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internet tête-à-tête artigos de rené de paula jr. |
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Sem explicação De bons projetos o inferno está cheio. Projetos de vida, então, nem se fala, nem precisa ir ao inferno pra encontrar náufragos, gente à deriva e destinos encalhados. Com esse desemprego todo, qualquer ripinha é tábua de salvação. É ator virando chofer de praça, engenheiro fazendo pizza, um show de jogo de cintura e jeitinhos. O improviso é uma arte nossa, mas tem frutos estranhos. Nada contra, por exemplo, em contratar uma psicóloga desempregada como secretária, mas juro que eu ia perder a naturalidade completamente. Vai saber que conclusões ela estaria tirando das minhas menores manias... E que tal ir a uma livraria e ser atendido por um bacharel em letras com doutorado na França? Você pede um Paulo Coelho e o cara tem uma crise de choro convulsivo. Ou pior: alça uma sobrancelha, te lança um olhar gelado e fica dois segundos assim, antes de indicar a estante com um gesto mudo. Um roteirista como segurança de shopping seria uma ameaça pública. Ele viu todos os filmes do Hitchcock, se especializou em filmes noir e vai achar que aquela sua mijadinha um pouco mais prolongada faz parte de um complô do submundo. Comunicólogos são um caso sério. Uma boa escola de comunicação te dá todo o instrumental teórico para ser um chato de galocha, e caso o vendedor de geladeiras tente mostrar que você está levando pra casa uma versão concreta da cornucópia mítica, um artefato que introduz o slow-motion nos produtos perecíveis e cuja porta é a cortina que, quando aberta, revela fantasias de prazer oral num palco iluminado, pronto, você achou um comunicólogo desempregado. Se a internet vai unir a humanidade ninguém sabe, mas que reuniu uma salada de profissionais, reuniu. Eu venho de TV, a Urbana é de arquitetos, muitos são publicitários, artistas plásticos, engenheiros, jornalistas. O nosso métier é uma Arca de Noé. Essa "biodiversidade" fica clara se você receber diferentes propostas para um mesmo projeto. Ao invés de se explicarem por a mais b, empresas mais técnicas vão apelar para o algoritmo do cologaritmo do rotacional de a em b, enquanto produtoras mais "estéticas" acharão que o a pode até ser serifado, mas o b tem que necessariamente romper com o mito da legibilidade. Pronto, bem-vindo à Babel. Independentemente do perfil e da formação de cada profissional, um princípio é fundamental: o usuário final tem sempre razão. Se o consumidor de um produto não consegue abrir o pacote, a culpa não é dele, é de quem fez o saquinho. Em outros termos, interfaces podem ser revolucionárias, mas devem ser cem por cento inteligíveis. Poucos visitantes do seu site terão PhD em Comunicação Não-Linear, e ninguém gosta de ser chamado de burro por um site intrincado. Antes de se colocar qualquer coisa no ar, teste-a antes. A seleção dos pilotos de prova deve ser cuidadosa: dispense internautas experientes, evite todos os que tenham participado do projeto e escolha pessoas que representem mais ou menos o seu público-alvo. Meia dúzia deve bastar. Coloque-os diante do produto e observe suas reações, suas hesitações, seus comentários. Antes, porém, prepare seu ego para o que der e vier. Não é fácil admitir que aquele metáfora genial do seu ícone animado para "Fale conosco" pareça na verdade uma mosca passeando na tela. Este preceito é simples e claro (e trabalhosíssimo),
mas é a pedra de toque de qualquer peça de comunicação
interativa. Você duvida? Coloque um sociólogo pra ser presidente
e pergunte se alguém entende o que ele fala. Eu, não.
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