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internet tête-à-tête artigos de rené de paula jr. |
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Mano a Mano "Venho por meio destas mal traçadas linhas..." Bons tempos em que esse chavão abria cartas e pedidos, que se encerravam - conforme a gravidade do caso - com advérbios pomposos: "atenciosamente... ansiosamente...". Tempos em que a caligrafia ou a boa datilografia - incluindo o papel e o envelope - eram referência da seriedade, competência e respeitabilidade do autor. Borrões, rasuras, lágrimas diluindo palavras, respingos de café cheirando a insônia, o papel amarfanhado aproveitado até a ultimíssima linha... Era em vestígios sutis que a alma se traía, numa escrita de sinais correndo paralela às linhas e entrelinhas do discurso verbal. Estou escrevendo esse artigo à mão (clique aqui para ver a versão fac-símile), algo que não faço há séculos. Você deve estar lendo uma versão digital dele, e assim jamais saberá onde hesitei, onde me arrependi, ou em que trechos o pensamento atropelou meus dedos e tornou minha letra miúda um garrancho. O universo dos processadores de texto, da informação digital, é peculiar. Erros são reversíveis, alterações não deixam vestígios, a colagem de trechos esparsos não fica parecendo um pedido de resgate. Zero responsabilidade; a insustentável leveza do escrever. Ao mudar de "plataforma" (do digital para o manual, por exemplo), é que percebemos o peso da célebre "o meio é a mensagem". Cada meio que escolhemos marca profundamente o que fazemos. Este artigo hecho a mano certamente será, ao fim, menos estruturado, menos burilado, mais pessoal (ainda!) do que os demais. Essa peculiaridade das diversas plataformas, sobretudo da internet, é algo que me intriga desde sempre e, aqui ou ali, por vezes em entrelinhas, pensei ter chegado perto do que eu queria acreditar ser o cerne, o DNA da coisa toda. Creio que, finalmente, achei uma luz. Duas luzes na verdade, piscando furiosamente no rodapé da minha tela, luzes que surgiram após uma troca de guinchos e assobios entre meu PC e meu provedor de acesso. Uma pane temporária na minha conexão de banda larga me obrigou a ressuscitar meu acesso discado. Expulso do paraíso da DSL, como um anjo caído mergulhei no inferno da World Wide Wait, e redescobri o vale das lágrimas em que navegam os outros mortais. Enquanto esperava um applet de 40k lentamente encarnar, fitei as luzinhas verdes que piscavam. "Olhaí... as máquinas conversando", pensei. E aí caiu a ficha. Máquinas, CONVERSANDO. Diálogo. Desde o handshaking dos modems, tudo era DIÁLOGO. Eis a alma dessa plataforma: o diálogo. Diálogos implicam: · uma língua comum entre os participantes · éticas básicas: respeito, privacidade, honestidade · memória, pois conversações podem ser retomadas, promessas têm que ser cumpridas Diálogos trazem: · troca de informações · aprendizado sobre o que foi dito e sobre quem disse · resultados, pois dialogando as partes entram em acordo sobre seus interesses e se comprometem · vínculos fecundos, pois ao se relacionarem cada vez mais intensamente, os frutos serão cada vez mais numerosos e ricos Fiquei extasiado. A mera percepção do caráter "conversacional" da internet desencadeou um fluxo de associações, conceitos, corolários. A idéia era fecunda, portanto. Qual a lição imediata que podemos extrair aqui? Eu penso logo de cara em: ações interativas devem criar diálogos. "Comunicar" outras mídias comunicam, mas nelas ninguém se comunica. Basta ver o uso que os publicitários menos atentos fazem da web: usam-na como um canal para falar, gritar, cantar, chorar, mas jamais para ouvir, jamais para conhecer e reconhecer o ser humano na outra ponta da rede. Gostei. Preciso agora de tempo para digerir melhor essa idéia e parir outras novas. Preciso descansar minha mão, também. Ela perdeu o costume. Atenciosamente, |
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