internet tête-à-tête
artigos de rené de paula jr.


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Tudo que é sólido desmancha em bytes

Quem garante que a sua profissão, hoje tão necessária, amanhã não será substituída por uma rede neural? Ou por um tamagochi melhorado? Nada é seguro nessa revolução permanente.

Algumas especializações, porém, continuarão sendo insubstituíveis e muito rentáveis por um bom tempo, como vêm sendo há milênios. Os nomes talvez mudem para tradutor/intérprete de borra de café, scanner de palma de mão, técnico de telecomunicações etéreas e analista sênior de baralhos exóticos. Mas a teoria e prática serão as mesmas, se é que há teoria.

(essas profissões têm peculiaridades sedutoras: não requerem diploma, não pagam impostos e, o que é mais fascinante, erros crassos não desmerecem o adivinho).

O métier divinatório-profético-vidente deve sua glória imorredoura à um fantasma também imorredouro: o insondável. O outro lado da lua, a noite, o além-morte, nossos velhos fantasmas, têm agora um companheiro de mistério, o gosto da massa humana.

Para perscrutar esse novo arcano surgiu um upgrade da bola de cristal, a telinha do IBOPE. Aqueles números irrequietos e inexpressivos decidem a sorte de milhões de dólares.

Tudo que é movido por forças desconhecidas desperta em nós comportamentos mágicos. Para manter o IBOPE auspicioso, editores de jornal banem assuntos, favorecem outros, diretores de novela matam personagens, esticam romances, da mesma maneira como se sacrificam galinhas para reaver a esposa fugida. Fazem como nós, que ameaçamos com tapas inúteis ou palavrões impressoras indóceis.

Mas apesar da empáfia dos especialistas, a massa continua imprevisível. Por que a Coca-cola ganhou o mundo? E o blue jeans, quem explica? O chiclete? A música neo-sertaneja?

O som quadrifônico, por outro lado, caiu do galho, deu dois suspiros e depois morreu. O vídeo Betamax, o amor livre, as bonecas Dorminhocas, o comunismo, o Jerry Lewis, todos eles caíram em desgraça sem aviso prévio. Mistérios impenetráveis.

Pelo sim, pelo não, os grandes pajés do gosto da massa vêm apostando na infantilização global: consumo de bugigangas, entretenimento descartável, e todas as variações do egoísmo e irresponsabilidade. Alguns acertos milionários aqui, fracassos fragorosos ali, e continuam investindo em gomas de mascar mascaradas.

Aqui e ali na história, salvadores e revolucionários dedicaram suas vidas a nos redimir, a iluminar a massa e direcioná-la rumo ao que eles juravam ser muuuuito melhor. O destino desses heróis todos conhecem: a massa os mastigou, cuspiu a carcaça e engoliu um ou outro bocadinho mais saboroso.

Ingratidão? Mediocridade? Menos do que isso. A massa humana é mais esperta do que imaginamos. Quando uma espécie inteira ou mesmo apenas uma cultura local está em jogo, é loucura apostar o destino de todos na proposta de um só. É mais seguro acompanhar de longe o que sucede a esse revolucionário, aprender com ele uma coisinha ou outra, e deixar que o moderninho se arrebente. Uma espécie sabe o que tem a perder, e mal imagina o que pode ganhar. Daí a cautela.

Essa prudência misturada à curiosidade gera o vaivém das modas, o fracasso de reformas, e um aparente comodismo generalizado.

O sucesso e a expansão da Internet me surpreendem, e me enchem de otimismo. Milhões de pessoas estão apostando nessa mídia precária e nessas máquinas instáveis, sem que ninguém os force a isso. O que eles vêem de bom na Internet? O contato humano, a conquista de uma certa soberania, a liberdade de expressão, a informação imediata? Não sei, e tenho um receio: de que tentemos mudar os rumos da Internet e que a massa se desencante.

Mas eu ando tão entusiasmado que acho que a humanidade cansou de ser criança, e não está mais para brincadeira.

Se essa profecia falhar, o azar é nosso.

Minha dica da semana é Playbill Online: ali você pode comprar ingressos para todas as peças da temporada nos EUA. Funciona.




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