buffet por quilo do digimundo deveríamos alertar os clientes gulosos: escolha com moderação; excessos são prejudiciais a saúde.
Pensando melhor, acho que o aviso vai passar batido: quem arca com ônus dessa gula é o usuário, aquela figura mítica e invisível que paga os pecados do digimundo, amém. É o usuário que vai engolir o vinho azedo e o pão dormido de um site abandonado, é ele que vai passar pelo vale das sombras para encontrar o que quer, é ele quem vai esperar o juízo final para receber uma resposta por email, é ele que vai ter que rezar pra a intro em flash acabar logo.
Essa gula clientélica não é privilégio da internet: 99% das pessoas ignora 99% das funções do celular que escolheu, do software que instalou, do home theater que comprou... Mas até aí é livre-arbítrio, são pecadilhos de foro íntimo que não fazem da vida alheia um inferno.
Já com inFernet... a tentação de um é a perdição de muitos.
De que tamanho tem que ser o seu site? A resposta é simples: do tamanho do seu tempo. Sites são ainda mais gulosos que você, e em pouco tempo vão devorar seus recursos, suas horas extras, seu orçamento... a menos que você crie um site domesticável, que você dê conta.
Se você ainda continua pensando grande, lá vão pequenas perguntas:
* Quem vai responder os emails?
* Quem vai ver se o site está com o tráfego normal?
* Quem vai perceber que o site foi hackeado sábado às três da manhã?
* E quem vai "consertar" o site hackeado a tempo?
* Quem vai back-upear o site regularmente?
* Quem vai atualizar as notícias?
* Quem vai criar e disparar as newsletters?
* Quem vai cuidar de banners e mídia online?
* Quem vai extrair alguma inteligência dos dados de tráfego e transações?
* Quem vai checar se nao publicaram alguma atrocidade no forum?
* Quem vai trazer de volta os usuários que sumiram?
* Quem vai...? E por aí vai.
Cada feature no seu site tem dois lados: é um serviço a mais para o usuário mas é uma responsabilidade a mais para você, uma responsabilidade 24 horas por dia, 7 dias por semana, sem feriado nem descanso. Para dar conta dessa demanda você tem três caminhos: investir recursos (que nunca ninguém tem), não dar conta (e o usuário incomodado que se mude) ou simplesmente... cortar o mal pela raiz, descartando aquilo que é definitivamente um tiro no pé.
Ok, ok, a tentação é grande sempre, a vontade é abraçar o digimundo com as pernas e ter olhos maiores que o mouse (ou o bolso). Mas pense como usuário: é melhor um site cheio dos truques mas mosca-morta, ou um site enxuto, focado, que cumpre o que promete? Eu fico com o segundo: é sempre preferível surpreender com o over-delivering do que frustrar com overpromising.
(Talvez um bom título pra história do digimundo fosse "A Insustentável Leveza da Web").
Tempos atrás um conhecido me recomendou os serviços de um fornecedor de marketing direto digital. O cara é um gênio, disse ele. Anotei a dica, e mais tarde fui consultar a URL.
O site tinha uma página. Um logo, o nome da marca, uma frase, e um endereço de email. Só.
Realmente o cara era um gênio. Esse vai pro céu.
Posted by renedepaula at 1:11 PM
Imaginação Fértil
artigo para revista Webdesign
- Calma. Vamos rabiscar no papel, antes.
Ele me olhou com estranheza. O software já estava ali, engatilhado, pronto para receber de braços abertos nosso furor criativo, nosso ímpeto realizador, nossa... precipitação desastrada.
Quando o assunto é criar, somos como maus amantes: partimos para as vias de fato sem cerimônia alguma, sem preliminares, sem nada.
Dá para se conceber assim? Claro que dá, mas prepare-se para um gestação tumultuada e um parto sofrido.
O mal dos softwares autorais é esse: eles te enganam. Nenhum photoshop, dreamweaver, powerpoint te pergunta: "O que você quer de mim?". Que nada: em todos eles começamos com a cabeça tão vazia quanto a tela nova.
Para alguns processos "autorais" isso pode ser um bom começo. Se você for um poeta beat, se você for um James Joyce reencarnado registrando seu stream of conciousness, se você for um Pollock e quiser jogar coisas a esmo para ver no que dá... Nesses casos o processo "vamuquivamu" pode ser esplêndido, mas se for essa a sua praia eu te sugiro procurar outra revista (ou um articulista menos crica).
Essa liberdade infinita que um software nos dá mascara uma limitação básica: aquele software é capaz de cuspir alguns tipos de coisas, mas quem garante que são as coisas de que precisamos? A solução para o seu problema pode não ser um JPG, pode ser um email bem estruturado. A chave para resolver uma questão pode ser um mero telefonema, e não uma campanha elaborada de email marketing. Ou pode ser... não fazer nada a respeito. Por isso é bom parar por um momento, levantar da sua baia e ir buscar lápis e papel para rabiscar um esquema realmente inovador.
Inovação nasce assim, nasce fora dos caminhos batidos. Grandes idéias são grandes já no rascunho, em rabiscos feitos no guardanapo do restaurante. Se depois disso você vai usar o software X ou Y, macs ou PC's, tanto faz. Ou você acha que "Garota de Ipanema" foi escrita usando a última versão do Office num Tablet PC wireless na mesa do bar?
Softwares viciam a gente. Nunca vou me esquecer de uma frase colada no monitor de uma colega, anos atrás: "De tanto carregar um martelo, você acaba achando que tudo é prego". Well, acho que a frase era mais bem construída, mas você pegou a idéia: nem tudo se traduz em planilhas, em classes Java, nem sempre a solução é um repeteco do que você sempre fez.
Anos atrás, o que eu mais ouvia era: "Preciso aprender internet... Que curso de Flash você me recomenda?". Era de arrepiar. E dá-lhe gente disparando SWF pra todo lado, como se a panacéia universal fosse interatividades misteriosas e sons em loop.
Por sorte a paisagem hoje é outra, e não faltam boas opções para quem quer "aprender internet". Mas o problema persiste: e se a solução não for só internet?
Se pensarmos só em termos de internet, como vamos criar aquilo que virá depois da internet?
Há alguns anos todo projeto mirabolante pressupunha que nosso futuro era a atrofia completa, uma humanidade sentada, com nariz colado em monitores e sorrindo por emoticons. Felizmente alguém teve a saudável percepção de que somos bípedes, gregários, afetivos, e que celulares com câmera poderiam ser mais libertadores e revolucionários do que um hipercomputador no meio do living.
Alguns softwares, porém, te ajudam a pensar, a organizar melhor as idéias. Eu sou um dependente terminal do MindManager (http://www.mindmanager.com), que me permite primeiro organizar pensamentos soltos e depois agrupá-los, conectá-los e enfim exportá-los em vários formatos diferentes. Há também o The Brain (http://www.thebrain.com) ou o Inspiration (http://www.inspiration.com), ou mesmo os outliners do Word ou Powerpoint.
O mais importante, seja qual for a ferramenta, é que você conceba algo abrangente, consistente, bem costurado, e que só então você decida qual a melhor maneira de realizar a o que você imaginou.
Namore muito sua idéia, muito. Só assim vamos fazer nascer projetos que fecundem pessoas, que nos tornem mais férteis.
Posted by renedepaula at 1:10 PM
Teste da Anta
artigo para a revista Webdesign
O site era bárbaro, ficamos todos boquiabertos. Nos idos de 98 não havia muitos sites como aquele. Hoje hot-sites de produto em flash e tal são carne de vaca, mas na época nem se falava em hot-site e as coisas eram feitas em shockwave mesmo.
Bacana mesmo é que o site era a cara do produto, um carro originalíssimo, bem-humorado, cool. Site legal, carro legal, tudo super promissor não fosse por um... alce.
Alce é um bicho descomunal, enorme, que faz vaca parecer pônei. Parece que tem muito nos países nórdicos, tem tantos que um dos testes de segurança para um carro é o "teste do alce".
O teste é mais ou menos assim: você está numa estrada dirigindo feliz e contente em alta velocidade. E se um alce surge do nada?
Well, frente a essa pergunta o carrinho deu a resposta errada: capotou feio. Nem sei se o motorista se machucou, mas o acidente foi fatal pra carreira do modelo. Acho que agora relançaram e tal, vi um outro dia. Mas o alce deixou sua pegada na história automobilística.
"E se...?" não é uma pergunta que brasileiros gostam de fazer. Deus é brasileiro, não é? Por que se preocupar?
Os crentes que me perdoem, mas internet é diabólica. Devia se chamar inFernet. Não há anjos da guarda, não adianta rezar, e nenhuma vela de sete dias espanta hacker.
Em suma: algo vai dar errado. Sempre. E é nessas horas que você distingue o bom profissional da anta: diante de um desastre, ele capota ou reage a tempo?
Por que erros acontecem tanto? Por conta da inelutável Lei de Murphy, "se algo pode dar errado, dará"? Sim, mas por outra razão mais positiva: a cada dia que passa, projetos interativos envolvem mais e mais "frentes": email, call center, negócios, conteúdo, CRM... Cada frente dessas tem mil "alces" na tocaia.
Quer um exemplo? Você tem dois fornecedores "de internet" pra escolher. Cada um traz um projeto mais bacaninha que o outro. Como escolher? Joga um alce na pista:
- e se o projeto der super certo e tivermos milhares de usuários entrando ao mesmo tempo?
ou
- e se todos os visitantes ficarem tão impressionados que vão mandar zilhões de emails?
ou
- e se não dermos conta dos pedidos?
ou
- e se o seu designer ganhar um prêmio e mudar pra Londres?
ou
- e se eu quiser atualizar o site de meia em meia hora?
Como você pode ver, sucesso em excesso também dá encrenca. E por mais que os fornecedores prometam maravilhas, nem todos estão preparados para o tranco do "dar certo demais"
Se problemas vão acontecer quer a gente se previna ou não, porque a gente não relaxa de uma vez? Sim, você pode relaxar e gozar, mas de preferência bem longe de mim.
Problemas "conhecidos" a gente previne de saída. Experiências anteriores (e cicatrizes e calos) ajudam muito, mas um bom exercício de "e se..." pode prevenir muita coisa.
Por exemplo: você recebe um layout todo diagramadinho, alinhadinho e tal. Com um pouco de imaginação, você se pergunta: e se esse texto for muito maior? E se a foto vier num tamanho maior? E se eu precisar tirar esse conteúdo no ar rapidamente? E se eu tiver que alterar alguma coisa no meio da madrugada? E se o usuário digitar errado o endereço? E se o usuário apertar o BACK? E se o usuário adicionar essa página ao bookmark? E se o usuário preferir telefonar?
Alces não faltam.
Há perguntas mais dramáticas: e se o fornecedor falir? E se tivermos problemas depois do projeto estar entregue? E se o fornecedor não cumprir o prometido? E se forem necessárias alterações? E se for preciso migrar de hospedagem?
Antes de se encantar com discursos "legais", "cool" e "criativos", veja se o airbag funciona. Ou então torça para criarem recall de profissionais com defeito de fábrica.
Paranóia? Não. Ter algo online é ter uma vitrine permanente, mas vitrines são de vidro. E atire a primeira pedra quem nunca capotou.
Posted by renedepaula at 1:09 PM
verdade nua e crua
artigo para revista webdesign
Não se deixe enganar. A revista está linda, o papel é muito bom, a impressão ficou ótima... mas o articulista está nu.
Eu poderia disfarçar, te distrair, mas prefiro ser franco: você me pegou no pulo.
Eu sei, eu sei... você comprou a revista porque procura respostas, quer certezas, quer algo que te ilumine o caminho. Se você quisesse colunistas desprevenidos, teria pedido algo diferente na banca. Mas essa minha posição desconfortável pode ser instrutiva, acredite, a menos que você seja daqueles que acredita que aquele corpão pelado na capa daquela revista realmente exista, que ali não tem silicone nem photoshop, que aquela top model está realmente sorrindo pra você.
Claro que você não cai nesse truque. Você é do ramo. Eu, ao contrário das modeletes de plantão, tenho muito orgulho das minhas marquinhas, dos meus cabelos brancos. Estar assim exposto pode nem ser um belo espetáculo, mas nem por isso eu perco o rebolado.
Não espere de mim postura de professor: trabalhar com internet é aprender sempre. Por isso eu desconfio sempre de quem fala empolado, de quem tem certezas demais, de quem mais aparenta do que apresenta. Não é possível manter tanta pose quando se anda em gelo fino. Por essas e outras eu, que caí sentado aqui, te convido a tomar assento e dar uma olhada na paisagem digital.
Dispa-se por um momento das suas crenças e diga pra mim: o que é webdesign? Antes que você me responda com argumentos de decorador ou de engenheiro, eu te pergunto: nesse digimundo enorme, o que é realmente importante para você? Quais são as coisas digitais que, sem elas, você se sente nu?
Eu me exponho primeiro: as coisas digitais mais vitais para mim, hoje, não são páginas ou aparelhos. Mais vital do que tudo é como essas coisas se comunicam. Se meu palm não sincronizar com minha agenda, estou frito. Se aqui no trabalho me cortarem o yahoo messenger, nem sei o que faço. Se aquilo que eu publico nos meus blogs não for importado automaticamente para meu site por RSS, a casa cai.
Mais exemplos? Tem um site em que eu nunca mais vou comprar. O site é lindo, mas na última compra (última nos dois sentidos) eu não recebi confirmação de compra, nem estimativa de entrega e, quando liguei para cancelar o pedido, não me deram código nenhum. Fiquei no mato sem cachorro. De nada me adiantou o design clean e os produtos cool: ali eu não piso mais. A amazon não é tão linda, mas é tudo tão bem costurado e redondo que eu nem me importo se é mais caro ou não.
Webdesign não é só layout, nem se esgota na arquitetura de informação. Webdesign que funciona vai além da web. O mesmo vale para design em geral: não adianta ter algo lindo que não se integra com nada.
Cada vez mais o charme das coisas digitais não está na fachada, não está numa carinha bonita. A graça está nas teias que você constrói com elas: seu celular importa a agenda do palm e manda fotos para o teu blog, e cada vez que alguém publica um comentário você recebe um email que vai ficar para sempre armazenado no Gmail, facinho de achar.
Eu compro algo na web e recebo por SMS a confirmação do meu banco, e logo chega por email uma estimativa da entrega.
Na hora de comprar um palm novo, minha dúvida vai ser se ele conversa com minha rede sem fio, e se eu consigo conectá-lo pelo celular também. Se ele não servir na minha teia, de nada adianta ser lindo. Não quero carregar peso morto.
E aí entra a questão: alguém desenhou isso, alguém planejou e especificou isso. No Orkut, houve um momento em que alguém definiu: só se entra com convite. Em algum momento alguém especificou: o yahoo messenger tem que avisar se tem email novo.
Isso é webdesign? Que tipo de profissional mapeia essas conexões todas, quem planeja essas possibilidades todas? Que software você usa para delinear cenários de uso?
Por isso eu perco o pé, por isso às vezes fico de calça curta: à medida em que as coisas conversam entre si, fica cada vez mais complexo mapear, desenhar, planejar, administrar coisas no digimundo. Um player de mp3 pode virar a indústria da música do avesso ou não, dependendo do quanto ele conversa com a internet.
Um fórunzinho no teu site pode ser sua ruína ou o novo Orkut, dependendo de como você restringe a entrada.
Como lidar com isso? Minha dica: lápis, papel e muita atenção a tudo o que é humano. E nada é mais humano do que se relacionar, e nada é mais intrincado e fascinante do que os relacionamentos humanos.
Claro que você pode fechar os olhos e achar que design se resume ao que os olhos vêem. O que conta, meu caro, é o que o coração sente.
Sem isso, teu design vai criar teias de aranha.
Posted by renedepaula at 1:08 PM
Silêncios Esparsos
artigo publicado no webinsider
Meses de silêncio, eu disse? Menti: nunca falei tanto. Se somar o que eu tagarelei nos últimos meses dava um compêndio ou, no mínimo, um dossiê psiquiátrico. Falei muito.
Você não ouviu? Não faz mal, eram delírios mesmo, idéias soltas que não tiveram força para mover meus dedos. Se fosse alguns séculos atrás valeria o “verba volent, scripta manent”, e as palavras voariam enquanto textos ficam.
As minhas palavras, porém, ficaram, voaram e se multiplicam nas asas do MP3, pousadas tranqüilamente no Roda&Avisa, audioblog que foi minha válvula de escape nesses meses todos de abstinência articulística.
Adorei a idéia. Achei que rich media seria uma maneira... mais rica de me expressar. Cada post improvisado, com seus sete minutos e pouco, continha muito mais elementos do que meras letrinhas e espaços em verdana font size 2.
Mais rico? Errei. Errei longe.
Riqueza mesmo não é timbre, timing, voz embargada. Rico mesmo é algo que só texto tem: entrelinhas.
Você me lê agora, e mesmo sem querer ouve uma voz, imagina um autor, me põe num cenário, e shazam! Eis um René tailor-made, exclusivo, personalizado, um René único entre inúmeros Renés diferentes, tão diferentes quanto são os leitores deste artigo.
Entrelinhas são a bruxaria do texto. Palavras são mera moldura: a natureza humana abomina o vácuo, e a imaginação é uma tapadora automática de buracos, completando elipses, preenchendo o não-dito, até que um bom slogan de meia linha vire um universo afetivo completo.
É por isso, talvez, que emails nos tocam fundo, que emoticons e abs e bjs e LOL nos sejam tão caros, tão vivos. Eles são caixinhas de entrelinhas, cápsulas de nada que enchemos com o carinho que precisamos tanto.
Texto a gente elabora, reescreve, repensa, e quando aquela colherada de letrinhas parte bits afora vai impregnada de humanidade, levando o melhor de nós. Voz não, voz vai saindo, voz trai a gente, engasga, desafina, e nunca vem a palavra correta, certeira, a palavra mágica.
Vejam os Orkuts, os Friendsters, os MatchMakers do digimundo: almas de todo canto compondo auto-retratos em letrinhas, mosaicos de fotos seletas, empacotando para presente o melhor de si, criando playgrounds para a imaginação alheia.
Linhas e entrelinhas e palavras são nossa teia, são com elas que capturamos uns aos outros. É nos vãos dessa trama que entretecemos sonhos comuns.
Eu não me iludo: metade do digimundo é fantasia. Mas me engana que eu gosto.
Posted by renedepaula at 1:07 PM
Silêncios Reunidos
artigo para webinsider, abril de 2004
Curso de língua é assim, você acaba tendo que ler livros que não leria espontaneamente ou que talvez nem descobrisse sozinho, e foi assim que li uma historia estranhíssima, passada numa estação de rádio. O título era algo como “Das gesammelte Schweigen des Doktors...", nem me lembro mais.
Um dos personagens da história produzia um programa de entrevistas, e guardava escondido numa caixinha inúmeros tecos de fita magnética, daquelas de rolo, todas elas organizadas, etiquetadinhas, coisa de alemão mesmo.
Cada tequinho continha... um silêncio de alguém, e nas etiquetas lia-se “fulano de tal pensando antes de responder sobre a dolorosa questão X”, ou “pausa de sicrano antes de entender a piada Y e finalmente rir” . Silêncios com CIC e RG.
Você, leitor assíduo do webinsider, colecionou sem querer um trecho autêntico de silêncio meu, e uma boa etiquetinha seria: “rené pensando por meses em algo que valesse a pena ser dito”.
Vale alguma coisa um bom naco de silêncio? É por quilo, por hora, por metro quadrado?
Silêncio pode não ter preço, mas tem custo, e eis aí o que me finalmente tirou do mutismo: quanto custa o que nunca é dito? Quem paga essa conta?
Ops... isso não é justo. Demorei meses para chegar a essa pergunta, e não é nada legal jogá-la assim na mesa sem uma introdução sequer. Comecemos então, pelo que é “legal”.
Ser brasileiro é bem legal. O clima é legal, a comida é legal, a música é super legal. Trabalhar com internet também é muito legal, é ou não é?
Pode responder que não, fique à vontade. Eu sei que não é legal falar das coisas ruins, não pega bem. É chato ser chato. Nada é mais chato do que você perguntar “e aí, tudo legal?” e o cara dizer que não, e ainda por cima explicar.
Pois bem: eu sou meio chato. Assumo. Volta e meia piso na bola. Pago o preço por ser meio mala, recebo em troca silêncio, no máximo um eco ou outro.
Colocar problemas debaixo do tapete, contudo, pode até deixar a festa mais bonita, mas uma hora a gente tropeça no calombo.
De que problemas estou falando? Vou falar de novo da dificuldade quase incontornável de se trabalhar “legalmente”, ou seja, pagando os impostos, licenciando softwares, pagando salários decentes? Ou vou de novo reclamar de quem conta milagres mas não conta os santos, muito menos os demônios? Deixa pra lá, isso já falei.
O que “pega” pra mim agora é nosso jeito “legal” de trabalhar: informalmente, sem método, no improviso, sem documentação decente, sem definições claras de escopo, de contrato, nada. Super legal, não? Pra mim não.
Chame-me de chato, mas chato mesmo é ter que adivinhar o que é para ser feito, ou ter que adivinhar como algo foi feito, ou ter que resolver no grito, na porrada, algo que poderia ter sido definido tranqüilamente no começo do trabalho.
Isso é tão chato, mas tão chato que ninguém nunca comenta, e tanto faz se vai acontecer tudo de novo, porque no final a gente se vira, o outro cara se vira, o fornecedor se vira, e no final o site vai pro ar (ou o banner, ou o hot-site, ou seja o que for). Tirando os mortos e feridos, salvam-se todos.
É um jeito de se trabalhar. O trabalho sai, não sai? Então. Mas estamos sempre reinventando a roda, andando em círculos, girando em falso, e não é pra menos que para qualquer veterano da área a impressão é que, apesar dos anos todos, avançamos muito pouco.
Sabe onde avançamos? Nos lugares onde se criaram processos bacanas, documentos e metodologias de primeira, onde profissionais compartilharam seus erros e acertos, onde se deu um passo adiante na direção da transparência, da qualidade, da ética.
Resolver coisas no improviso não deixa história, não cria cultura, não deixa legado. Jeitinho não faz nação, nem que tenhamos mais 500 anos pra tentar.
Well, meu negócio é outro. Legal para mim é deixar legado.
Posted by renedepaula at 1:06 PM
Olha que coisa mais linda...
No aeroporto em Amsterdam, no elevador em Nova York, num táxi decrépito, em botequins vazios... Encontrar com ela é sempre mágico, inexplicável, e lá fica você de coração mole, cantarolando junto: “a beleza que não é só minha...”. Essa canção é cidadã do mundo.
A moça do corpo dourado do sol de Ipanema arranca suspiros até de quem não tem idéia do que seja Ipanema, Vinícius, Tom, e seu mundo se enche de graça e fica mais lindo mesmo em línguas estranhas e arranjos idem.
Graça é uma palavra interessante. Há coisas que você não quer nem de graça, outras te deixam sem graça e, sim, ela é uma graça por graça dos céus. Sempre coisa boa, graça, mas a Graça mesmo é cruel: ou se tem ou não se tem.
Beleza bisturi ajeita. Conteúdo escola dá. Mas graça, mesmo, é uma Graça, uma benção, algo que separa a “bonitinha, tadinha” da criatura graciosa e encantadora que virou canção e lenda.
A gente fala tanto em beleza, aspecto e nem pára pra pensar que se tem algo que enchemos a boca para dizer é “gostoso”: “Gostosa!”.
E vá você definir “gostoso”: é algo como a graça. Nem é questão de perfeição, é uma dádiva.
Quer ver algo gostoso? Google. É uma delícia. Instant messenger é gostoso também. Um site como o Orkut é super gostoso. Estão aí milhões de usuários para assinar embaixo.
Como você explica algo gostoso? Ou, pior ainda: como você faz o digimundo mais gostoso?
Vou ser sincero: ainda não descobri. Eu persigo essa quimera faz anos, e o mais perto que cheguei foram vislumbres de como fazer coisas “não-gostosas”.
Procuremos, então, o caminho da Graça no beco dos erros e desvios.
Contemple o abismo: de um lado você tem o usuário, que vai ou não achar gostoso o, digamos, website.
Do outro lado você tem uma turba de designers, desenvolvedores, marketeiros, gerentes de todo tipo, alguns deles “clueless”, outros com mais certeza do que deveriam. Acredite em mim: são esses hiper-convictos que fazem o abismo crescer.
O problema de quem acha que “enxerga claramente a solução”é que nem sempre what HE sees is what YOU get. Da inspiração genial até chegar a algo concreto é uma corrida de obstáculos, onde a tal da idéia pode tropeçar tanto que vai chegar aos cacos lá na ponta. Se chegar.
Por que é tão acidentado o caminho da Idéia? Eu arrisco dois palpites: idéia que nasce tão distante darealidade, lá nos píncaros da imaginação iluminada, talvez só funcione bem no ar rarefeito do Olimpo. Aqui no mundo dos mortais ela vai ser tão desengonçada quanto o albatroz do Baudelaire.
Segundo palpite, e o real motivo deste artigo todo: idéias têm pernas curtas. Você tem que levá-la pela mão, carregá-la no colo, ensiná-la a olhar onde pisa, a usar passarelas. Se você deixar uma idéia ir solta, ela se perde.
Se você não cuida do destino da sua idéia, surge o inferno de qualquer projeto interativo: a expectativa de que os outros... adivinhem.
O fornecedor tem que adivinhar o que o cliente quer, o designer tem que adivinhar como funciona o cliente do cliente, o desenvolvedor tem que adivinhar o que aquele photoshop lindo realmente tem que fazer e quem for consertar, pobre diabo, pior ainda: vai ter que fazer engenharia reversa ao cubo. Pior que o mapa do inferno é um inferno sem mapas. Voilà.
Resultado: um site que que ninguém consegue adivinhar como funciona, se é que funciona. Você já passou por isso, e sabe que não tem graça.
As garotas em Ipanema talvez sejam graciosas por serem brasileiras, mas a nossa ginga nacional não ajuda muito quando o assunto é projeto: adoramos ter idéias, mas não achamos graça na lição de casa, temos birra do trabalho metódico, da documentação, de especificações, de tudo que garanta que a idéia não perca o rebolado na areia movediça que é qualquer desenvolvimento.
Isso é chato. Isso não tem graça. Processo é pra quem não sabe improvisar, pra quem não tem jogo de cintura. Não tem por quê “stressar”, no final tudo dá certo.
A cada vez que ouço “no final dá certo”, minha resposta sempre é: defina “final”. Você se livrar de uma etapa não é final nenhum, é na verdade o começo da etapa seguinte, e coitado do infeliz para quem você passou uma bola quadrada: vai ter que adivinhar, tapar buracos, prender com fita crepe e dar “forward” do mico. No final das contas, o resultado é beeeem diferente da idéia, com qualidades de menos e defeitos a mais.
Se a gente pusesse na balança esse jeito “gostoso” de trabalhar versus a ressaca inevitável, o stress, o desperdício gerado, o resultado mambembe... mas não fazemos isso nunca, porque achamos que tudo sai de graça, que faz parte, e que no final risadas gostosas resolvem tudo.
Resultado: estamos sempre reinventando a roda, estamos sempre começando do zero, não deixamos nunca um legado, uma herança, algo que nossos sucessores possam tomar como base e avançar. Eles têm que se virar.
Nosso usuário acha gostoso ter uma experiência tranqüila, fluida, encantadora, assim como o rebolar despreocupado da garota de Ipanema. Projetos mal gerados e mal geridos podem até se sacudir, mas como diria minha avó: “por fora bela viola, por dentro pão bolorento”.
Posted by renedepaula at 1:05 PM
Casa Da Sogra
a questão da user experience
Dei uma volta pelo shopping, ontem. Numa vitrine vi um modelo de palm que eu não conhecia. Entrei, o vendedor me mostrou o aparelho, fui embora satisfeito por ter visto de perto aquele palm, por ter manipulado uma máquina que eu só conhecia superficialmente.
Este episódio tão prosaico, se o olharmos de perto, pode também mostrar como funciona outra maquininha, a maquininha humana. Os senhores teriam interesse? Sigam-me, por favor.
Em primeiro lugar, por que escolhi um shopping? Resposta: eu não estava procurando nada específico, estava querendo olhar vitrines só, e shoppings concentram vitrines de todo tipo. Mais: estava chovendo muito, e shoppings são cobertos. Por fim, eu queria circular entre gente bacana sem me preocupar com segurança e violência.
Ir ao shopping envolveu um preparo extra, claro. Coloquei uma roupa cuidadosamente casual, refiz minha toalete básica, peguei carteira e celular e fui.
Uma vez na tal loja (sofisticada, diga-se de passagem), dirigi-me ao vendedor com uma atitude sóbria e polida. Eu queria ser bem atendido, e para isso precisava parecer um bom prospect. Na conversa com o vendedor, reforcei essa impressão mostrando meu interesse pela marca e pela tecnologia em questão.
Não comprei o produto, mas saí de lá melhor informado, com condições de fazer uma decisão mais acertada numa compra futura. O vendedor, mesmo sem ter efetuado a venda, cumpriu o seu papel ao aumentar meu potencial de compra, e também por criar um vínculo positiva entre mim e a loja.
Os senhores teriam interesse também em internet? Que ótimo. Por esse lado, por favor. Saiamos do mundo (a)palpável e entremos no digimundo.
Aliás... “entrar” é a palavra correta? Quando queremos comprar online dizemos “entra aí no Submarino” “abra a Livraria Cultura”, ou “vai na Americanas”, mas em verdade a gente não vai a lugar algum, não entra em nada. A gente chama, e eles vêm. Sites vêm até você, e não o contrário.
Quem tem que se preparar todo, ficar bonitão e falar direito é o site, não você. Você, de cuecas ou não, é que vai medir o vendedor de alto a baixo. Essa inversão de papéis têm implicações sérias.
Em primeiro lugar: por que você escolheu a internet? Por que estava chovendo, também? Por que é fácil pular de site pra site conferindo preços e lançamentos? Por que você não queria se expor à violência urbana? Hmmm... mais ou menos a mesma lógica do mundo físico. Racionalmente, pelo menos.
Vamos agora checar a parte irracional. O site está entrando na TUA casa, no TEU computador, usando a TUA linha telefônica... e o mínimo que se deve esperar é que ele seja educado, que ele “se comporte”. Eu fico transtornado quando um site que eu convido para adentrar na minha vida se comporta mal: é pesado, abre janelas que não devia, tenta instalar plugins que eu não quero, ou fica parado na porta cantarolando uma introdução desnecessária. Malabaristas num semáforo de rua até que têm seu charme, mas não na information highway.
Aparência e “toalete” também contam. Se você recebe um email de uma marca sofisticada, vai estranhar muito se ele vier de bermuda e chinelo, falando português ruim. Vai achar que é golpe, e nem vai abrir a porta para ele. Pro lixo direto.
Um último aspecto: respeito à tua inteligência. Internet para mim é como a lâmpada de Aladim: você esfrega, um gênio aparece por download, e te promete 3 desejos. Se depois dessa mágica toda você faz um pedido singelo e o gênio coça a cabeça, diz “veja bem...”, você enxota o canastrão e diz “fecha-te sésamo”. Na tua vida esse cara não entra mais.
Em shoppings, em sites, em lâmpadas mágicas, o que há são usuários humanos, e que se tornaram mais dignos e humanos ainda quando ganharam um superpoder: o mouse power. O cara clica o mouse e... ai de você se não atender seus desejos. Nem precisa ser gênio para adivinhar a punição: mil e uma noites sem aquele unique visitor.
Pensando agora como loja, e não como cliente. Se encararmos a loja online como um caixeiro viajante, que notícias ela traz depois de tanta andança? Ela entrou em milhares de casas, conheceu pessoalmente um mundo de clientes... e não tem nada para dizer? Isso sim é que é desperdiçar oportunidades.
E para você que é nosso cliente preferencial, um brinde: o site Good Experience é um bom começo para quem quer ver o mundo por outros olhos, os olhos do consumidor.
Volte sempre, o prazer é nosso. Servimos bem para servir sempre.
Posted by renedepaula at 1:03 PM
Onde Diz “Push”, Empurre
a questão do cenário de uso
"É uma porta."
Tomara que ele não ouça isso, tomara que seja surdo como uma porta. Eu, no seu lugar, ficaria ofendidíssimo. Afinal, quem gosta de se sentir burro?
Ele ouviu. Era um professor peculiaríssimo, um ponto fora da curva sob qualquer aspecto: esquisito, mal proporcionado, hostil... mas parecia feliz consigo mesmo. Nunca se abalou com as piadas e apelidos e a rapaziada imitando.
Imperturbável, o senhor bizarro, até que um dia...
Numa prova, um aluno irritado deixou escapar algo como “o cara é uma porta”. Para espanto geral, o professor subiu nas tamancas, perdeu as estribeiras. Bradava, transtornado: “podem me chamar de palhaço, do que for, mas de incompetente, JAMAIS!”. Saia justa.
Agora fica a questão: por que uma porta é burra? Um burro parece burro, uma anta idem, mas uma porta... Eu convivo com portas de todo tipo, algumas educadíssimas que se abrem mal eu apareço, outras discretíssimas que se fecham com polidez, mas portas burras, não me ocorre nenhuma. Teimosas, talvez? Feiinhas? Mas de burras, não me lembro.
Algumas portas lindas, nobres e elegantes te fazem sentir burro, isso sim, e isso é imperdoável.
Portas anti-pânico, aquelas de saída de cinema, devem ser ótimas se você estiver em pânico, com uma turba descontrolada te prensando contra a dita cuja. Mas se você estiver calminho, querendo comprar pipocas, a porta é um porre. Cadê a maçaneta? Puxo ou empurro? Sorte que está escuro, porque ao menos ninguém testemunha você sendo burro... como uma porta.
Falar em portas é uma boa maneira de abrir as portas para uma questão fundamental em qualquer projeto interativo: o cenário de uso.
Ilustremos: o cliente te pede “põe uma porta aí”. “Que tipo de porta?”, você pergunta. O cliente, que tem mais o que fazer, diz delicadamente “uma porta, sua porta!”. Pronto, abram-se as Portas da Desesperança. Vai começar uma novela de desentendimentos.
Você escolhe uma porta esplêndida, de titânio, com maçanetas italianas, e com um originalíssimo funcionamento articulado. Desastre total: ali é a saída de um aeroporto, e nesse cenário de uso:
* O usuário quer sair daquele lugar, e uma porta tão estilosa parece entrada, não uma saída.
* O usuário está com malas e sacolas, e não vai ter mãos pra maçaneta nenhuma.
* O usuário quer mais é sumir dali, e não vai parar para fechar a porta atrás de si.
* O usuário está vendo a porta pela primeira vez e não vai revê-la assim tão cedo, portanto não vai querer se dar ao trabalho de aprender truques.
* Os usuários vêm em massa, e uma porteira de gado seria mais eficiente do que uma porta conta-gotas.
Metáforas à parte, um dos aspectos mais importantes no mundo interativo é o cenário de uso. Usuários usam, usuários querem usar tua interface para alguma coisa, não só para ficar olhando. Como ele quer usá-la? Qual o contexto?
Pensemos num exemplo concreto: uma loja online. Enquanto ele está passeando pela loja, conferindo produtos e ofertas, sua atitude é uma. A hora em que ele opta por colocar um produto no carrinho, a atitude é outra.
Na primeira os atributos do produto, as ofertas são o foco, e o usuário vai se sentir mais à vontade se puder fuçar por conta própria, sem compromisso, sem consequência.
Na hora do carrinho as coisas mudam. Agora qualquer besteira que ele fizer pode ter consequências, agora é tudo mais sério, e embora seja um cenário muito mais racional, pode ser um excelente momento para “segurar na mão” do usuário e transmitir-lhe segurança e apoio. É uma hora de decisão, de ação, e ele pode não estar familiarizado com o processo. Ele pode ter medo de errar.
No primeiro cenário o que conta é a sedução, a liberdade, o descompromisso. No segundo cenário a confiança, a privacidade e a facilidade são as tônicas. Quando você desenhar as interfaces, a comunicação, o processo todo, você deve levar em conta essa diferença de ambientes. Na cabeça do usuário, ele abriu uma porta e passou para um outro espaço, um espaço com outras regras. Se você for designer ou arquiteto de informação, não tenha pudores em mudar a cara da interface.
Numa mudança de cenário desse tipo, o usuário não vai ficar desorientado se alguns elementos sumirem, pelo contrário: vai ter certeza de que abriu a porta certa e passou para outra sala.
Comprei um guarda-chuva de um camelô outro dia. Cinco “reau”. Valeu cada centavo: eu precisava andar três quarteirões na Paulista debaixo de um pé d’água, e o tal guarda-chuva plin-plan-plum, se abriu automaticamente. Cheguei onde queria, e o fechei sem maiores dramas. Claro que eu o esqueci nem sei onde, mas não fiquei triste. Ele cumpriu sua missão, e se eu precisar de novo, sei que vai ser fácil achar.
Mas porém contudo todavia se o cenário fosse outro, se fosse um evento no Jockey, se fosse um presente de dia dos pais, se eu fosse aparecer na Caras, meu guarda-chuva chingling... não passaria da porta.
Mas se eu estou na chuva, é para não me molhar.
Posted by renedepaula at 1:02 PM
O que você esperava?
a questão da expectativa
artigo publicado na revista Webdesign n.4
É simples: dê a mão, logo vão querer o braço. Simple as that. Quer ver?
Você criou um site? Ótimo! Posso ir lá então e fazer o que eu preciso sozinho? “Mais ou menos”??? Como assim?
Que bom que tem um “fale conosco”! Vocês me respondem logo? Como assim “mais ou menos”???
Usuários são tão cruéis. Se eles soubessem o trabalho que deu, as guerras políticas, o dinheiro que se gastou, as noites em claro... Eles pensam que é fácil?
Agora respondo eu: pensam. E têm toda razão em pensar.
Basta ele digitar o endereço do teu concorrente e pronto, ali está, no site do outro ele pode, no teu site não. Por quê?
Nem tente explicar. Eu conheço os bastidores, sei como é. Os usuários também não querem saber, de problemas já estão bem servidos, e contam com teu site para resolvê-los.
Essa impaciência vem de longe, e a culpa nem é nossa. Pense bem: desde sempre tudo o que você fazia no computador era quase instantâneo. Escrever um texto, usar uma enciclopédia em CD-ROM, jogar um joguinho... Se demorava um pouco, o problema era o teu PC, e a questão era fazer ou não um investimento extra.
Quando a internet entrou na vida cotidiana, parecia mais uma coisa que o teu computador fazia. Ninguém tinha (e quase ninguém tem) idéia de que uma URL que você digita, uma conexão discada, qualquer coisa internética passa por uma corrida de obstáculos ida-e-volta cheia de lodaçais, arame farpado, bandidos, abismos. Para o usuário normal continua sendo mais uma coisa que o computador faz.
A expectativa que já era alta se agravou com o tempo. O usuário vê duas páginas lado a lado, a da Amazon e a tua. Como você vai explicar a diferença cavalar? São páginas, enfim.
Nos anúncios de TV, nos outdoors é fácil. Uma bela modelo, um fotógrafo decente, um slogan “a marca X é mais você” e pronto. Ninguém espera nada mais de um anúncio. Mas qualquer coisa online gera uma expectativa difícil de atender.
É claro que você espera de mim que eu faça mais do que discorrer sobre o problema. É de se esperar que eu traga soluções, e não mais problemas.
Vamos ajustar as expectativas, então. Em primeiro lugar: a natureza humana não vai mudar. Essa impiedade é uma condição de contorno do nosso problema. O que podemos fazer é levá-la em conta, gerenciá-la, e se possível surpreendê-la positivamente.
Um memorável chefe meu dizia: o mais importante é gerenciar expectativas. Como você gerencia expectativas? Jamais prometendo o impossível e sempre indo além da expectativa criada.
Gerenciar expectativas não diz respeito apenas ao cliente final. Em todo o processo de se construir produtos interativos, é fundamental que esteja sempre claro o que se espera de cada um.
Um layout irresponsável no Photoshop, com lindos botões de “busca” e “fale conosco” podem passar batido no processo até a hora em que o site vai pro ar, e então se descobre que uma boa busca é um projeto complexo e custoso, e que um “fale conosco” só funciona se houver alguém que responda. Mas aí já é tarde demais, simplesmente não funciona tão bem como... o Google (outro inflacionador genial de expectativas).
Um vendedor de soluções interativas que diz “Claro! O site pode ter um chat para os clientes VIP, claro que sim” pode até fechar o negócio mais rápido, mas depois vai ter muito que explicar na hora de manter o orçamento e, sobretudo, na hora de entregar o produto no prazo.
Meu conselho: tenha sempre certeza do que você promete, e entenda o melhor possível aquilo que teu cliente espera. Deixar para descobrir só na hora H, no clique do mouse, é um risco insano: você estende a mão, eles querem o braço, não dá pé e por fim... cabeças rolam.
No digimundo, quem te alcança sempre espera alguma coisa ;).
Posted by renedepaula at 12:58 PM
bela droga
a questão da confiança
artigo escrito para a revista WebDesign n.3
- Sou contra.
Contra? A entrevistadora ficou tão desconcertada que repetiu a pergunta:
- Você é contra liberar as drogas???
O rock star era contra mesmo.
- Primeiro porque quem é chato, com droga fica mais chato ainda. Segundo porque se liberar, não vai ter pra todo mundo.
Adoro essa estorinha, ainda mais pelo fato de ter acontecido mesmo, mutatis mutandi, anos atrás. Adoro também por ter na prateleira “As portas da Percepção” e “A Ilha” do Huxley, e outras pérolas do tempo em que drogas prometiam expansão de consciência e tal. Por uma questão de timing (tenho 39) perdi essa grande balada, e só vim a conhecer a grande ressaca que sobreveio à farra. Mas teve um bonde que eu peguei andando e tive chance de sentar na janelinha: o tal do digimundo. Não dava barato, mas que expandia a consciência, expandia. E era barato, liberado, e tem pra todo mundo (ou quase).
Well, anos depois lá vem outra ressaca de novo. A cada vez que puxo meus emails com overdose de spam, a cada vez em que algum xarope ataca meus sites, a cada novo virus worm fico pensando: que droga.
Diabólico mesmo são as alucinações: você abre um email achando que é de alguém querido e pumba, era um vírus disfarçado. Você recebe um email do seu banco, abre a tal da página e pumba, é golpe. Droga mesmo é que você não sabe mais em que confiar, em quem confiar.
Como fica a vida se não pudermos confiar em ninguém? Nessas horas que a gente vê que confiança, como diziam nossas avós, demora uma vida pra se conquistar e um segundo pra se perder. E uma vez perdida, já era.
Confiança no digimundo é uma questão delicada. No mundo tijolão os bancos constroem sedes espetaculares para inspirar confiança. Governos fazem capitais monumentais para inspirar confiança. Documentos vêm cheios de selos e carimbos pra inspirar confiança. Um bom locutor empresta confiança a um comercial chinfrim. E no digimundo? Como você mostra que é confiável?
Como sabiam nossas avós a questão é dupla, na verdade: como ganhar a confiança e como não perder a confiança alheia?
Lembro-me de um chefe que tive, que dizia sempre: você tem uma chance só de causar a primeira impressão. Só uma. Ele também dizia: alguém só é teu cliente se ele te compra de novo. Mais ou menos a mesma coisa, enfim.
“Parecer” confiável é uma preocupação fundamental. O design do seu site inspira confiança? Reflete os valores da empresa? A arquitetura de informação, a clareza do conteúdo, até mesmo o desempenho das funcionalidades denota seriedade, compromisso, competência? Tem muito site por aí que é um tiro no pé, que depõe contra a empresa e a seriedade de quem trabalha nela.
Emails são um território minado para confiança. Muitas vezes a única pista que você tem para saber se aquele email é do seu banco ou não é o estilo de redação, os erros de português, e sobretudo a atitude, todos eles elementos muito sutis que têm a ver com confiança.
Alguns exemplos do mundo do papel podem ajudar. Uma revista Veja ou um Estadão tem um estilo tão consolidado de redação, de editoração, de postura que você reconhece a origem mesmo num fragmento xerocado. Por outro lado, um email com um texto supostamente escrito por Jorge Luís Borges (ou pelo Veríssimo, Ziraldo, etc...) nos deixa com a pulga atrás da orelha por conta de alguns desvios de estilo que traem a farsa.
Constância e coerência são difíceis de se manter em comunicação: mudam as estratégias, mudam as equipes, mudam os fornecedores... Mas para o teu consumidor, a marca ainda é a marca, e qualquer coisa estranha, qualquer acidente de percurso pode por a perder uma confiança conquistada ao longo de anos.
Confiança é algo profundamente humano, é como nos relacionamos com o mundo. O digimundo, porém, está começando a criar “confianças” automáticas, inumanas, implacáveis. Faça um “subject” meio suspeito no teu e-mailing e ele pode ser barrado por filtros bayesianos. Mande um anexo gracioso e ele pode jamais chegar a quem devia, por seguranças automáticas de sistemas.
Comunicação no digimundo requer atenção duplicada: teu target está de olho, os filtros também. Um deslize, e você cai na vala comum.
Consistência em doses diárias, transparência na veia. O digimundo tem remédio sim. Confia em mim.
Posted by renedepaula at 12:56 PM
e-business, e-mail, e-commerce, e-daí?
a questão da Relevância
artigo escrito para a revista Webdesign n. 2
É uma ironia eu confessar isso por escrito, mas... anda difícil escrever. Não que palavras me faltem, isso não. Sou tão verbal que meu cérebro funciona em DOS, sem interface gráfica. Sou um candidato a Cyrano de Bergerac com nariz e tudo. Nem é o caso de falta de idéias, tampouco: elas ainda me assediam o dia todo e mal dou conta delas, o equivalente cerebral de um Don Juan que passou Italian Pine.
Meu problema é outro. Meu problema é relevância.
Dramática, a questão. É só me ocorrer uma idéia nova e logo vem a asa negra da dúvida, perguntando com voz funesta (em alemão, claro): Und? Pronto, broxei.
Essas três letrinhas querem dizer “e” em alemão, e colocadas como pergunta equivalem ao nosso “e daí?”, ao inglês “so what?”, ao francês “et alors?”. A diferença é que em alemão dói mais.
Und? E aí, o que essa idéia tããão bacana acrescenta ao quadro geral das coisas? Qual a sua (argh) relevância? Pergunta cruel.
Ok, se minha vaidade fosse maior que o juízo, eu poderia dizer “eu acho relevante, e basta”, mas eu sei que não basta. Se a idéia (ou ação, ou projeto) não for relevante para os outros, que fique na gaveta, nos meus blogs e olha lá. De irrelevâncias o mundo já está cheio.
Faça um exercício rápido: dos emails que você recebe, quantos são realmente relevantes pra você? Quantos sites são relevantes no teu dia-a-dia? Em cada site desses, quais são as coisas realmente relevantes ali? Peneirando, peneirando, sobra pouco, e o resto é uma avalanche de desperdício que custou dinheiro, não trouxe resultados para quem fez e, sobretudo, sacrificou seu bem mais importante: tempo.
E aí vem a pergunta que não quer calar (em português mesmo): se algo é irrelevante, por que existe/persiste/insiste? Custa dinheiro para fazer, não custa? Custa. Toma espaço, não toma? Toma. Toma tempo, não toma? Toma. Então, por quê?
Eu me pergunto essas questões sempre que aparece futebol na minha frente. Ou política. Ou esportes de maneira geral. E aí que cai a ficha de novo: não importa que esses temas sejam irrelevantes pra mim. O que conta é que para zilhões de pessoas eles são relevantes sim, vitais até, e muito dinheiro gira em torno disso. Ou seja: relevância é relativa, muito relativa, e umbigo não serve de parâmetro pra muita coisa.
Mas voltemos ao nosso tema central, o digimundo. Se você está elaborando um projeto interativo qualquer, seja um banner ou uma loja online ou um portal de notícias, questione a relevância dos menores detalhes:
- Esse texto imenso é relevante?
- Essa animação é relevante?
- Saber o CIC e RG do usuário é relevante?
- Essa interatividade XYZ, esse fórum, esse login, essa enquete, esse cadastro, esse chat, esse game são relevantes?
E por aí vai, a sabatina não tem fim. Mas para responder a essas questões todas sem bancar o Rei Levância absoluto e incontestável, você tem que descer do trono e conhecer:
- O público-alvo e suas necessidades (eles querem realmente saber seu saldo bancário por email toooodo santo dia?)
- As tais necessidades (quem disse que o melhor jeito de resolver essa necessidade é a internet? E se o telefone for mais prático? E quem disse que eu quero que um banco me dê dicas de culinária?)
- O business do cliente e seus processos (sim sim, pedir o tal do CIC tem razões jurídicas que você nem desconfiava, e é importante sim a tal da “press area”)
- O cliente (que pode achar relevantíssimo a vista aérea da fábrica, a foto do fundador, etc., mas como ele é quem paga a conta, paciência)
Conhecendo melhor os envolvidos, é muuuito mais garantido dizer o que é relevante... para as pessoas relevantes. Você pode descobrir, inclusive, que algumas aparentes irrelevâncias são super relevantes, insubstituíveis, vitais quase (pense em novelas, por exemplo, ou horóscopo).
E aí você me pergunta: “Und? Qual a relevância da relevância? O que ganhamos com esse processo todo de depuração? Pontos no Karma?”
Não sou um expert em Karma e infinitudes, mas dá pra responder a isso com base em coisas bem materialistas.
A primeira resposta é: grana é recurso escasso. Grana não se joga fora. Se você quiser que seu cliente invista seu rico dinheirinho em alguma coisa online, que ele invista então em algo realmente relevante.
A segunda resposta é: se tem algo mais escasso do que grana, mais irreversivelmente irrecuperável do que dinheiro, é tempo. Seja rico ou pobre, teu usuário tem 24 horas por dia, sete dias por semana, e nenhum dinheiro do mundo faz relógio andar devagar. Pra poupar seu tempo: é muito provável que seu cliente tenha mais o que fazer do que se enroscar em mais irrelevâncias.
A terceira resposta é: o mundo mudou. O consumidor mudou. Essa história de ter um mouse na mão, de ter um endereço de email, isso é histórico, e não tem volta não. Ou você mostra ao que veio, ou um clique te manda pro trash. A seleção natural agora é movida a mouse-power.
Mas esse é o tema do próximo artigo, empowerment. Até lá.
E se fui irreverente demais, por favor... releve :)
Posted by renedepaula at 12:55 PM
Pisando em ovos
a questão da conveniência
este foi meu artigo de estréia para a revista Webdesign, que também estreava nas bancas.
“O carro dos ovos chegou!”
Ovos? Sim, uma dúzia de ovos agora cairia bem, sobretudo se caíssem na cabeça desse chato movido a diesel, desse entrepreneur da mídia de interrupção, interrompendo minha soneca de sábado com uma gravação que já sei de cor.
venha a Maomé se anunciando no megafone como se fosse a Boa Nova. Ovos são ovos, oras.
Eu nem como ovos. Devo estar perdendo algo fabuloso, a julgar pelo entusiasmo da gravação. Deveria dar vivas pela chegada dessa benção dos céus à minha modesta rua da Bela Vista, mas não estou nem aí para ovos, ainda mais se eles estão bem aqui, no meio do meu ex-sossego.
Esse ovo-man é meu SPAM auditivo.
Comunicar é pisar em ovos, e na internet isso é pior ainda. Claro que ainda há gente vendendo internet como se fosse ovo de colombo, ou como a galinha de ovos de ouro. O próximo que te disser isso, siga meu conselho: ovo nele. Internet não é mole não, e você sabe por quê? Internet envolve gente, e tudo que envolve gente é delicado, trabalhoso, intenso. Gente é um bicho esquivo, difícil de agradar, que não cai em qualquer armadilha.
Claro, você conhece muito bem seu negócio, você sabe tudo de internet, tecnologia e webdesign, mas se não entender de gente, você está frito: quem está segurando o mouse está com o dedo no gatilho, pronto para fechar sua pop-up, detonar teu email, e sobretudo para passar ao largo do teu banner. Ele não pensa como você, e não tem nenhuma razão para te dar uma chance, quanto mais uma segunda chance.
Esqueça por um momento que você é um profissional da área, e me responda como consumidor, como pessoa física-química-biológica: você tem tempo para mais alguma coisa na sua vida? Você quer ficar íntimo de todas as marcas de xampu ou automóvel ou biscoito do país? Você vai dar conta de mais uma newsletter no seu inbox?
Vou adivinhar: não. Acertei? Tomara que sim.
Se acertei é porque estou começando a adivinhar o que passa pela cabeça dos nossos usuários, e devagarinho vou descobrindo como funciona o sistema operacional mental de quem nos compra e paga. Eu já tenho algumas pistas, na verdade seis delas, e vou compartilhá-las contigo uma a uma.
Por uma questão de, digamos, conveniência, vou começar pelo fator mais básico: conveniência.
Conveniência, para mim, é algo simples: eu quero, eu consigo. E ponto. Eu quero agora, do meu jeito, e pronto. Se não for assim, não brinco mais. Vou até a loja comprar, ou passo a mão no telefone e ligo. Ou empresto o jornal do vizinho. Não estou aqui para perder tempo. Internet é bom quando ajuda.
Simples, não? Deveria ser, mas uma parte enorme dos micos da internet vem exatamente daí, de colocar pelos em casca de ovo.
Quer exemplos? Pop-ups intrometidas. Animações em flash num site de serviços. Login e senha a troco de nada. Buscas que não trazem resultados decentes. Sites que demoram a carregar. Informações triviais escondidas. Menus bizarros. Fale-conosco que não responde nunca.
Você quer algo tão simples... e complicam tudo.
Se simplicidade é tão... óbvio, por que esses erros continuam sendo tão comuns? Fácil: porque, assim como o ovo-man, ficamos tão apaixonados, fissurados, entusiasmados com nosso próprio ovo, dedicamos tanto da nossa vida a ele que esquecemos que, para o cara que nos compra, ovos são ovos. Ele pode muito bem preferir nosso ovo, mas não vai tatuar um ovo no peito, baixar screensaver de ovo, assinar nossa eggs-letter ou raspar o cabelo pra pintar a cabeça de branco.
O que ele espera de nós é que, quando ele precisar de ovos, consiga achar os nossos, e que eles estejam tão bons quanto sempre. E que, caso ele precise falar conosco, a gente o ouça, sobretudo se for pra reclamar do ovo-man aparecendo em pleno sábado a tarde.
As tentações são muitas, eu admito. Não custa quase nada pendurar um fórum aqui, um chat ali, uma senha acolá, e de quebra uma newsletter ligada a um banco de dados de clientes e prospects . Mas o que esperamos com isso? Uma ovomania contagiosa, um surto de ovo-lovers lotando nossos cadastros? Sim, talvez esperemos algo assim, mas aí vem a grande pergunta: é isso o que nossos clientes esperam de nós? Qual é, enfim, a sua expectativa quando nos procura na internet? Uma experiência imersiva no mundo dos ovos, um portal customizável segmentado com cross-sellings personalizados ovo-to-ovo? Ou o que ele espera é simplesmente entrar, resolver seu problema e só aparecer de novo quando precisar de nós?
Fidelidade, no frigir dos ovos, é isso: quando precisarem de ovos, é a você que eles virão. Contar com mais do que isso é contar com ovos dentro da galinha.
Há algo que possamos oferecer nesse meio-tempo para fazê-lo mais feliz? Talvez haja algo relevante... mas relevância fica para o próximo artigo.
O papo dos ovos chegou.... ao fim ;)
Posted by renedepaula at 12:52 PM
