nem queira saber
do que eu não sou capaz
eu já pago caro
pelo que tanto faz
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nem queira saber
do que eu não sou capaz
eu já pago caro
pelo que tanto faz
que mania essa
a de sempre ir fundo
de mergulhar por inteiro
aqui na superfície
não tem o que eu respiro
minha causa mortis
é meu epitáfio
eu juro que tentei
mas não coube em mim
queria ter o talento
de deixar por aí
o que mais cedo ou mais tarde
eu levo comigo
deixe pro legista
adivinhar quando já for tarde
a história que explique
meu coração chamuscado
por tantos incêndios
minhas palmas com linhas
que andam em círculos
e esse peito capaz
de guardar mil tesouros.
não, eu não mordo
eu sorvo apenas
o que jorra sozinho
eu bebo aquilo
que me encha a boca
desenhei pouco a pouco
e com muito capricho
esse labirinto barroco
sem que nenhum minotauro
me desse o ar
da sua desgraça
as variações sobre o tema
não esgotaram o tema
esgotaram meu público
esgotaram o quanto
eu pensava ser capaz
de fugir de mim mesmo
dexter gordon
e o asfalto é rio fundo
correndo tranqüilo
sob os pneus
sob o cinza do céu
soprado por um fumante
cujos dedos sentem
correr sedosa
a lembrança
de cabelos distantes
minha sina em quatro tempos
viver em combustão interna
cercado de impulsos elétricos
maldita idade do bronze
tudo o que eu toco
badala como sinos
por favor traga à tona
o que ainda não é naufrágio
por favor afunde logo
as minhas bóias fajutas
anos de prática
e meus erros primários
se aprimoraram muitíssimo
sim, falo mais que a boca
só falta eu me dar ouvidos
a cama me acolhe
sem olhar torto
sem fazer drama
mania de quebrar cabeça
procurando a peça que falta
a curva que encaixe
mania de acreditar
que eu sou um cara-metade
nasci numa época esplêndida
ainda não me abateram a tiros
devo estar ficando surdo
sexo ouço de tudo
amor, porra nenhuma
eu devia ter levado
meus abismos pra passear
é difícil dormir
com eles uivando assim
respeitável público
uma salva de palmas
nada nessa mão
nada na outra
os dois seios sumiram!
e agora serremos
esse belo coração ao meio
fantasmas meus
rezem para que eu
não os encontre
e vocês sigam eternos
e poupados do vexame do tempo.
os sinais de perigo são gritantes.
tomara que loucos escutem.
não perca seu tempo.
sou anacrônico.
muito natural: dinossauros se encontram
em lugares em extinção.
vozes. risos.
e eu procurando nos sons
o rugido do mar
escondido nas conchas.
onde eu quero chegar
quando me perco
com tanto gosto?
ainda não sei se as redes que lanço
me servem de berço
ou de mil cordas-bambas
lobos se vêem no escuro, é claro.
esse é o gozo de um homem verbal: ficar sem palavras.
esse é o gozo de um homem que fala: o mundo se cala.
difícil de engolir uma ausência que me enche a boca.
bach por avenidas à noite
já amei assim, iluminando
nervos em fugas.
solo é mais difícil
e saio eu e meu arco em chamas
em busca de violoncelos
que não existem
um dia ainda aprendo
que raios nao caem
de novo no mesmo lugar
alguém me explique, então,
porque velhos coups-de-foudre
continuam elétricos
dai-me vento, muito vento
tenho sede daquele cheiro
há sinais de fumaça
eu lanço chamas
que a floresta me salve
de ouvir o que ruge
preciso de brechas, esquinas
preciso de curvas e cantos
se essa cidade não existisse
eu a inventava
com ainda mais dobras
que essa noite acabe logo
e não me espreite amanhã
em plena luz do dia
fome de lobo é assim
piora no escuro
e dança na ponta da língua
esse meu corpo
é uma república de memórias
há partes lembrando incêndios
há partes com lembranças doces.
conheço meus lobos.
nem vou olhar no espelho.
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