internet tête-à-tête
artigos de rené de paula jr.


índice dos textos:

Terra a prazo. 

Ouvi há tempos uma historinha boa. O homem branco leva para uma tribo indígena uma polaroid. Convence um índio desconfiado a posar, enquadra o close e clica. A foto enfim se revela e ele a mostra, triunfante, ao seu modelo pelado. Para seu choque, o índio nem se comove. "Esse aí não sou eu. Eu tenho pernas". Um a zero para o time sem camisa.

Fui adquirindo um certo orgulho da nossa tupiniquice antropofágica de tanto conviver com estrangeiros e suas idiossincrasias .

Descartes não foi tão original assim, afinal vivia num mundo quase cartesiano. Queria vê-lo no meio do carnaval de Olinda.

Aliás, qual não deve ter sido o choque dos ibéricos que baixaram nestas terras quinhentos anos atrás. Com uma coragem beirando a insensatez, eles embarcaram em navios precários sonhando com terras de ouro e índias peladas. A pertinácia ibérica colonizou na marra o novo mundo, mas amancebou-se. E eis-nos aqui, ocidentais pero no mucho.

Bons tempos aqueles, em que se descobriam novos mundos. A China, hors-concours tradicional no quesito originalidade, agora é freguesa. Na falta de novidades, cientistas apontam antenas para o confim do universo e ficam ali, à espera de um sinal de vida.

Tenho receio de que um dia se descubra um universo paralelo, povoado por uma civilização intocada e próspera. Esse povo talvez nem chegasse a nos conhecer, porque provavelmente nos mataríamos antes disso, numa guerra maluca para decidir quem iria no primeiro comboio. Se coubesse a você compor essa comissão de frente, quem você incluiria? Antropólogos alemães? O Papa? A American Chamber of Commerce? A loira do tchan? Difícil decidir.

A Internet está passando por algo bem parecido. Ninguém sabe muito bem como, surgiu esse universo paralelo e populoso. Eis um Novo Mundo, uma "Terra Incognita"! Quando vejo a profusão de palestras, eventos e livros sobre como ganhar dinheiro com a Internet, penso nos antigos ibéricos desembarcando nas praias com a cruz em uma mão e a espada na outra. 

Cada novo navio traz missionários, exilados, visionários, mercadores, e os inevitáveis piratas. Não quero insinuar que os colonizadores vão acabar na panela, nem que os índios vão virar pinguços sifilíticos, mas para que todos saiam ganhando, há alguns cuidados a se tomar.

Os usuários da Web herdaram dos índios uma saudável repulsa à servidão, bem como um elevado senso de dignidade e liberdade. A aparente desorganização da Web esconde laços sociais e humanos complexos, numa teia de vínculos entre tribos e clãs. Quem ignorar isso e forçá-los a outra vida corre o risco de morrer na praia.

Metáforas à parte, a tecnologia interativa tem possibilidades infinitas, mas nem todas com a mesma chance de sucesso. Pessoas se conectaram a essa rede high-tech porque ali se sentem mais humanas. 

Você que está pensando em criar um website, pense bem em como melhorar a vida do seu usuário, e depois em como torná-lo seu freguês. Analise bem se o usuário vai se sentir à vontade no seu site, e faça muitos test-drives preliminares. Veja como associar o seu site a um site complementar, numa simbiose em que até o usuário ganhe. Pense em relações longas, em parcerias múltiplas. Não pense apenas na embalagem, pense no conteúdo.

Desta vez, quem precisa de catequese é quem vem para o Novo Mundo. Que é admirável, aliás.




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