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Críticas construtivas
Conselho de amigo: responda todo e-mail prontamente. Toda
mensagem deixada de lado fica malcriada, se esconde, e o que é pior,
reaparece só quando é tarde demais e o assunto, antes inocente, se tornou
litígio grave.
Acumular e-mails não-lidos, então, é uma temeridade: eles se organizam
e apelam para a guerrilha, anarquizando completamente o seu Inbox. Repito
o aviso: tergiversar, jamais.
Responder pela metade também tem seu preço. Do outro lado do Atlântico
há uma alemã esperando a metade final de uma resposta minha, e mal sabe
ela do meu dilema.
A moça nem tem culpa, coitada. A pergunta foi inocente, mas minha hesitação
tem suas razões. Não sei ser leviano com aquilo que amo. O que a mocinha
pediu é coisa pro Caetano, não pra mim. Ela queria que eu contasse como
é São Paulo.
Vá você explicar o avesso do avesso do avesso pra quem vem de outro
sonho feliz de cidade. Quem sou eu... Enquanto enrolo a moçoila, circulo
pela cidade.
Cidade? Cabe, a palavra?
Perguntas de estrangeiros desconcertam. Com crianças é mais fácil, elas
pelo menos estão dispostas a absorver a barafunda de duplas morais,
de paradoxos e compromissos que chamamos de cultura brasileira. Gringos
não. Com os caras é "bread-bread, cheese-cheese".
Tenho que contar para a alemãzinha que, abstraindo a miséria, relevando
os homicídios, ignorando o "casual ugly" de todos os bairros, essa cidade
é do balacobaco. Fácil, não?
Sempre atribuí essa incomunicabilidade à falta de ginga das outras culturas,
incapazes de acompanhar os meneios e remelexos da nossa mente barroca.
Hoje vejo que nosso "Samba do Crioulo Doido" tem um preço alto demais.
Pensemos nessa meta-cidade que estamos todos construindo juntos, a Internet.
Você quer cultura, contato, sacanagem, informação, comércio, anonimato?
Tudo o que uma metrópole oferece você encontra na Internet, e numa escala
muito maior. É a Babel possível, sem fumaça nem buzinas.
Se queremos escapar à maldição da Babel, contudo, devemos aprender muito
com os "cyber-arquitetos" gringos.
Nada contra a arquitetura vernacular. Trata-se de perdermos vícios.
Somos especialistas em soluções de compromisso, "jeitinhos" inconfessáveis,
pactos obscuros, em relevar absurdos. Nossas cidades estão aí pra provar.
Pelo bem de todos, tenho algumas dicas aos que pretendem construir na
Web:
- Não escolha o arquiteto pela roupa, nem pelo papo, e sim pelas
obras.
- Visitando pessoalmente alguma obra pronta, não se deixe impressionar
por traquitanas e modernidades. (Se você não assistiu "Mon oncle",
do Jacques Tati, faça-o já). E leve um leigo com você. Se ele não
conseguir ir além do hall, isso é bem ruim.
- Lembre-se de Brasília. No papel o projeto devia impressionar,
em cartões postais é linda, mas vá viver lá dentro.
- Veja bem se a manutenção é simples ou se você vai precisar do
homem aranha com um vaporetto para limpar a fachada.
- Leve em conta futuras expansões e reformas. Se cada vez que você
pintar a parede, você precisar de um muralista italiano, esqueça.
- Não adianta gastar fortunas com o projeto e economizar com o "terreno".
Já vi belos sites sacrificados pela escolha descuidada do provedor
de hosting. Adote provedores de primeira linha, com suporte 24 horas.
Opte por aquele provedor caseiro do amigo do seu cunhado e morra
na praia, outra especialidade nacional.
Como prova de fogo, peça a opinião de um gringo. E não avacalhe:
prova de fogo não quer dizer dar uma caipirinha pro cara antes do
teste.
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