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internet tête-à-tête artigos de rené de paula jr. |
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A arte do caixeiro viajante. (29/10/97) Você não navega na Internet. Ninguém navega. O que acontece conosco é uma experiência estranha. Podemos ali ser vários, ignorar distâncias; o mundo se condensa num só ponto para se abrir inteiro. Ao sabor de um clique, rios de informações são mobilizados, e serpenteando por satélites e cabos, desembocam diante dos nossos olhos. Nossa viagem, porém, é imaginária. Quem viaja mesmo, e muito, é a informação. Há quem viaje muito. Os rincões do nosso país são percorridos há séculos por caixeiros viajantes. Sírios, orientais, italianos, antes mesmo de aprender nossa língua, aprenderam os caminhos, os rios, os trens que levavam até vilas e casarios Brasil adentro. Conheceram povoados, foram recebidos nos lares, aos poucos intuíram o gosto de cada um, e aperfeiçoaram sua arte. Quem tem caminhos acidentados pela frente deve abrir mão do supérfluo e do pesado. Apenas aquilo que pode interessar ao cliente deve ser levado, e nada pode se estragar pelo caminho, nem retardar o passo. Uma conduta muito cuidadosa é necessária quando se é forasteiro, quando se é visitante. O vendedor em um grande magazine está numa posição privilegiada: a loja é o seu território, ele tem todos os recursos a seu dispor, de seguranças a gerentes, e o cliente é o intruso. O caixeiro viajante, contudo, está só. Diante de si, cara a cara, estão novos fregueses, ao seu redor uma casa estranha numa cidade distante. Ele, que conta apenas com o que carrega consigo e com o que aprendeu, deve ter a etiqueta e o respeito de um embaixador, ou será expulso para nunca mais voltar. Criar para a Internet tem muito em comum com a aventura desses comerciantes, pois o mundo virtual funciona da mesma maneira: cada internauta habita uma aldeia que ele mesmo criou, selecionando a dedo quem e o que faz parte dela. Para que nosso trabalho possa entrar nesse mundo e conquistar um lugar, devemos criar sites consistentes e leves, flexíveis e estruturados, sedutores e objetivos. Esse equilíbrio do inconciliável pode ser nosso passaporte para o universo de cada um. Essa soberania de cada internauta é um fenômeno inédito, e desmonta em nós toda pretensão missionária ou de catequese. Não somos desbravadores diante de aborígenes nus. Não somos estilistas de vanguarda: somos alfaiates, cozinheiros, e ai de nós se desrespeitarmos o gosto do cliente. Não fomos nós que fizemos a Internet gigante, foram os milhões de usuários que apostaram nela, pessoas comuns que hoje deixam suas TVs de lado, desligam o rádio para ligar uma máquina indócil, instável, mas que lhes restitui magicamente a dignidade, soberania, e autonomia que o cotidiano lhes roubou. É tudo inédito e fascinante. Ninguém poderia prever essa reviravolta, e é muito cedo para falar do futuro, mas o presente é fecundo demais para que não dê frutos, e o contágio é mais rápido do que qualquer reação. Talvez a história humana tenha finalmente chegado à Primavera. Ou estou embriagado de otimismo. É possível, mas não sou o único. Somos milhões. E você está convidado a por o pé nessa estrada. |
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