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Sintonia Fina

Nunca saberei se escrevo direito, mas credo, como minhas linhas são tortas. Mudei de carreira como quem troca de sapatos. Mudei de empregos trocando meia-dúzia por seis. Escolhi rumos sem ouvir ninguém. Para completar, ainda me arrisco a opinar sobre internet, o mais incerto dos assuntos.

Vou trilhar agora um caminho tortuoso, e te convido. Uma idéia me persegue há alguns dias, e me importuna como uma música brega num radinho mal sintonizado no apartamento ao lado. Ei-la: o que falta à internet é ser como o rádio.

AM, de preferência.

Um radinho transistor na orelha te põe no centro do Maracanã. Sem a companhia do rádio, a toalete matinal é solidão pura. A cada dia eu abençôo a estação que nos consola na hora do rush.

Rádio humaniza. Rádio une. Rádio paira sobre nós, dando voz aos aparelhos mais modestos, dando vida aos ambientes mais simplórios. No alto-falante minúsculo cabem a voz amiga de um locutor, orquestras inteiras, ou mesmo um outro ouvinte falando de seu telefone.

O rádio é civil, cidadão. Quando é nacional, oficial, monolítico, o desligamos.

Um radinho não tem segredo: um botão abre o volume, o outro botão sintoniza e pula de Pelé a Beethoven, de Cristo a crimes num movimento singelo.

Estúdios sofisticados, equipamentos complexos, talentos diversos, centenas de quilowatts de potência desembocam num aparelhinho a pilha.

Falta muito para a internet ser assim tão ágil, tão humana, tão indispensável.

Ela vai ser tão ágil quanto o rádio, se:

- suas páginas forem leves e rápidas, sem peso desnecessário
- for compatível com todo tipo de aparelho, mesmo os mais limitados
- seu conteúdo for atualizado com rapidez e eficiência

Para ser tão humana quanto o rádio a web

- tem que ter conteúdo fresco, confiável, pessoal.
- deve falar com todos os públicos.
- não pode excluir ninguém, nem por razões econômicas, nem por dificuldade de uso.
- deve unir, humanizar, dignificar.

A web será indispensável como o rádio

- quando prestar serviços reais
- quando estiver em toda a parte a todo o tempo
- quando descobrir a chave do coração popular

Eu me pergunto, aliás, por que o popular é tão impopular no Brasil. Ou você cria e produz para meia dúzia de privilegiados ou você é brega.

Quem confunde popular com popularesco não percebeu que o jeans - e não a alta costura - mudou o mundo, ou que o rock tão plebeu virou o século do avesso, e que o hambúrguer e a coca-cola são os embaixadores do ocidente livre.

Pensando em termos de web, não foram os charmosos Macintosh que fizeram a internet crescer: foram os pc's sem marca, sem pai nem mãe, baratos e feiosos. Foram softwares gratuitos, programadores anônimos, empresários usando tênis que criaram as bases para a Internet peso-pesado, milionária.

Com ou sem Nasdaq, com ou sem oba-oba, aquilo que é fecundo na web progride, e sem alarde. As máquinas ganham potência e perdem peso. A tecnologia barateia. A web sai dos desktops e conquista o mundo portátil. Os aparelhos mais diversos começam a se entender via internet.

Os sintomas são claros: a internet ganha asas, se torna transparente. A tecnologia cai para o segundo plano, e o palco agora é dos homens novamente. Relacionamento, respeito, comunicação: essas sim são as tecnologias de ponta. Como no rádio.

Não erre: ao criar sua presença na web esbanje em planejamento, na contratação de recursos humanos, na escolha da infra-estrutura e equipamentos.

Ao desenhar o produto e sua interface, porém, seja espartano. Franciscano. Elegante. Less is more. Pense em Jumbos e desenvolva uma pipa.

Valorize a simplicidade, a rapidez. Priorize o conforto e a satisfação do usuário. Descubra os caminhos do coração do seu público. Faça a vida dele melhor, mais digna, mais leve.

Você está, afinal, lidando com gente, e para cativar esse bicho não hesite: mire no peito.




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