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internet tête-à-tête artigos de rené de paula jr. |
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Desafinado Minha energia eu uso mesmo é no Carnaval. Falo sério. É preciso o rebolado da Globeleza e a verve de Joãozinho Trinta para escapar incólume por 35 anos a esse maremoto, a essa endemia recorrente, a essa ditadura da alegria que é o Carnaval. Essa inglória resistência começou cedo e, criança ainda, me preocupou saber que quem não gosta de samba bom sujeito não é. Como eu não era doente do pé, então devia ser ruim da cabeça, diagnóstico que ainda está em aberto. Carnaval tem um lado bom: dura pouco, mesmo para quem mora do lado da Vai-Vai e convive meses a fio com preparativos ruidosos e apinhados. Um oba-oba que parece não terminar nunca, porém, é o da Internet brasileira. A tão temida quarta-feira de cinzas não chega nunca, e não há registro de ressacas maiores. A julgar pela cobertura da mídia, a internet é uma festa permanente, uma cornucópia de sucessos, um desfile de alegorias. Doce ilusão. Não culpo ninguém. A grande mídia entende tanto o que é internet quanto entende o que é carnaval: mostra carros alegóricos milionários, sambódromos, pop stars peladas e premiações encarniçadas. Mesmo sendo a antítese do folião, eu sei que a raiz do carnaval são o o carinho autêntico, a nudez de alma, a alegria sem medo, o abraço da multidão. O resto é pra inglês ver. Para minha alegria eu consigo, de tempos em tempos, puxar o meu banquinho e, com muita calma pra pensar, tendo tempo pra sonhar, passar pro papel o que se passa no meu coração vagabundo. Para afinarmos os instrumentos, o tom hoje é dó maior. Dó de quem acredita que a tecnologia por si só dignifica. Se isso tivesse fundamento, a felicidade geral dobraria a cada 18 meses, como a velocidade de processadores. Se isso fosse real, a chatice geral acabaria quando chegasse a banda larga; teríamos finalmente uma comunicação mais humana, você seria tratado como gente, e não como massa. Se isso fizesse sentido, então as mensagens que recebo pelo correio, no meu palm, no meu celular e no meu email me informariam mais e me estorvariam menos. Já que tecnologias não faltam, o que falta, então, para que a vida interativa se aproxime da felicidade prometida? Falta aquilo que nenhum computador pode dar: sensibilidade. Compromisso. Menos Nova Economia, mais Nova Humanidade. Menos tecno, mais carnaval autêntico. Menos flash, mais relevância. Menos foguetório, mais arquitetura de informação. Menos press-release, mais jornalismo. Pensando em marketing de relacionamento na web e CRM (Customer Relationship Management), o que vejo são três descompassos: - CRM faz um sucesso enorme, toca em todas as rádios, todos conhecem o refrão de cor, se comovem, mas ninguém compra o disco. - Você quer ser um pé-de-valsa em CRM. Você compra todos os discos, e de quebra uma aparelhagem caríssima. Mas ninguém vem te ensinar os passinhos e a ginga, e o kit CRM fica às moscas. - Você compra tudo, disco e aparelhagem, aprende a dançar, convida a empresa inteira para o baile sem fim do CRM, mas quase ninguém vem, e quem vem é tão desajeitado que pisa no pé dos consumidores o tempo todo, via e-mail, SMS, wap e PDA. Convergência do crioulo doido. Dei uma boa repassada em tudo que escrevi sobre web nos últimos anos (http://www.usina.com/textos), e percebo que sou repetitivo. É um samba de uma nota só. Mas se você disser que eu desafino, amor, saiba que isso em mim provoca imensa dor. Só privilegiados tem um micro igual ao seu. E se você insiste em classificar meu comportamento de anti-comercial, eu mesmo mentindo devo argumentar que isso é internet, isso é muito natural. O que você não sabe nem sequer pressente é que seus usuários também tem um coração. Parece que a mídia esqueceu o principal: que no peito dos seus usuários - no fundo do peito bate calado - que no peito do seu usuário também bate um coração. Quero a web sempre assim, até o apagar da velha chama. |
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