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Ao pé da letra
Um conhecido meu, muito querido, tem um carinho especial
por envelopes. Não envelopes quaisquer, mas aqueles com o selinho "Via
Aérea", com a borda verde e amarela, desses que papelarias vendem
a preço de banana. Essa ternura por um objeto prosaico vem de longe,
de um tempo doído, em que muitos brasileiros deixaram o país, querendo
ou não. Ele foi para Paris, onde se formou jornalista.
(Longe daqui brasileiros perdem o pé, perdem o viço, e enganam a fome
de Brasil com simulacros, batucando onde não devem, improvisando feijoadas,
jogando bola. E devoram e ruminam as menores migalhas de brasilidade
que lhes caem nas mãos, sejam revistas usadas, sonhos de valsa ou feijão.)
Naquele tempo um envelopinho tupiniquim trazia tesouros. Espremido em
caligrafia ansiosa, preenchendo linhas e entrelinhas, chegava bem dobradinho
um rio de brasileirice, saudades. Tudo dentro do envelope auriverde,
bendito.
Hoje os rios são outros. Envio para amigos jorros curtos de zeros e
uns, pouco mais que um frisson em fios de cobre, e, em uma tela qualquer
do mundo, letras que não são minhas vão compor sabe-se lá como a mensagem
que eu pari. Num milagre impalpável, elétrons inquietos carregaram pelo
mundo carinho, emoção.
Eu escrevi, meu amigo lerá. Comunicação silenciosa, lenta, profunda.
O que ele recebe foi pensado, sopesado, reescrito, e ele poderá degustar
aos bocados, saborear. Mesmo na vala comum de um Inbox as mensagens
não vão amarelar, nem se perder.
Em alguns anos, quando o besteirol em stereo surround nos engolir de
vez, talvez sintamos uma saudade boa não de envelopes coloridos, mas
do silêncio e do parto escondidos em cada e-mail, das hesitações no
teclado, da mensagem "Receiving 1 of 2 messages".
Alguém me indicou outro dia o programa ICQ, e resolvi testar.
Eu recomendo a todos: mal você se conecta, ele desperta e confere se
os seus amigos estão ou não on line. Com um clique, você envia mensagens
instantaneamente, abre chats em tempo real, confere e-mails inclusive.
Melhor que telepatia. Testem, eu recomendo.
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